História de um lado só

A grande imprensa deixa de lado o jornalismo investigativo e adota versões de acusadores suspeitos sem fazer qualquer tipo de análise ou reflexão

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A grande imprensa deixa de lado o jornalismo investigativo e adota versões de acusadores suspeitos sem fazer qualquer tipo de análise ou reflexão

Por Glauco Faria

“A liberdade de imprensa só usada pelos donos das empresas. Em quarenta anos de jornalismo nunca vi liberdade de imprensa. Ela só é possível para os donos do jornal. Os jornalistas não podem ter opinião, mas os jornais têm suas opiniões sobre as coisas, que estão presentes nos editoriais e nos textos das pessoas que escrevem por linhas paralelas às dos jornais”. Esse trecho é extraído do livro “A Regra do Jogo”, obra de Cláudio Abramo, considerada leitura obrigatória na maior parte dos cursos de jornalismo espalhados pelo país. Ali, o experiente jornalista desnuda mecanismos da grande imprensa que parecem ter sido esquecidos por seus colegas de profissão que trabalham nas redações de hoje.

A cobertura da crise política e as diversas denúncias que têm vindo à tona a respeito da atuação de importantes veículos midiáticos em conluio com empresas privadas mostram que esse é o momento da grande mídia descer da posição de implacável juíza dos fatos e começar a olhar para seus próprios métodos. Desde que o presidente do PTB Roberto Jefferson concedeu sua primeira entrevista à Folha de S. Paulo, a imprensa vem fazendo uma cobertura claramente enviesada dos fatos e dos personagens envolvidos no caso, esquecendo mais uma regra básica dos manuais: buscar o “por que”. Tanto as razões que levaram Roberto Jefferson a falar para a Folha de S. Paulo como o fato da fita com a gravação de Mauricio Marinho chegar até a Veja não foram esclarecidas e sequer investigadas.

Quanto à motivação do petebista, a jornalista Renata Lo Prete, em um chat com internautas no dia 9 de junho, responde de forma bastante pueril:

Tereza: Oi, Renata, antes de mais nada, parabéns a você e à Folha pela iniciativa do bate-papo. Primeira pergunta: o que vc acredita que o Jefferson pretende ao fazer tais acusações?
Renata Lo Prete: Obrigada, Tereza. Acho que ele pretende indicar que há mais coisas em torno dos casos que vinham ocupando o noticiário (denúncias nos Correios e no IRB) do que se imaginava inicialmente.

Simples, não? A única pretensão do presidente do PTB é “indicar que há mais coisas”. Mas a ausência completa de qualquer investigação jornalística não se restringe à Folha, é uma marca de quase todos os veículos da grande mídia. Além disso, fatos distintos se misturam em uma grande salada em que o cidadão não consegue saber exatamente o que está ocorrendo.

Doutorando em Lingüística na Unicamp e mestre em Comunicação pela UFF, Wedencley Alves tem acompanhado com atenção a cobertura midiática e aponta algumas incongruências e questões que deveriam ser abordadas pela imprensa e não o são. “Não se pode fazer o que a Folha fez no dia 26, na reportagem sobre a suposta irregularidade em Mauá. Ela simplesmente ignorou que existia uma briga entre acusador e acusado e estampou que fulano foi achacado, sendo que a própria vítima nega”, comenta. “Não é correto colocar isso como manchete do jornal de domingo e, ainda por cima, tentar legitimar a informação dizendo no título que se trata de um ‘ex-petista’”.

O caso citado por Wedencley é emblemático. A Folha deu capa na edição de domingo para a tal denúncia. Altivo Ovando Júnior, atual secretário de Habitação em Mauá, inimigo político do PT, foi a única fonte de um suposto esquema de arrecadação de fundos que teriam ido para a campanha de Marta Suplicy no ano 2000. O dinheiro teria vindo do Grupo Peralta para facilitar a construção de um shopping na cidade. Apesar da negativa da empresa, o jornal bancou a matéria com amplo destaque. No dia 30 de junho, a mesma Folha publicava uma pequena matéria, no pé da página A 12, destacando que o secretário havia desmentido alguns pontos de seu depoimento ao Ministério Público em nova entrevista à rádio CBN. A incoerência e a fragilidade da denúncia demonstradas na fala de Altivo mereceram bem menos espaço que a “bombástica” revelação.

À denúncia de Mauá se juntaram outros fatos, como um suposto “mensalão” na administração Marta Suplicy. Casos e contextos desconexos que tem como único ponto em comum o fato de serem denúncias contra o PT. O Estado de S. Paulo, por exemplo, deu voz a Rui Vicentini, que acusa o PT paulistano de ter tentado “comprar” o apoio do PPS para a reeleição da petista. O presidente municipal do partido, Carlos Fernandes negou, os supostos envolvidos pelo lado do PT idem, o acusador não apresentou provas. Mesmo assim, foi dado o destaque. Um detalhe relevante é que Vicentini havia sido detido pela Polícia Federal por evasão de divisas e, segundo Carlos Fernandes, ele “imaginava que o partido (PT) pudesse estar por trás de sua prisão”.

Já a Veja, que tem na ex-prefeita um de seus principais alvos, além de se referir sempre a ela como “perua”, adjetivo chulo e com forte conotação sexista, repisa as mesmas informações toda semana. “A revista ter uma posição editorial contra a prefeita tudo bem, há coisas que podem ser criticadas em sua administração. O que não pode é inventar fatos. Isso os nazistas faziam muito bem”, critica o cientista político Fernando Abrucio, da PUC-SP.

Blindagem do PSDB?

A profusão de notícias, em lugar de aprofundar a análise dos fatos, torna a imprensa incapaz de explicar a seu público todo o emaranhado da crise política em Brasília. “O ponto negativo é a fraqueza da análise. A imprensa até tem sido competente em mostrar alguns fatos, mas não tem capacidade de avaliar o que está por trás dessas denúncias”, sustenta Abrucio. “Há uma série de questões sobre administração pública, sobre regulação estatal, o papel do Estado na economia nessa história que a imprensa não tem condições de analisar”, completa.

O depoimento do deputado Roberto Jefferson tinha claramente a intenção de atingir membros do PT e do governo, além do PL e do PP, citados também pelo deputado. No entanto, as pesquisas de opinião pública mostram uma percepção diferente da população a respeito dos fatos. O Ibope divulgou uma pesquisa realizada no último dia 24 de junho mostrando que 61% dos entrevistados acreditam nas denúncias de Roberto Jefferson. No entanto, o instituto também questionou a respeito da participação de alguns partidos no “mensalão”. Além daqueles citados pelo petebista, a pesquisa incluiu o PFL e para 65% o partido tinha deputados que recebiam o dinheiro, o que mostra que a confusão midiática acaba tendo efeitos inesperados, atingindo todo o cenário político nacional. Um dado interessante da amostragem é a ausência da pergunta sobre um eventual envolvimento dos tucanos no escândalo. “Curiosamente, a pesquisa não perguntou especificamente pelo PSDB, mas como o partido anda junto na oposição ao governo, não é difícil imaginar que usufrua de um percentual parecido ao do PFL”, constata Wedencley Alves.

Desde sempre, a cobertura da imprensa tem tido esse “cuidado” em relação a tudo o que envolve o tucanato, e isso não constitui novidade. Mas esse zelo excessivo tem contrariado as regras mais óbvias do jornalismo. Às vezes, tem-se a impressão de que o jornalista está fugindo da notícia, querendo apenas falar do que já é sabido, ignorando qualquer fato novo que venha à tona.
Um exemplo disso foi a exibição do programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, no dia 20 de junho. O inquirido Roberto Jefferson desfilou sua verve e gestos teatrais em frente a uma bancada que não parecia nada disposta a saber algo de novo do deputado. Mesmo assim, em dado momento do programa o jornalista Tales Faria, da Istoé, perguntou ao petebista:

“- O senhor foi aliado do PSDB…
– Sim, no primeiro governo.
– Houve na campanha repasse do PSDB para o PTB?
– No início, do PTB para o PSDB. O primeiro repasse feito para a campanha do presidente Fernando Henrique foi do ex-presidente do PTB José Eduardo Andrade Vieira”

Subitamente, o âncora Paulo Markun interveio na conversa, produzindo um curioso diálogo com Jefferson:

“- Mas esse foi um repasse legal
– Numa parte, né?
– Bom, pelo menos tem uma parte que é…”

Após a inusitada intervenção, o jornalista da IstoÉ voltou à carga com o petebista:

“- Então houve repasse não declarado?
– Você tem dúvida disso, Tales Faria?”

Corte para o intervalo comercial e ali morreu o assunto. O envolvimento do PSDB em repasses ilegais de campanha, o único dado novo em toda a morna entrevista foi simplesmente ignorado, tendo quase nenhum destaque na imprensa escrita no dia seguinte. Nenhum tucano foi questionado a respeito, dando a nítida impressão de que as denúncias têm peso bastante diferenciado, de acordo com quem é acusado.

A entrevista de Fernanda Karina Somaggio à Istoé Dinheiro também tem momento semelhante. Um trecho da conversa revela o envolvimento da agência SMP&B, de Marcos Valério, com um tucano de alta plumagem:

Dinheiro – A senhora pode relatar alguns pagamentos feitos pela SMP&B?
Karina – Houve um pagamento de R$ 150 mil para o Pimenta da Veiga (ministro das Comunicações no governo FHC), dividido em duas contas. Foi uma ordem para o banco BMG mandar o depósito.
Dinheiro – E aparece o nome do Pimenta da Veiga?
Karina – Claro.
Dinheiro – Depósito no Brasil? No exterior?
Karina – No Brasil. A menor parte na conta dele e a maior parte na conta de outra pessoa, um assessor dele.
Dinheiro – Mas ele fez parte da equipe do governo passado?
Karina – A coisa não começou só agora, com o PT.
Se presumimos como verdade o que a secretária diz (e esse é o comportamento de boa parte da mídia), esse era um fio do novelo que deveria ser desvelado. Afinal, esse é um dado novo que pode elucidar a sempre obscura relação de agências de publicidade com o Poder Público. Porém, o jornalista Leonardo Attuch prefere ignorar o dado ou a óbvia pergunta seguinte (“Começou quando?”) e perguntar o que mais havia em sua agenda. Mas ao menos Attuch foi atrás do “porquê” e Fernanda foi bastante clara:
Dinheiro – Qual a sua motivação ao fazer essas denúncias?
Karina – Quero que o Marcos Valério se exploda.
Dinheiro – Por quê?
Karina – Porque o que ele mais gosta é dinheiro. E nisso ele vai perder muito dinheiro.
Pouco se fala também que Marcos Valério foi sócio de Clésio Andrade, PL), vice-governador e companheiro de chapa de Aécio Neves.

“A mídia é parte integrante, um ator de todo esse processo. A cobertura dos grandes meios, de modo geral, também implica a movimentação dentro de um jogo político do qual a mídia faz parte”, explica o pesquisador Venício Lima, autor do livro Mídia – Teoria e Política. “O problema do jornalismo não é a questão dele ser partidário, mas sim de se vender como imparcial”, completa Wedencley Alves. “Na França, quando o leitor vê o Liberation ou o Le Figaro, ele sabe de que lado cada jornal está. O Brasil importa o modelo americano, mas lá existe um equilíbrio partidário que não se reflete aqui”, acrescenta.

As vestais da moralidade 

Não é apenas a cobertura da crise que vem dando mostras de que os grandes veículos de comunicação têm interesses bastante particulares, que não têm a ver exatamente com o direito público à informação. Como dificilmente a mídia exerce a auto-crítica, passou ao largo do conhecimento de boa parte da opinião pública o caso Schincariol, em que a Polícia Federal revelou a gravação de uma conversa entre o publicitário Luís Lara, da agência Lew, responsável por uma parte da conta da cervejaria, e o executivo Adriano Schincariol. Ali, Lara citou as revistas ‘Época’ e ‘Isto É’, sugeriu que a Schincariol comprasse publicidade na editora Três, que publica a Istoé, o que seria um caminho para “conseguir o que quisesse” em suas publicações. Em fevereiro, a Istoé Dinheiro publicou capa com o título “A virada da Schin”. Coincidência?

O tratamento dado à prisão dos donos da cervejaria também foi algo típico da vassalagem da mídia. Enquanto apresentam programas vespertinos em que apresentadores se regozijam enquanto algum acusado é preso, a ação da Polícia Federal foi recebida com muito cuidado pelas TVs e outros veículos de comunicação. Após bradar contra o PT durante boa parte do noticiário, Boris Casoy foi extremamente cauteloso em relação à ação da PF, chegando a dizer que, até onde se sabia, a família Schincariol era “gente de bem”. Já Reinaldo Azevedo, no site da tucaníssima Primeira Leitura, mostrava um pouco de sua, digamos, ética peculiar: “Quero crer que a Justiça tenha bons motivos para ter expedido os mandados de prisão e de busca e apreensão e que as ações da Polícia Federal estão dentro da lei. Tomara que sim! (…) Se os Schincariol, ou quem quer que seja, são culpados, que fiquem em cana. Mas não me parecem mais bandidos do que quem pega propina de bicheiro para negociar bens públicos e está solto por aí”.

O trato dispensado à Schincariol contrasta frontalmente com aquele dado a nomes do governo. Aos primeiros, ainda que oficialmente indiciados, com investigações de dois anos feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, o benefício da dúvida, já que são historicamente “gente de bem”. Os petistas e seus aliados, no entanto, são tratados como culpados, mesmo que a única “prova” seja o testemunho de Roberto Jéferson.

A explicação para isso é simples: a mídia tem lado. “O governo Lula está agradando a parte da elite como o setor financeiro, os grandes bancos, mas por outro lado ele representa uma tentativa de distribuição de renda para camadas da população historicamente excluídas, por meio de programas sociais, o que contraria muito interesses”, analisa Venício Lima. “Do ponto de vista político, para muitos e melhor que se continue a política econômica sem qualquer tentativa de distribuição de renda”.

Mas se em parte o governo sofre hoje também por conta dos próprios erros de condução política, outro equívoco contribui decisivamente para que a situação chegasse a esse nível: a falta de empenho na democratização do acesso à comunicação em um país que sofre com os oligopólios midiáticos. “Qual é o país que admite propriedade privada dos meios de comunicação?”, questiona o jornalista Sergio Gomes, diretor da Oboré Projetos Especiais. Para ele, é preciso que haja, além de vontade política, participação da sociedade no debate acerca da democratização da mídia. “Em Portugal, por exemplo, os movimentos sociais têm ‘direito de antena’ e no Brasil, não”, exemplifica.
E fica a advertência de Fernando Abrucio. “É preciso melhorar a qualidade da análise para não cair numa situação dessas. Hoje, quem pauta a mídia é o Macunaíma, o herói sem caráter de Mario de Andrade. E Macunaíma tem nome e sobrenome: Roberto Jefferson”, aponta. “É preciso ter mais cuidado analítico na imprensa. O Nacional Socialismo pautou a mídia alemã na década de 20 contra a república de Weimar e nós conhecemos o resultado”. Que a farsa não se repita.

PTB, a sina de Lula

Não é a primeira vez que um político do PTB faz denúncias e tenta arranjar problemas para o PT. Em 1998, a mídia deu amplo destaque a uma história sobre um cheque que Lula recebeu pela venda de um carro Omega do advogado Roberto Teixeira, seu compadre. Como o cheque estava no nome do empresário Sérgio Lorenzoni (Teixeira simplesmente repassou para Lula o cheque que havia recebido de Lorenzoni) todas as especulações possíveis foram feitas pela grande imprensa, que via na pretensa denúncia uma bela chance de afetar a candidatura de Lula. Nada de irregular foi achado. O curioso é que, como hoje, quem apresentou a pseudodenúncia foi um petebista: Campos Machado, então aliado dos tucanos. Outra coincidência: a história do cheque foi revelada em julho de 1997 a Machado, que preparou o texto da denúncia, mas achou por bem engavetá-la (ou melhor, guardá-la). O deputado demorou mais de um ano para entregar a representação à Procuradoria-Geral, só o fazendo a menos de dois meses das eleições presidenciais de 1998. Como Jefferson, Campos Machado não denunciou quando soube do fato, mas esperou o melhor momento.



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