Em busca da outra energia

Nem acordo internacional nem soluções de mercado. A solução para o problema do aquecimento global passa inevitavelmente por uma mudança na matriz energética Por Glauco Faria  ...

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Nem acordo internacional nem soluções de mercado. A solução para o problema do aquecimento global passa inevitavelmente por uma mudança na matriz energética

Por Glauco Faria

 

Se o relatório do IPCC estiver correto e o aquecimento global for de fato um resultado exclusivo da ação humana, somente uma mudança da matriz energética poderia ajudar a frear esse processo. É isso que afirma o economista José Eli da Veiga, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em desenvolvimento sustentável. Para ele, acordos internacionais como o Protocolo de Kyoto não vão resolver. “Tem quem ache mais importante essa linha do que priorizar o investimento em ciência e tecnologia para acelerar a vinda dessas tecnologias que permitirão sair dessa dependência da matriz petrolífera”, argumenta. Confira abaixo trechos da entrevista com Veiga.

FÓRUM – Desde o Protocolo de Kyoto, embora houvesse expectativas, o processo de emissão de poluentes que contribui para o aquecimento global não foi reduzido. Por que isso aconteceu?
JOSÉ ELI DA VEIGA –
Vamos por partes. Em primeiro lugar, o Protocolo de Kyoto foi um compromisso muito equivocado, primeiro porque a redução estabelecida nele é anódina e hoje, ainda assim, só três países conseguiram cumpri-lo. Mesmo países como a França, por exemplo, que tinha como meta apenas estabilizar a emissão de poluentes sem precisar reduzir, não conseguiram. Além disso tudo, o fato de ter deixado de fora a principal potência econômica mundial e maior emissor de poluentes, os Estados Unidos, acho um pouco tragicômico. Ainda que todo mundo tivesse cumprido suas metas e os EUA tivessem entrado, o aquecimento iria continuar. Se, de fato, a tese do IPCC estiver correta e 100% do problema for de responsabilidade das tarefas humanas, só uma mudança da matriz energética, que depende de tecnologias que não temos – estão anunciadas mas ainda não surgiram –, só isso poderia resolver. Acordos internacionais não vão resolver. Mas não é todo mundo que pensa assim, há quem ache mais importante a linha adotada no Protocolo do que priorizar o investimento em ciência e tecnologia para acelerar a vinda dessas tecnologias que permitirão sair dessa dependência da matriz petrolífera.

FÓRUM – Na prática, as metas do Protocolo frente ao tamanho do problema são tímidas.
VEIGA –
Foi um arranjo institucional fracassado desde o início.

FÓRUM – Mas é possível vislumbrar uma mudança na matriz energética em um prazo relativamente curto?
VEIGA –
Há algumas coisas que são incrementais e que já estão entrando aos poucos no mercado. Na Inglaterra, por exemplo, já está entrando no mercado uma tecnologia que gera energia a partir das ondas e das marés. Nada disso, evidentemente, promete ser uma revolução. O que vai ser uma revolução, já anunciada, mas que vai levar algumas décadas ainda pra ser bem sucedida é o hidrogênio. E tem outras coisas mais para frente, lá no final do século provavelmente teremos a fusão nuclear, uma coisa em que se está investindo, mas os primeiros resultados surgiriam em 2050, ou seja, não seria uma solução, mas algo promissor. Mas é disso que estamos falando, a saída do petróleo vai ser muito acelerada quando seu preço começar a aumentar por causa da escassez. Mas o correto seria que antes do petróleo chegar a esse nível já se estivesse montando um sistema de tecnologia capaz de supri-lo.

FÓRUM – Existe algum país que esteja hoje mais avançado nessa questão da mudança da matriz energética?
VEIGA –
O único país que citaria é a Suécia, que assumiu um compromisso de se livrar do petróleo com uma política estratégica e tem até uma data para não ser mais dependente do petróleo, 2020.

FÓRUM – O que eles estão fazendo objetivamente para cumprir essa meta?
VEIGA –
Não tenho detalhes, mas se você começa a investir em tudo que é tecnologia alternativa desde o que está disponível e complementa com o uso nuclear, que é o que eles estão pensando. Por exemplo, muita energia fóssil é utilizada para produzir eletricidade, claro que tem o problema lixo atômico, mas países como a Suécia talvez consigam fazer uma gestão boa disso.

FÓRUM – Segundo estimativas, a China deve ultrapassar em breve os EUA na liderança da emissão de poluentes…
VEIGA –
Será até pior porque no caso da China ela é particularmente dependente do carvão e do petróleo.

FÓRUM – Seria uma questão de modelo de desenvolvimento?
VEIGA –
Veja, as pessoas sempre pegam essa coisa de modelo como se fosse uma coisa pronta que você vai a uma loja e escolhe. Quando digo que o problema só pode ser superado se novas tecnologias surgirem, isso vai ser uma alteração brutal no modelo econômico. Se vier a revolução do hidrogênio, isso altera tudo porque toda nossa economia foi construída em grande parte em torno do petróleo, moldando a indústria automobilística como ela é hoje, a infra-estrutura de abastecimento, tudo teria que mudar.
Mas se você me perguntar se a China deveria ou não seguir esse padrão de consumo, na ausência de uma solução tecnológica, como se pode condenar um país de querer ter acesso às coisas que dão conforto à humanidade e ela conseguiu em tão pouco tempo. E por que os americanos tiveram direito, os europeus e os chineses não teriam? Ouço muito isso e começa a me incomodar. Dá impressão de que agora eles não têm direito a ter um carro. O problema não é o carro, o problema é saber que motor. Quando a massa dos chineses tiver carro, espero que o motor não seja mais esse. Agora, se for, realmente vai ser um desastre, mas nem por isso vou colocar as coisas em um plano de condená-los por querer isso.

FÓRUM – Os países desenvolvidos dizem aos países em desenvolvimento que eles não podem mais poluir…
VEIGA –
Mas ouço mais essa história sobre a China aqui do que nos países desenvolvidos. Tem duas coisas problemáticas. Primeiro, é uma coisa extremamente malthusiana. O Malthus quando fez sua teoria esqueceu da mudança tecnológica. Quando a população da Índia e da China chegar a um padrão de consumo norte-americano, é porque a tecnologia mudou. Segundo, por que fazer esse raciocínio de que no fundo a conclusão é que eles têm que segurar o consumismo lá. Não é por aí, mas isso é extremamente comum, acho que não tem uma vez que eu faça uma palestra sobre desenvolvimento sustentável e não venha alguém com alguma pergunta desenvolver esse raciocínio, que é malthusiano e antidemocrático. O conforto de se ter um carro, mobilidade para sair no fim de semana com a família é uma conquista muito recente da humanidade. Aí você vai querer limitar determinada nação em ter porque eles são muitos? É um raciocínio autoritário e aristocrático.

FÓRUM – E qual sua opinião em relação às “soluções de mercado” pra o meio ambiente, como créditos de carbono, por exemplo?
VEIGA –
Esses mercados que estão surgindo podem até ser bem-vindos desde que não virem picaretagem, porque às vezes é isso mesmo. Mas a questão não é por aí. Acho que os mercados que vão surgir nesse processo e serão fundamentais são os que serão abertos pelas novas tecnologias. Esse mercado de direito de poluir é um mercado interessante em uma visão de transição, mercado pra valer mesmo é quando surgir o hidrogênio que vai implicar em mudanças de uma série de coisas, inclusive do sistema de transporte. Então, se é pra falar de mercado, vamos falar do mercado que vale a pena e não esse de crédito de carbonos que, no fundo, é pra dar mais um tempo para continuar poluindo, o que é realista, já que não se pode obrigar as empresas a darem um salto tecnológico de uma hora para outra. Mas não vamos ficar glorificando isso como se fosse a solução; pra muita gente, por exemplo, dependendo do princípio ético que você adotar, o problema é que tem que parar tudo; portanto, fazer esse mercado de carbono pode ser uma forma de prolongar o problema.



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