Jovens da periferia

Fórum mobiliza sua reportagem para revelar o que pensa e como vive a garotada da periferia de cinco capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Fortaleza Por  ...

2219 0

Fórum mobiliza sua reportagem para revelar o que pensa e como vive a garotada da periferia de cinco capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Fortaleza

Por

 

Apesar de ter apenas 19 anos, Débora Aparecida de Lima já tem dois filhos e está casada pela segunda vez. Durante a primeira infância, morou só com a mãe, já que o pai deixou a família cedo. Aos 11, o temperamento instável do irmão e da mãe, ambos viciados em crack, fizeram com que fosse buscar a ajuda do pai ausente. Morou pouco tempo com ele, pois foi assediada. Aos 12 anos, Débora não tinha mais para onde ir e acabou nas ruas do Centro de São Paulo…

Esse começo de história você já conhece. É o de muitos e muitos garotos e garotas que não só em São Paulo, mas praticamente em todas as grandes cidades brasileiras, vivem uma situação limite com a vida. A reportagem que você vai ler não trata disso. Ela busca trazer o discurso de diferentes jovens que vivem em bairros periféricos das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Fortaleza, metrópoles representativas da realidade do país. As histórias apresentadas a seguir demonstram que os pré-conceitos que permeiam parte das políticas públicas e o discurso da mídia estão longe de dar conta das necessidades e sonhos dessa juventude.

Retomando a história de Débora. Ela ficou grávida de seu primeiro filho aos 13. Métodos de prevenção? “Até sabia o que fazer pra evitar, mas namorava um homem de 19 e aí ele consegue fazer sua cabeça”, confessa. Ao saber da gravidez da namorada, o rapaz sumiu. Aos 16, vem o segundo filho, mas a essa altura ela já havia tido contato com a ONG Travessia, voltada ao atendimento de crianças e adolescentes que vivem nas ruas da região central de São Paulo. Assim, Débora recuperou aos poucos sua auto-estima e conheceu o primeiro marido, já fora das ruas.
Hoje, Débora mora na Zona Sul da capital paulista, faz ensino médio e pretende cursar Psicologia. “Pra mim foi importante. Era bom ter uma psicóloga para conversar e desabafar”, lembra. “Quero ajudar adolescentes como os que vivem aqui. Garotos de rua, da Febem, passar um pouco do que vivi, tentar fazer com que eles acreditem que dá para ter futuro”, argumenta.

O otimismo de Débora contrasta com o sentimento da maioria dos jovens que vivem à sua volta. O distrito onde ela mora, Jardim Ângela, é um dos mais violentos da cidade, agregando mais de cem bairros e com 235 mil pessoas. Segundo a Fundação Seade, a taxa de homicídios no local é de 116,23 para cada 100 mil habitantes, quase duas vezes maior que a média paulistana. E é justamente entre os jovens que os dados são mais contundentes. Entre 15 e 24 anos, a taxa de homicídios pula para 206,87 mortos a cada 100 mil habitantes. Pequena infra-estrutura, renda familiar média em torno de dois salários mínimos, falta de assistência e abandono do Estado constroem um cenário no qual perspectiva de futuro é poesia.

O jovem é mais vítima Ao contrário do que se possa julgar pelo senso comum e, principalmente, por aquilo que é reproduzido em programas policialescos, o jovem é mais vítima da violência do que agente dela. Levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) baseado em dados do Censo 2000 e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2002, mostra que o número de adolescentes envolvidos com a criminalidade não supera o de adultos, sendo bastante inferior. A violência praticada por adolescentes se concentra principalmente em crimes contra o patrimônio (73% dos casos).

Números da cidade de Fortaleza confirmam a vitimização do jovem, de acordo com os dados do relatório sobre a situação da infância e juventude da cidade, apresentado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente em abril, com dados compreendidos entre 2001 e 2004. Entre as formas de violência, a sexual é a predominante, com 382 casos, seguida da física, com 145, e a psicológica, com 109 – entre 1996 e 2002 foram registrados mais de 6 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, sendo 73% praticados contra meninas. Outros índices do relatório também assustam, como a taxa de analfabetismo, que chega a 21%.

“Acordo todos os dias sem alternativas”, desabafa Amanda Ellen Uchoa, de 16 anos, que mora no bairro Vila Velha, em Fortaleza. Como muitos de seus amigos, Amanda conhece o pai apenas “de vista”, já que ele abandonou sua mãe durante sua gestação. Hoje, ela mora com os avós e a mãe. “Todo mundo depende do meu avô, minha mãe não tem casa pra morar e meu tio vem comer aqui com a mulher e o filho”, conta. Quando questionada sobre o seu dia-a-dia, responde com sinceridade: “dá pra passar”.

A maioria de seus colegas é da escola. Para se divertir, Amanda gosta de dançar e sair, no entanto, as opções perto de sua casa são escassas. “Aqui não tem nenhum clube. Minha mãe não me deixa sair pra longe, aí fica difícil.”. No cotidiano de seu bairro, a adolescente já se acostumou a conviver com brigas, ora por conta de pessoas alcoolizadas nos bares, ora pelos freqüentes confrontos entre as torcidas organizadas TUF (do Fortaleza) e Cearamor (do Ceará), “Eles só fazem confusão”, reclama. Amanda diz que nunca usou drogas, mas afirma que, entre os amigos, seja da escola ou do bairro, “a moda agora é usar pedra (crack)”. “Aqui tem vários cantos que a gente sabe que tem (tráfico) e a polícia até visita esses lugares, mas não acontece nada”, lamenta. Ela conta que, quando sai, bebe e às vezes fuma. “São drogas que não são proibidas pela lei, né?”, brinca. As gangues são outro problema apontado por ela, que deixa escapar. “Não faço parte de nenhum grupo. Mas gostaria”.

Já Francisco José da Silva Soares, de 19 anos, encontrou seu grupo. Ele participa da Caravana Cultural, que reúne diversos conjuntos de percussionistas para realizarem cortejos nos bairros, levando a cultura nordestina às comunidades carentes. Pela manhã, José faz os trabalhos do grupo cultural, freqüenta as aulas à tarde e também estuda à noite, pois está se preparando para o vestibular. Ele pretende cursar Pedagogia ou Serviço Social.

Em sua casa, vivem sete pessoas, entre elas seu pai e cinco irmãos, a mãe faleceu quando ele tinha 11 anos. Ele mora no Pici, que, segundo explica, é um bairro “um pouquinho conturbado”. Como no Vila Velha, ali o tráfico de drogas também é rotina, sendo comuns os aviõezinhos – crianças utilizadas para fazer a transação de drogas e dinheiro entre os traficantes e os consumidores. José evita se relacionar com os amigos de infância envolvidos no negócio. “Eles fizeram uma opção, a gente se fala, mas acaba se afastando. Isso porque a escolha deles e a minha foram diferentes”, lamenta. Para ele, a cultura pode desempenhar um papel fundamental no processo de “resgate” desse grupo. “Na comunidade, a cultura não tem nenhuma força, as pessoas não conhecem, não possuem acesso à informação. Com isso, acabam se apropriando de manifestações de outros países como o funk, o reggae, e não valorizam a cultura local”, argumenta.

Para o professor de Sociologia da PUC-RJ, Marcelo Burgos, exemplos como o de José, que buscam a ascensão social por meio da cultura e da educação, são comuns entre os jovens das periferias das grandes cidades. “Mesmo estando expostos a uma situação de risco e conseqüentemente tendo uma relação bem próxima com a violência urbana, muitos jovens do que eu chamo de mundo popular – categoria generalizada de um extrato social mais baixo, menos abastado da sociedade – não querem isso para eles”, explica. “Querem sim acesso à cultura, aos estudos acadêmicos e à informação. Ao contrário de seus pais, que achavam impossível chegar a uma universidade, eles fazem disso uma meta e se esforçam para atingir esse objetivo”, esclarece. Para ele, essa crença nas instituições de ensino é importante para oferecer perspectivas aos jovens, mesmo com um horizonte difícil. “Mesmo assim, ainda existe um número considerável deles que refutam todos esses argumentos e continuam descrentes no futuro e na possibilidade de mudança. Muitos aceitam isso passivamente, enquanto outros só acreditam na ascensão social pelo crime”, sustenta.

Quase duas irmãs Priscilla e Débora não se conhecem, mas têm muitas coisas em comum, a começar pela idade, 17 anos. Moram em comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro, estão no último ano do ensino médio e almejam entrar para a universidade e, conseqüentemente, poder sair das favelas onde moram.

Priscilla Alves de Moura é filha de um fotógrafo e de uma dona de casa, tem um irmão mais novo e vive desde que nasceu no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, onde nunca gostou de morar. Não por causa dos tiroteios entre policiais e bandidos ou entre criminosos de facções rivais na luta pelo controle do tráfico na área, mas por ser um local onde falta tudo relacionado à educação, cultura e saúde. “Acho isso um absurdo e essa situação contribui com a falta de esperança, de informação e até para um certo conformismo dos moradores daqui. Quem não aceita, tem que procurar outros horizontes, correr atrás mesmo dos seus objetivos”, sentencia a garota, que revela ter descoberto os perversos efeitos da falta do Estado aos 11 anos de idade. “Fui estudar em uma escola pública na Mangueira e lá perto havia um projeto social. Fiz informática, inglês, artesanato. Todas as atividades que podia. Não parei mais”, lembra. “Tive acesso a coisas completamente diferentes daquele meio que estava acostumada e isso acabou me deixando mais curiosa e certa do que não queria para o meu futuro.”

Sua pesada rotina reflete o tamanho de sua força de vontade e um esforço que seria desnecessário para um garoto ou garota de classe média. Na parte da manhã ela participa de uma oficina cultural, à tarde estuda em uma escola estadual e à noite freqüenta o pré-vestibular comunitário de um dos colégios particulares mais tradicionais do Rio. “Batalhei tudo através de indicações de amigos e por matérias que via no jornal. Não pago nada porque meu pai não teria condições financeiras para arcar com as despesas”, explica Priscilla, que é um exemplo dentro de sua família. “Meu irmão segue os meus passos e já está envolvido em vários projetos. Graças a nós, nosso pai voltou a estudar. Ele está no primeiro ano do ensino médio e planeja entrar para uma faculdade. Só falta mesmo a minha mãe se animar”, comemora.
Uma realidade bastante comum onde Priscilla mora é a gravidez precoce. Uma de suas poucas amigas de infância já tem um filho e outras tantas conhecidas estão na mesma situação. “Aqui na comunidade isso é comum, praticamente ‘meio genético’”, explica. “Você vê avó com 32 anos, bisavó nova também e assim vai. Tento não julgar as pessoas e até evito criticar porque ninguém sabe o dia de amanhã, mas acredito que dá para evitar”.

“Foi um vacilo”, tenta justificar Débora Ribeiro de Souza, grávida de Maria Eduarda, que deve nascer no final de maio. Mais do que a preocupação com futuro da criança e de como ficará o relacionamento com o namorado – os dois ainda estão juntos, mas vivem em casas separadas – a novidade trouxe o medo. “Não quero ter que interromper todos meus projetos e sonhos por causa de uma criança como aconteceu com a minha mãe e outras pessoas que conheço.” Moradora da Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio, Débora tinha um cotidiano bem diferente daquele vivido por Priscilla. “Estudava de manhã no Sesi de Jacarepaguá e o resto do dia ficava em casa vendo televisão, lendo ou dormindo”, descreve.

Ela vive com o pai, a avó paterna e mais seis irmãos, quatro por parte da mãe que a teve antes de completar 18 anos e precisou parar de estudar por conta disso. Hoje, sua rotina mudou totalmente. “Saía muito, não perdia um baile funk, uma festa ou uma ida ao shopping. Meu pai reclamava, mas eu nem ligava.” Sair de Cidade de Deus não é uma prioridade na vida de Débora que diz conhecer todo mundo do bairro, considerado violento, principalmente depois do sucesso do filme homônimo de Fernando Meirelles, baseado no livro de Paulo Lins. “A violência está no asfalto e no morro e os moradores, mesmo não querendo saber, sabem de tudo que acontece”, esclarece. “Mas a melhor coisa a fazer é seguir aquele ditado: ver, ouvir e calar”, confidencia.

No meio do tiroteio Três dias antes de falar à Fórum, Wilson Dias Santos, de 18 anos, viu-se no meio de uma guerra de traficantes quando voltava da igreja. “Estava subindo a escadaria e o grupo do ‘Del Rey’ veio atirando na minha direção. Olhei pra baixo e vi o grupo da ‘Chácara’ chegando. Pulei e saí correndo. Quase morri!”, conta ainda assustado. “No dia seguinte vi as marcas das balas na escada. Foi Deus, com certeza foi Ele quem me protegeu!”.

Wilson é morador do aglomerado da Serra, região leste de Belo Horizonte e essa foi a segunda vez em que se viu em meio a um tiroteio. “A vida aqui não é fácil, mas é a minha vida”, orgulha-se, lembrando que o lugar onde mora já ganhou as telas do cinema com o filme “Uma Onda no Ar”, de Helvécio Raton, que conta a história da criação da Rádio Favela, uma estação comunitária. Mesmo assim, ele diz que as coisas eram diferentes na sua infância. “A gente brincava na rua e ficava conversando no beco até uma hora da manhã, sem medo de violência. Hoje nunca passa das 22h. As coisas estão mudando muito”, constata.

Ao falar do tráfico, Wilson é categórico. “Traficante não convida. Quem procura vai por livre e espontânea vontade. Parece que não querem, mas precisam saber que podem morrer a qualquer momento. Os chefes do tráfico têm entre 23 e 25 anos. Morre-se muito cedo neste negócio. É uma ilusão”. Ele lamenta o fato da maioria buscar a criminalidade para poder ganhar dinheiro fácil. “Trabalho honestamente, com carteira assinada, saindo de casa todo dia às 7h e voltando às 23h, depois da aula, para ganhar um salário mínimo. Quem entra para o tráfico, ganha cem reais por dia”, garante.

Relatos como os de Wilson dão uma idéia do impacto que a falta de oportunidades tem na vida dos jovens da periferia. Geraldo Leão, professor de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a desigualdade social atinge essa faixa etária de modo particular. “Temos constatado, por meio de pesquisas, que essa desigualdade impacta muito fortemente os jovens, já que essa é uma fase de inserção social. Para eles, resta um vazio, sofrem por conta de desemprego e também pela falta de escola.”

Geraldo vê um desencontro entre o Estado e os jovens quando o assunto é qualificação profissional. “As taxas de desemprego de jovens são seis vezes maiores que as de adultos em Belo Horizonte. Os programas governamentais querem tirar os jovens da ociosidade, oferecendo alternativas que eles não querem. São qualificações muito elementares, antiquadas e precárias”, aponta. Os dados nacionais demonstram que a falta de emprego é ainda mais dramática entre os jovens. Em 2001, as pessoas na faixa entre 15 a 24 anos de idade correspondiam a 49% do total de desempregados no país. Com isso, os sonhos de consumo ficam mais distantes. “Renda para eles é algo que lhes permita viver melhor, ter uma moto, uma bicicleta, roupas, ir ao cinema, ir a shows musicais, namorar…”.

Muitos jovens chegam à conclusão de que a via rápida para se chegar aos objetivos consumistas tão incensados pelos meios de comunicação é o crime. “Eles comungam dos mesmos valores do resto da sociedade, dos meninos de classe média e classe alta: é a roupa da moda, o tênis de marca…mas os meios para alcançar isso são distintos”, esclarece Mário Henrique Ditticio, advogado do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Crime e Tratamento do Delinqüente (Ilanud). “Acompanhei o caso de uma jovem que levou uma mulher ao shopping e com cartão de crédito dela entrou em lojas para comprar roupas da moda”, testemunha. Para Ditticio, a proximidade de um cotidiano violento juntamente com a estimulação ao consumo constroem um cenário em que a adesão dos jovens à criminalidade torna-se algo normal. “Conheço a história de dois meninos que viram aos oito anos o pai ser morto em casa e, quando jovens, foram presos por crimes contra o patrimônio. E as pessoas ainda se perguntam como eles podem cometer atos violentos, como se os jovens vivessem num ‘mundo cor-de-rosa.’”

Além de furtos e roubos, outra das saídas para aumentar seu nível de renda é o tráfico que tanto assusta Mariana de Lima Costa, de 16 anos. Ela mora há sete no Bairro São Joaquim, em Contagem, na Grande BH, e devido à ação de traficantes teve que mudar de escola. “Onde moro as escolas viraram ponto de comércio de drogas”, assegura. Ela supera todos os dias uma distância de 25 quilômetros entre a casa e o colégio, que fica no centro de Belo Horizonte. Acorda às 5h20 e toma dois ônibus para chegar até lá.

Ciente da situação de risco das pessoas que moram em seu bairro, Mariana realiza um trabalho na paróquia local com jovens e lamenta o número crescente de pessoas da sua idade que vêm sendo assassinadas. “De seis meses para cá, cinco já morreram no bairro. Vivo com medo, com certeza. Quando saio, aos finais de semana, sempre durmo na casa de alguém para não voltar tarde ao meu bairro”, conta. “Acho isso tudo um desleixo da polícia. Ela sempre chega tarde para situações que poderiam ser evitadas”, desabafa.

Igual à moça da novela Situação comum em boa parte das histórias de jovens que vem das periferias das grandes cidades, Patrícia Ferreira Rodrigues, de 20 anos, veio do interior para a capital. Ela saiu da cidade gaúcha de Encruzilhada do Sul rumo a Porto Alegre há três anos, para ajudar a tia que precisava trabalhar e cuidar de sua filha que acabara de nascer. Quando chegou, foi morar na parada 10 da Lomba do Pinheiro, por um ano e meio.
“Lá eu não tinha muitos amigos e também não podia sair muito. É um local que tem muita violência. Esses dias, passei por ali e tinham matado uma pessoa na frente de uma danceteria onde sempre soube que dava muita briga”, conta. Atualmente, mora na Vila Pitinga, que ela julga ser “um paraíso”, por ser bem menos violento que seu antigo bairro. “Aqui só tem um lugar para sair. Se trancar a rua, não tem como escapar”.

Tranqüila, com um sorriso no rosto, ela diz que está grávida de sete meses. “É uma menina e vai se chamar Raíssa, igual à moça da novela”. Além de ajudar a tia, trabalha às terças e quintas como secretária em um consultório odontológico no bairro Tristeza, do outro lado da cidade. “Gosto desse trabalho. Aprendo a atender as pessoas, a utilizar os instrumentos”, entusiasma-se. Apesar de não ter conseguido a vaga que tentou por dois anos na rede de ensino público de Porto Alegre, garante que a maternidade não vai fazer com que desista dos estudos.

Extrovertido e esperto, Marlon Silva da Silva, de 17 anos, também mora na Vila Pitinga e, aconselhado pela avó, sempre tenta manter distância da violência cotidiana do lugar. “Sempre segui o que ela disse: não te mete, procura ser sempre o que fica de fora”. Ironicamente, no colégio, na rua e até no ônibus, ele e sua turma sofrem discriminação. “Nos olham com medo porque moramos ao lado da Restinga e do Pinheiro”, comenta o jovem, cuja rotina é bastante simples. “A gente joga bola, organiza festas…mas minha avó tem reclamado bastante que eu fico muito na rua”.

Marlon diz não usar drogas nem se meter em brigas e que os poucos amigos que fumam cigarro não oferecem. “Conheço uns dez que já se envolveram com drogas, mas não me misturo, é cada um na sua.” Nas festas que organiza, com direito à presença de um DJ, tocam basicamente funk, pagode e dance. Até o mês passado, ele ia às festas com a namorada, mas o romance de dois anos e cinco meses terminou. “Pisei na bola e fiquei com outra garota. Ela descobriu”, lamuria-se.

Outra “mancada” de Marlon foi ter largado os estudos no final do ano passado, por achar que já estava reprovado. “Eu fazia o 1º ano do ensino médio à noite, mas parei de ir às aulas no último mês. Acabei perdendo a vaga e só consegui em outro colégio que fica muito longe da minha casa. Estou sem estudar porque não tenho condições de pagar as passagens”. Enquanto isso “a vida segue”, diz. No intervalo de uma pelada e outra, Marlon também procura emprego. “Pretendo trabalhar, até para poder pagar passagem e voltar a estudar. Quero mais para frente fazer faculdade de Educação Física.” Apaixonado por futebol e com bastante afinidade com crianças ele diz que sua vocação é ensinar. “Dos onze irmãos que tenho, seis são pequenos. Adoro brincar com eles.”

O impacto da gravidez precoce A pesquisa Gravidez na Adolescência: estudo multicêntrico sobre jovens, sexualidade e reprodução no Brasil (Gravad), divulgada no último mês de março e realizada em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador, conseguiu detectar importantes aspectos e hábitos a respeito da gravidez precoce. Esse é um dos principais problemas enfrentados pelo jovem brasileiro, já que um entre cada cinco nascidos no Brasil é filho de mãe que tem idade entre 15 e 19 anos. Além disso, segunda a própria pesquisa, qualquer amostragem aleatória no país constataria aproximadamente uma em cada duas mulheres de 20 anos com pelo menos uma gravidez, levando ou não até o fim a gestação.

Foram entrevistados 4.634 jovens de 18 a 24 anos, sendo 47,2% homens e 52,8% mulheres. Dentre eles, respectivamente, 93,0% e 81,6% já tinham se iniciado sexualmente. A distribuição de renda revelou-se bastante desigual nas três cidades: 36,2% dos jovens declararam uma renda familiar per capita menor ou igual a um salário mínimo, sendo que essa proporção foi de 25,5% em Porto Alegre, 27,9% no Rio de Janeiro e chega a 56,3% em Salvador.

As gestações ocorreram no contexto de relacionamentos afetivos estabelecidos, sendo pequeno o percentual de homens (14,2%) e quase desprezível o de mulheres (2,5%) cujo primeiro episódio aconteceu em uma parceria eventual. A maioria das moças, 56,2%, tinha como parceiro da primeira gravidez antes dos vinte anos aquele com quem se iniciaram sexualmente, enquanto 21% dos rapazes estavam mesma condição. A grande maioria dos jovens entrevistados – 85,6% dos homens e 70,3% das mulheres – não queria engravidar, mas somente 36,3% dos rapazes e 31,4% das moças declararam estar usando algum método contraceptivo nessa ocasião.

Segundo a pesquisa, o nascimento de um filho antes dos vinte anos não afeta tanto a situação escolar e de trabalho dos homens, exceto para 24,6% dos jovens pais que pararam de estudar. Já entre as mães, o impacto sobre o percurso escolar foi bem maior: 42,3% interromperam temporariamente ou definitivamente seus estudos.
Os dados mostram que a experiência da paternidade, na maioria das vezes, ensina a prevenir a gravidez. Segundo a pesquisa, 37,6% dos homens e 45,6% das mulheres passaram a usar algum método contraceptivo após o nascimento do primeiro filho na adolescência. No entanto, 19,7% e 21,5%, respectivamente, continuaram a ter relações sexuais desprotegidas, sendo também significativos os percentuais daqueles que engravidaram novamente, que corresponderam a um em cada quatro jovens pais e mães.

O nascimento de um filho antes dos vinte anos resultou na constituição de uma união conjugal para 47,8% dos homens e 39,3% das mulheres. Mesmo assim, para 36% dos jovens de ambos os sexos, o nascimento de um filho não chegou a ocasionar uma saída da residência dos pais. Mas outros hábitos tiveram que ser mudados. Durante o primeiro ano após o nascimento de um filho, 72,4% das mulheres e um percentual bem menor de homens, 47,5%, declararam ter diminuído o convívio com o grupo de amigos.

Com reportagens de: Adriana Lampert, Ana Cora, Max Gonçalves e Uyara de Sena.



No artigo

x