Guerreiro incansável

Mesmo ameaçado de morte e perto da aposentadoria, Dom Pedro Casaldáliga reafirma seus ideais e segue denunciando a violência no campo Por   A dificuldade em conciliar...

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Mesmo ameaçado de morte e perto da aposentadoria, Dom Pedro Casaldáliga reafirma seus ideais e segue denunciando a violência no campo

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A dificuldade em conciliar os interesses do setor do agronegócio com um projeto de reforma agrária é um dos principais empecilhos da ação do governo, que muitas vezes toma medidas contraditórias. É essa a opinião de Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia desde 1971, histórico defensor dos direitos humanos e uma das pessoas ameaçadas de morte em função dos conflitos agrários no país. Prestes a se aposentar, aos 77 anos, Dom Pedro Casaldáliga não perde a esperança. O bispo acredita que são possíveis outros modelos tanto de agronegócio quanto de democracia. Confira abaixo trechos da entrevista.

Revista Fórum – O senhor vê relação entre a violência no campo e o agronegócio? D. Pedro Casaldáliga – A violência no campo é um problema secular que acompanha a história do Brasil. Desde as sesmarias, temos os latifúndios sendo apropriados por poucos. Hoje essa prática tem o nome moderno de agronegócio. Esse termo esconde os males causados pela acomodação capitalista nas mãos de poucos, as empresas que violam a natureza com desmatamentos e uso de agrotóxicos. Além disso, o agronegócio não cria empregos, ele desemprega, pois a tecnologia pede pouca mão-de-obra. Também há o fato de que a agricultura que ele produz é basicamente voltada à exportação e ainda utiliza formas de trabalho degradantes, e mesmo escravo, em regiões como o sul e o norte do Mato Grosso e em Tocantins.

O senhor citou a questão da agricultura voltada à exportação. Qual sua análise a respeito da ênfase dada à produção para o mercado externo? 
É um modelo que serve basicamente para prestar contas ao FMI e ao Banco Mundial e esquece nossas necessidades internas. Em uma situação como esta, são imprescindíveis ações como a do MST e de outros movimentos populares.

E quanto ao modelo de reforma agrária que se vem tentando implantar no país? Temos de entender que reforma agrária não é apenas uma questão de distribuição de terras, mas envolve uma infra-estrutura que deve ser pensada em longo prazo, levando em conta os jovens, já que eles têm de perceber que podem realizar seus sonhos ali no campo. Há muitos anos temos uma onda de migração do campo para a cidade. Ainda temos retirantes, mas também há um movimento que vai da cidade para o campo, formado por desempregados urbanos. E há ainda o deslocamento do campo para o campo formado pelos pequenos agricultores que têm suas terras invadidas pela grande agricultura que usa a moderna tecnologia. Muitos deles saem do sul e vão para regiões como a Amazônia para buscar um pedaço de terra melhor.

O governo tem sido efetivo na implementação do seu projeto de reforma agrária? O governo às vezes apresenta uma espécie de esquizofrenia. De um lado, temos a ministra Marina da Silva, que pode ser considerada uma mártir em sua luta. De outro, ministros relacionados aos interesses da agroindústria. Vejo que há ministérios que o governo considera de “primeira classe” e outros, ligados aos interesses do povo, que são considerados de “segunda”.

E o que mudou na migração do campo para a cidade nos dias de hoje? Uma das suas características é que poucos desses migrantes conseguem colocação na cidade grande. Muitos tornam-se favelados e são marginalizados pela sociedade. O fenômeno da migração atual atinge internamente estados como Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. Eu me lembro de que na época em que conheci Curitiba não havia favelas. Hoje, os paranaenses sabem o que é uma favela e o que é a violência.

Como o senhor compara a situação da violência no campo nos governos Lula e FHC? Percebe-se que, no país inteiro, a corrupção tem sido mais exposta no governo Lula. Houve a prisão de políticos, pessoas do Poder Judiciário e mesmo do setor agrícola. Porém, a grilagem, a pistolagem e a corrupção ainda fazem parte do cotidiano do brasileiro. A justiça continua lenta, apesar de o Ministério da Justiça estar agindo bem.

Mas os ruralistas ainda preservam um poder de influência forte junto aos meios políticos do país… O agronegócio tem na bancada ruralista do Congresso Nacional uma força poderosa. Mas vejo que a UDR tem pouco peso político nos dias atuais. O fato é que, muitas vezes, membros do Congresso e da bancada ruralista são sócios de grandes empresas do setor. Isto é uma espécie de privatização do Estado, o Brasil ficou refém de políticas neoliberais que causaram a diminuição (do poder de atuação do Estado) e aumentaram a influência das grandes empresas transnacionais no âmbito político.
Acho que, no caso do Brasil, há uma tentativa de “humanizar” o neoliberalismo, quando na verdade apenas alguns continuam favorecidos. O neoliberalismo tem políticas de governo da elite, voltadas para a elite, em governos feitos com a elite. Acredito que quando é dito, durante o Fórum Social Mundial, que um outro mundo é possível, também podemos dizer que uma outra democracia é possível.

Há incompatibilidade entre a reforma agrária e o agronegócio? O agronegócio latifundiário, predador, destruidor, não cabe ao lado de uma reforma agrária. Porém, assim como um outro mundo e uma outra democracia são possíveis, acredito que um outro modelo de agronegócio é possível.



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