Eterna Noiva Fugida

Crônica de Fausto Wolf Por Fausto Wolf   “Não, não vou pra Brasilia, nem eu nem minha família, nem que seja pra ficar cheio da grana” dizia...

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Crônica de Fausto Wolf

Por Fausto Wolf

 

“Não, não vou pra Brasilia, nem eu nem minha família, nem que seja pra ficar cheio da grana” dizia Billy Blanco no fim dos anos 50 do século passado. Fiz a reportagem Belém-Brasilia, mais de uma semana rodando sobre estradas e picadas de terra batida. Foi quando entendi que quem sabe de homem é bicho. Não vi um. Na medida em que o homem entrava na selva, o animal sumia. O índio também, mas não tão depressa, por isso era morto, como até hoje, com maior facilidade. Em Brasilia tive oportunidade de conhecer pessoalmente o presidente Juscelino, sua esposa e as duas mocinhas pouco mais que adolescentes Márcia e Maristela. Ao fundo contra aquele horizonte de paz selvagem, um cartaz em gás neon: JK65. Acabei tonando-me amigo dele que certa vez recolocou no lugar um osso deslocado da minha clavícula. O cruel e ignorante golpe de 64 nos separou e posteriormente a morte, que gosta de fazer isso com tudo que está vivo, tornou a separação definitiva. Da outra vez que estive em Brasília tive de fugir para não ser preso. Não gosto de Brasília embora goste da obra de Niemeyer um homem de bem e nosso maior artista vivo.

Qualquer lugar sem esquinas e botecos carece de caráter, é muito traiçoeiro. Se isso vale para o mar e para o Saara, imaginem para Brasília e este monumento ao mau gosto que é a Barra da Tijuca! Um dia – nós cariocas – ainda daremos um jeito de tornar essa barra independente e exigir passaporte para barrense que quiser vir ao Rio que em vez de prefeito tem um decorador, o Maiá que cobra os olhos da cara do povo. Além de não ostentar esquinas e caráter, Brasília é riquíssima num metal magnético cobiça que atrái todo mundo para lá. Os vigaristas adoram e enriquecem. A minoria, honesta, na primeira oportunidade dá um jeito de ir embora. A grande maioria de miseráveis não tem como ir embora e mora nas favelas em torno de algumas das mansões mais luxuosas do mundo pertencentes a homens ricos e naturalmente corruptos.

A culpa não cabe a Niemeyer e nem a Kubitschek que atendeu os interesses das empresas de gasolina americanas e construiu rodovias em vez de estradas de ferro como o fizeram os Estados Unidos ligando leste e oeste, sul e norte e proporcionando a reforma agrária ainda no século XIX. Poderia estruturar de tal forma o transporte fluvial para torná-lo o mais notável da Terra com Amazonas, Negro, Paraná, São Francisco etc. Poderia ter dado início à reforma agrária e só, então, depois que não houvesse um só brasileiro com fome, depois que nos tornássemos o celeiro do mundo, depois que houvéssemos nos libertado dos grilhões que nos prendem ao III e todas as suas mazelas, então, sim, poderíamos partir para a indústria nacional que ainda não descobri onde está, pois apesar da mão de obra mais barata do planeta o produto final leva um nome estrangeiro e é caro demais para qualquer trabalhador.

Alguém poderá dizer que é fácil sonhar com um passado impossível . Brasília é a Ilha de Circe, a Deusa, que tem a capacidade de transformar homens em porcos que abrem mão de vergonha, caráter, modéstia, honestidade – sas vas sans dire – e qualquer forma de escrúpulo desde que recebam um pouco de atenção dessa monstra cujo verdadeiro rosto não conseguem enxergar. A Deusa aceita todo o tipo de amante, jovem, velho, gordo, magro, alto, baixo desde que abra mão de sua alma, de sua personalidade. A Ilha de Circe divide-se em ricos e poderosos de um lado – a classe média composta de profissionais liberais boquinhas de siri no meio – e os indesejados – leia-se povo, no outro.
Já houve época em que jovens deputados eram eleitos e iam para a Ilha de Circe cheios de idealismo e coragem. Logo, porém, eram estigmatizados no próprio partidinho. Finalmente, com FHC, um sorbonado que gosta de fazer as coisas diplomaticamente formou-se um partido único, senão de direito, de fato: o Partidão Brasileiro da M e este M aí também vale também para máfia. Pensem bem: as mulheres dos comunistas freqüentam os mesmos cabeleireiros dos entreguistas; os filhos dos nacionalistas estudam na mesma escola dos filhos dos internacionalistas. À noite todos se vêem nas mesmas festas e nas mesmas buates, ruralistas e reformeiros, e quando alguém fala em estatuto de partido todos começam a rir um riso meio doente e assutador.
Não importa o que os sócios do Partido Brasileiro da M tenha feito para chegar ao poder. Uma vez dentro dele qualquer membro estará protegido desde que não dê bandeira exageradamente grande como aqueles ladrões de Rondônia, o Naya, o Lalau e alguns poucos outros. Quem quer abandonar uma ilha que não cobra nada para os moradores e suga tudo dos forasteiros? Quem não quer morar numa ilha onde você pode até incendiar índio e ainda assim terá emprego público garantido? Quem não quer morar numa ilha onde sabe de antemão que seu filho, mesmo sem um cérebro, será eleito?

No momento em que escrevo o presidente Lula cercado de seus ministros brilhantes, incapazes e razoavelmente mentirosos, informa que não abandonará o amigo Roberto Jefferson, um homem que quando vi pela primeira vez num nojento programa de televisão disse para os que estavam na sala comigo:
-Olhem, o Roberto Jefferson ali.
– Como você sabe? – perguntaram.
– Tem cara de Roberto Jefferson – respondi. – Nunca se livrará dessa praga. Será sempre Roberto Jefferson não importa para onde fuja.
– E Lula?
– Era Lula no passado continuará em Brasília fazendo papel de Lula até o dia em que transferirem a capital para o Rio. Se a TV não tiver enlouquecido o povo completamente, poderá levar na cuca aquela picaretada destinada ao Sarney quando ele ousou mostrar a cara no centro carioca. Triste consolo para quem sempre sonhou com a democracia, eterna noiva fugidia



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