Eles se fizeram notar

A ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo significou um salto para uma instituição cada vez mais sucateada e para um movimento estudantil que estava até então encolhido Por Aureliano Biancarelli  ...

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A ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo significou um salto para uma instituição cada vez mais sucateada e para um movimento estudantil que estava até então encolhido

Por Aureliano Biancarelli

 

Celebrou-se na madrugada gelada da segunda-feira, 4 de junho, sob uma lua azul, o casamento de Suely Vilela Sampaio e José Aristodemo Pinotti. Ela, doutora em ciências biológicas, 52 anos, é a primeira mulher no posto de reitora da Universidade de São Paulo. Ele, 72 anos, secretário de Ensino Superior do governo Serra, renomado médico ginecologista, tem passagens por vários postos de diferentes governos, além da reitoria da Unicamp.
Entre os padrinhos estavam o governador, de fuzil apontado para todo mundo, e a tropa de choque, cassetete em punho. A revista Fórum atrasou seu fechamento em algumas horas para poder acompanhar a cerimônia. Os convites eletrônicos lembravam que o casamento coroava um mês da ocupação da reitoria da USP e que uma “quadrilha” seria dançada para lembrar que muita gente estava querendo subtrair a autonomia da universidade. Ninguém quis ficar com o buquê atirado pela noiva.
É pouco provável que Suely e José sejam felizes para sempre, mas deverão estar juntos na alegria e na tristeza, pelo menos até que os decretos do governador, estopim da revolta, sejam revogados, ou os estudantes se cansem, ou se radicalizem, ou se desorganizem.
O casamento na madrugada foi um dos protestos bem-humorados dos estudantes que desde o dia 3 de maio ocupam a reitoria da principal universidade do país. Enquanto bandeirinhas eram penduradas lá fora, grupos no interior do prédio tratavam da pauta para a conversa que teriam na tarde daquela segunda-feira com a reitora.
Ninguém esperava que o encontro viesse a ser início de uma lua-de-mel, porque nos anteriores a reitora limitou-se a tratar dos pontos menos importantes – como transporte interno e bandejão aberto aos domingos – entre as 18 reivindicações dos estudantes.
O núcleo da discórdia está nos decretos publicados por Serra logo nas primeiras semanas de sua gestão, retirando das universidades paulistas autonomia para direcionar suas verbas e definir suas prioridades. Nada disso é dito com clareza, reconhecem os estudantes, mas ao criar uma Secretaria de Ensino Superior, o governo sinaliza que os reitores estarão sob a tutela de um órgão que fará o que o Executivo quer que faça. Na quinta-feira, 31 de maio, Serra publicou “decretos declaratórios”, recurso que a autoridade tem para explicar melhor aquilo que acha que não foi bem entendido.
“Foi um reconhecimento de que, de fato, a autonomia da universidade vem sendo ferida”, disse Carlos Gimenes, quintoanista de Ciências Sociais e um dos porta-vozes do movimento. Somadas, as fontes das três universidades públicas paulistas significam 9,57% do ICMs arrecadado, um bolo de R$ 5,5 bilhões em 2006. Compreensível que os governos sejam tentados a conservar tais valores sob seus mandos. Na prática, a universidade está sendo abandonada mesmo nas estruturas físicas, diz Claudionor Brandão, um dos representantes dos funcionários. “Em 20 anos, a universidade cresceu 30% e perdeu mil funcionários. São 4 mil postos de trabalho terceirizados, muitos sem direitos trabalhistas. Éramos 16 técnicos de manutenção em refrigeração e ar condicionado. Hoje somos 5. Os prédios e as instalações estão apodrecendo.”
Na mesma quinta, mesmo sabendo dos “decretos declaratórios”, centenas de estudantes participaram de uma marcha que pretendia chegar ao Palácio dos Bandeirantes, mas que foi interrompida pela polícia no meio do caminho. Um congestionamento gigantesco prejudicou o dia de milhares de pessoas. O diálogo teria evitado tudo isso, rebatem os estudantes. O próprio governador disse que a ocupação era uma questão de polícia e seu secretário da Justiça condicionou as negociações à retirada dos alunos.
Serra iniciou-se na política como dirigente da UNE em 1963, mas negociar com o governo seria legitimar a perda da autonomia da universidade, afirmam os ocupantes. “Nossa interlocutora é a reitora, que deve representar os interesses da comunidade da USP, não de seu patrão, o governador.”
Na tarde da sexta-feira, 1º de junho, no grupo que se forma na entrada da reitoria ocupada, o tema vai para a representatividade. A maior das assembléias desde a ocupação reuniu 2.500 estudantes, diante dos cerca de 80 mil graduandos e pós-graduandos dos vários campi. “Um pequeno bando” sem representatividade, como alguns órgãos de imprensa classificaram. Na verdade, a reação começou pequena, rapidamente contagiou as três universidades paulistas, USP, Unicamp e Unesp, e ganhou o apoio dos professores e funcionários, dizem os estudantes.
A diferença, desta vez, dizem os estudantes, é que a maioria deles não se manifesta mais como subordinados de siglas e correntes do tipo UNE, DCE, PSTU, PT. A própria ocupação foi decidida por cerca de 150 alunos que seguiram até a reitoria inconformados com o fato de a reitora não ter comparecido a uma audiência pública. Como foram impedidos de entrar para protocolar o protesto, os estudantes forçaram a porta e não saíram mais.
“Não queremos mais entidades que nos compravam com carteirinhas e que agora querem falar em nome dos nossos direitos”, disse Bruno Bicalho, 21 anos, primeiroanista do curso de Lazer e Turismo da USP zona leste. Mineiro, Bruno mora há cinco meses numa república da periferia paulistana e sua experiência de militante até então se limitava a uma passeata ao lado da mãe, professora, quando tinha dez anos. Na manhã do sábado, debaixo de goteiras da lona amarela que protegia a entrada do prédio, Bruno era o responsável por falar com os jornalistas enquanto dezenas de estudantes ainda dormiam depois de uma noite animada por assembléias e o cantor BNegão.
Independentemente do rumo que a esta altura as negociações tenham tomado, a ocupação significou um salto para uma instituição cada vez mais sucateada e para um movimento estudantil encolhido. De repente, a imprensa e a sociedade ¬– e os próprios professores e alunos –, perceberam que a universidade pública é um bem precioso. Se não zelarem por ela, haverá sempre quem queira tirar proveito.
“A ocupação vem sendo nosso melhor e mais intensivo curso de cidadania e direitos”, disse Samuel, o estudante de Artes Cênicas que fez o papel da noiva no casamento encenado. “Aqui se descobre que a universidade é pluralidade, não são apenas questões estudantis”, diz Danilo Bueno, 23 anos, quintoanista de Geografia que pela primeira vez participa de uma ação estudantil. “Aprendi a andar de bicicleta aqui no campus. Hoje os portões são trancados, só entra quem tem carteirinha. A universidade, que deveria se abrir para a sociedade, está se fechando cada vez mais.”
Na noite do domingo, 3 de junho, a revista Fórum visitou as áreas ocupadas pelos estudantes. “A comissão de segurança lacrou todas as salas onde estão equipamentos e documentos, para que se evite qualquer dano ao patrimônio”, explica o estudante que acompanha a visita. São mais de 200 alunos reunidos em diversos espaços do térreo, em um deles há dezenas de colchões e mochilas alinhados. Nas últimas semanas, as salas e saguões têm servido de palco para debates sobre temas como autogestão, previdência, autonomia universitária, parcerias com a sociedade. Entre os palestrantes, muitos professores da própria USP. Entre os visitantes, muitos estudantes do Ensino Médio que vêm da periferia e cidades vizinhas para “aprender” com a ocupação.
Está para começar o “casamento” lá fora e os bolos de fubá e chocolate estão no forno da cozinha improvisada no interior da reitoria. “Quem está no comando da cozinha?”, alguém pergunta. A resposta vem de várias bocas: “Aqui ninguém comanda ninguém”.



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