João, um brasileiro

Crônica por Fausto Wolff

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Crônica por Fausto Wolff

Por Fausto Wolff

Era uma vez um homem e, portanto, um vitorioso. Na corrida contra bilhões de espermatozóides ele chegara na frente. Era vitorioso também porque, durante a gestação, sua mãe não sofrera nenhuma queda e tampouco adoecera. Ele nascera bonito e normal. Um homenzinho que tinha todo o mundo para desfrutar. Beleza pura, mas nem tanta. Logo descobriu que nascera preto, pobre e brasileiro.

O leitor que acha que não temos racismo no Brasil reclamará, mas reclamará errado. Nosso racismo é tão grande que não é privilégio de pretos ou mulatos. Ele atinge os pobres em geral, desempregados ou não. Claro que os negros são suas maiores vítimas. Quanto mais negro mais padece e a ele sobrarão sempre os últimos lugares, os empregos mais humildes e mais mal pagos. Para os pretos que não quiserem viver infelizes só há uma saída: precisam enriquecer. Se enriquecerem muito, ficarão brancos como Pelé. O preço que terão de pagar por isso: só terão amigos brancos e, na maioria, mal-intencionados.

A mulher preta e pobre, caso seja bonita, poderá tentar sua independência como cantora, atriz, modelo, mas há muita competição nesse universo artificial. Por outro lado, o homem preto que vence na vida não sente que é preto. Nos filmes policiais americanos, os racistas até se divertem com isso. Colocam um preto sempre como chefe dos detetives. Irritado, ele vive dando os maiores esporros nos seus detetives brancos. Mas seu papel é pequeno e na vida real a coisa é outra.

Alguém aí da platéia poderá argumentar que Michael Jackson ficou branco e ainda dá a sorte de ser adorado por centenas de milhões de pobres negros e brancos. Não creio que meu personagem João Souza da Silva almejasse ser amado como Michael Jackson ou como seu ídolo, Lula. João, por sinal gaúcho e nascido em 1958, queria trabalhar e ser feliz. Seu pai era leiteiro e a mãe, de prendas domésticas. Tinha irmãos e irmãs mais moços e mais velhos. Viviam com sacrifício, mas não faltava comida, escola, bebida nem teto. Na medida em que cresciam, as crianças ajudavam no orçamento. João Souza da Silva engraxava sapatos e vendia jornais enquanto fazia o primário. Gostava muito de ler e queria fazer o vestibular. A realidade, porém, mostrou-lhe o seu lugar e ele fez o curso de contabilidade. Apaixonou-se por uma jovem colega dois anos mais moça. Como viviam em uma época em que o sexo entre adolescentes não só era moda como era moda incentivada pelos meios de comunicações, a carne falou mais alto. Bom nome para uma novela das Oito: A carne falou mais alto, com Vera Fischer. Falou tão alto que sua namorada engravidou. Como se amavam, ele fez o que qualquer rapaz direito faria: casou-se com ela. Foram morar com a família dela, que queria um casamento melhor para a filha. João, durante anos, trabalhou nas mais diversas áreas até que, finalmente, passou em um concurso para um banco privado. Com o salário, pôde alugar um apartamento no subúrbio. Levava duas horas para ir de casa ao serviço, onde era caixa, e orgulhava-se de dizer que, por suas mãos, passavam milhões de reais. Sua mulher lia as cartas do tarô para as vizinhas ganhando mais alguns cobres com isso. Ela costumava dizer-lhe que o via sempre perto de uma jovem muito bonita e muito rica. Ele retrucava rindo: “Deve ser uma das nossas filhas que ainda vai casar com um príncipe”. Quando Fernando Henrique tomou o poder, congelou os salários. Por isso, ao sair do trabalho, João continuava trabalhando como chofer de táxi. Trabalhava das seis da tarde às três da manhã. Poderia dormir nos fins de semana, mas sábado tinha reunião do PT local, onde era segundo secretário e domingo era o dia em que não precisava pagar a diária ao vizinho dono do carro. As duas filhas estavam na faculdade. Uma fazia Jornalismo e a outra, Geografia. Como todo pobre que se preza não queria que as filhas passassem o que ele passara e, por isso, não as deixava trabalhar.

Lula se elegeu, mas as coisas não melhoraram. Seu salário continuou congelado e as vizinhas não queriam mais saber do futuro, pois ele já se apresentava em toda a sua cruel realidade naquele subúrbio afastado de Porto Alegre. Seis meses atrás foi demitido pela agência em que trabalhava. Mandaram-no procurar um advogado. Envergonhado, nada contou à família e logo gastou as poucas economias. Teve de pedir dinheiro emprestado. Para esquecer do que devia e das mentiras, passou a beber. Uma noite verificou que se tornara impotente e, no dia seguinte, deu um tapa na filha que lhe disse que cheirava a bebida. Bebeu no centro até o fim do expediente, mas em vez de pegar o ônibus para casa pegou o ônibus para a rodoviária.

No Rio passou três dias sem comer nada até ser levado pela polícia para o abrigo de indigentes, de onde fugiu. Imagino como deve ter sido duro para ele pedir esmolas, Ele sabia que não era um mendigo, era um bancário, um trabalhador. Poderia ter sido até mesmo um doutor, se não precisasse ajudar a família. Agora era parte de uma legião, mas insistia em tomar banho todos os dias e manter limpos seu paletó e gravata, bem como seus documentos em dia. Não queria ser confundido com nenhum louco. Ele estava aleijado por dentro, não sabia que já desistira e vagamente lembrava da família, mas ainda olhava nos olhos das pessoas como se não fosse um mendigo; como se dissesse: “Apesar do que vocês possam pensar, eu sou um homem e não um cachorro”. Só quem já necessitou sabe o quão terrível é a dor daquele que necessita; a dor moral que se torna física e faz enlouquecer.

João Souza da Silva, o trabalhador negro e bancário, acabou na Barra da Tijuca no dia da inauguração do Fashion Rio. Ele, do lado de fora, e do lado de dentro algumas das mulheres mais belas e alguns dos homens mais ricos do mundo. Na Barra da Tijuca — um inferno de samambaias, vidraças fumê, drogas e ar-condicionado —, não tem esquina e os sinais de trânsito surgem eventualmente a cada dois mil metros. Isso ocorre porque a Barra não foi feita para pedestres. Foi feita para caçadores ricos. E um desses caçadores do volante matou João Souza da Silva, homem de bem, negro, brasileiro, desempregado como milhões de outros brasileiros. João foi morto por um canalha que nem parou para ver em que batera. Morto ficou durante cinco horas sob o sol brabo. Morreu numa terça-feira de tarde enquanto ladrões riquíssimos insultavam-se mutuamente no Congresso; enquanto ladrões riquíssimos olhavam excitados os corpos de modelos adolescentes no Fashion Rio; enquanto Olavo Setúbal, dono do Banco Itaú, dizia a um repórter do alto de um lucro de bilhões de reais: “Um dos maiores prazeres da vida é poder viajar pelo mundo sem obrigação de trabalho”.

A jovem e bela modelo Yasmim Brunet, sem dar-se conta, encaminhou-se com amigas até perto de onde o corpo de João estava. Teve uma reação de leitora de contos de fada. Enquanto duas lágrimas desciam pelo rosto de menina a quem querem obrigar a ser mulher, ela exclamou:

— Se ele fosse um príncipe já o teriam levado.

O mais irônico nisso tudo, minha bela Yasmim, é que ele era um príncipe.



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