Marilena Chauí – silêncio forçado

Em palestra, Marilena Chauí atribui o retraimento dos intelectuais à ausência de um pensamento capaz de interpretar as contradições do presente e decreta "a despolitização da sociedade produz a substituição do intelectual engajado pela figura do especialista competente"

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Em palestra, Marilena Chauí atribui o retraimento dos intelectuais à ausência de um pensamento capaz de interpretar as contradições do presente e decreta “a despolitização da sociedade produz a substituição do intelectual engajado pela figura do especialista competente”

Por Nicolau Soares

A filósofa Marilena Chauí abriu o ciclo de conferências “O Silêncio dos Intelectuais”, primeira de uma série de seminários promovidos pelo Ministério da Cultura. Com conferências realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, o primeiro ciclo buscou debater o papel dos intelectuais na sociedade contemporânea. Em sua palestra, traçou um panorama da atuação desses pensadores na história e a importância da autonomia para que eles possam ser considerados verdadeiros intelectuais. Para ela, o papel desenvolvido pelas ciências no capitalismo neoliberal é uma das explicações do atual retraimento dos intelectuais engajados. “Se as artes já haviam sido devoradas pela indústria cultural, agora são as ciências e as técnicas que se encontram submetidas à lógica do capital”, declarou. Leia abaixo os principais trechos da conferência.

Transgressores

Se acompanharmos o percurso histórico dos intelectuais, notaremos que há uma situação paradoxal, pois os intelectuais oscilam entre o recolhimento e o engajamento, o silêncio e a intervenção pública. Oscilação que decorre das circunstâncias nas quais a demanda de autonomia racional é respeitada ou ameaçada pelos poderes instituídos. Se ela é respeitada, os produtores culturais permanecem recolhidos. Se ela é ameaçada, eles se tornam intelectuais e vêm à cena pública defendê-la. A fala pública e a ação pública dos intelectuais, principalmente porque balizadas pela afirmação da autonomia, assumem dois traços principais: a transgressão em relação à ordem vigente e a defesa de causas universais, distantes de interesses particulares imediatos.

Fantasma da independência

A independência, conquistada a duras penas pela racionalidade moderna, transformou-se num fantasma poderoso: a crença de que as idéias determinam o movimento da historia ou que elas são o motor da historia. Ocultando a determinação histórica do saber, a divisão social das classes, a exploração econômica e a dominação política, as idéias se tornam representações abstratas, imagens que a classe dominante tem de si mesma e que se estendem para todas as classes sociais e para todas as épocas. Numa palavra: a ideologia integra a lógica da luta de classes em favor da classe dominante. Isso significa, como explicou Gramsci, que a classe dominante tem intelectuais orgânicos. Mas significa também que a autonomia racional das artes e do pensamento entendida como autonomia dos intelectuais e de sua intervenção pública, só pode ser afirmada se ela for balizada pela tomada de posição no interior da luta de classes, contra os dominantes, e na redefinição dos universais compreendendo-os como universais concretos. Essa tomada de posição contra a ordem vigente e a classe dominante é exatamente o que a noção de engajamento ou do intelectual como figura que intervém criticamente na esfera pública procura exprimir, trazendo consigo não só a transgressão da ordem e critica do existente, mas também a crítica da fome de conteúdo da própria atividade das artes, ciência, técnica filosofia e direito. Com a noção de engajamento como tomada de posição no interior da luta de classes contra a forma de exploração e dominação vigentes em nome da emancipação ou da autonomia em todas as esferas da vida econômica, política, social, podemos diferenciar o intelectual e o ideólogo.

Ceticismo desencantado

Se a diferença entre o intelectual e o artista, cientista, técnico, filósofo, jurista encontra-se no fato que o intelectual é um desses quando ele intervém no espaço público, a expressão “silêncio dos intelectuais” pareceria contraditória. Mas se há silêncio, se não há intelectuais, convém indagar porque. A primeira dessas causas, certamente, é, como diz um autor, “o amargo abandono das utopias revolucionárias, a rejeição da política e um ceticismo desencantado”. Essa atitude se dá sob os efeitos do totalitarismo dos países ditos comunistas, do fracasso da Glasnost na União Soviética, e do recuo da social-democracia com a adoção da chamada Terceira Via, ou “o capitalismo acrescido de valores socialistas”, como diz o Partido Socialista Inglês. Assim, desaparece o horizonte histórico do futuro, o presente se fecha sobre si mesmo, a ordem vigente aparece auto-legitimada e justificada porque nada parece contradizê-la ou a elas se opor, e os ideólogos podem comprazer-se falando do Fim da História. O retraimento do engajamento ou o silêncio é aqui o signo de uma ausência mais profunda. A ausência de um pensamento capaz de desvendar e interpretar as contradições que movem o presente.

Privatização da política

A segunda causa é o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado sob os imperativos da nova forma de acumulação do capital conhecida com neoliberalismo. Um dos efeitos dessa situação é a transformação de direitos econômicos e sociais em serviços, definidos pela lógica de mercado e com isso a transformação do cidadão em consumidor. Se os direitos, conquistados nos embates no espaço público e na luta de classes, são privatizados, o cerne da democracia é ferido mortalmente e a despolitização da sociedade é uma decorrência necessária. O recuo da cidadania e a despolitização da sociedade produzem a substituição do intelectual engajado pela figura do especialista competente, cujo suposto saber lhe confere o poder para em todas as esferas da vida social, dizer aos demais o que devem pensar, sentir, fazer e esperar. A crítica do existente é silenciada pela proliferação ideológica competente dos receituários do bem-viver.

Sociedade do conhecimento

A terceira causa é a nova forma de inserção do saber e da tecnologia no modo de produção capitalista. Tornaram-se forças produtivas, deixando de ser mero suporte do capital para se converter em agentes diretos na acumulação capitalista. Conseqüentemente, mudou o modo de inserção dos pensadores e técnicos na sociedade, porque eles se tornaram agentes econômicos diretos, e a força e o poder capitalistas encontram-se hoje no monopólio do conhecimento e da informação. Surge assim a expressão “sociedade do conhecimento” para indicar que a economia contemporânea se funda sobre as ciências e a informação graças ao uso do conhecimento, da inovação tecnológica e da informação nos processos produtivos. Chega-se mesmo a falar em capital intelectual, considerado por muitos como o principal princípio ativo das empresas. Afirma-se que hoje o conhecimento não se define mais por disciplinas especificas, e sim por problemas e por sua aplicação nos setores empresariais. A pesquisa é pensada como uma estratégia de intervenção e de controle de meios ou de instrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, a pesquisa não é mais uma investigação. Ela emprega intensamente redes eletrônicas para se produzir e se transformar em tecnologia e se submete a controles de qualidade segundo os quais deve demonstrar sua pertinência social mostrando sua eficácia econômica. Fala-se em “explosão do conhecimento” para indicar o aumento vertiginoso dos saberes, quando na realidade indica o modo da determinação econômica do conhecimento. Pois, no jogo estratégico da competição no mercado, uma organização de pesquisa se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades e obstáculos sempre novos. Não tem inovação verdadeira do conhecimento.

Competição empresarial

O conhecimento contemporâneo se caracteriza pela fragmentação e parcelização dos problemas em “micro-problemas” para que pareçam problemas novos. Ele se caracteriza pelo crescimento acelerado e pela tendência a uma rápida obsolescência. Nesse contexto, como falar em autonomia racional? Se as artes já haviam sido devoradas pela industria cultura, agora são as ciências e as técnicas que se encontram submetidas à lógica do capital. Os produtores de conhecimento e tecnologias absorvem a lógica da competição empresarial e dão a ela sua adesão, negando, portanto, a autonomia racional que dava autoridade à intervenção pública, crítica dos intelectuais. A autonomia racional era a independência com que a racionalidade cientifica definia seus objetos, métodos, resultado e aplicação segundo critérios imanentes ao próprio conhecimento e a distância dos interesses particulares. Ora, a autonomia racional era a condição tanto da qualidade do saber como da autoridade do intelectual engajado para transgredir a ordem vigente. Perdida a autonomia, o que resta senão o silêncio?

Tagarelas

Se os intelectuais estão em silêncio, em contrapartida os ideólogos estão cada vez mais tagarelas. Sua tagarelice recebeu um nome pomposo: chama-se pós-modernismo, definido por Jameson como a lógica cultural do capitalismo tardio. Em sua forma contemporânea, a sociedade capitalista se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, do desemprego estrutural e da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares, definidas por estratégias particulares e por programas particulares competindo entre si. Ela aparece como meio ambiente, perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder. A materialidade econômica e social da nova forma do capital é inseparável de uma transformação sem precedentes na experiência do espaço e do tempo designada por David Harvey como a compressão espaço-temporal. Ou seja, o fato de que a fragmentação e a globalização da produção econômica engendram dois fenômenos contrários e simultâneos. De um lado, a fragmentação e dispersão espacial e temporal. E, de outro, sob os efeitos das tecnologias eletrônicas e de informação, a compressão do espaço (tudo se passa aqui, sem distâncias, diferenças ou fronteiras), e a compressão do tempo (tudo se passa agora, sem passado e sem futuro). Na verdade, fragmentação e dispersão do espaço e do tempo, condicionam sua reunificação sob um espaço indiferenciado e um tempo efêmero. Ou sob um espaço que se reduz a uma superfície plana de imagens ou um tempo que perdeu a profundidade, e se reduz ao movimento de imagens velozes e fugazes.

Narcisismo político

A naturalização e valorização positiva da fragmentação e dispersão sócio-econômica estimulam um individualismo agressivo e a busca de sucesso a qualquer preço, ao mesmo que tempo em que dão lugar a uma forma de vida determinada pela insegurança e pela violência institucionalizada pela volatilidade do mercado. Insegurança e medo levam ao gosto pela intimidade, ao reforço de antigas instituições, sobretudo a família e o clã, como refúgios contra o mundo hostil, ao retorno das formas místicas e autoritárias ou fundamentalistas de religião, e a adesão à imagem da autoridade política forte ou despótica. Se, sob os imperativos da sociedade de consumo e do espetáculo, as artes foram submetidas à lógica da industria cultural, agora, com aqueles imperativos, acrescidos do fortalecimento da figura pessoal do governante, a política se torna indústria política. Por isso, dá ao marketing a tarefa de vender a imagem do político e reduzir o cidadão a figura privada do consumidor. Para obter e identificação do consumidor com o produto, o marketing reproduz a imagem do político enquanto pessoa privada: características corporais, preferências sexuais, culinárias, literárias, esportivas, hábitos cotidianos, vida em família, bichinhos de estimação. A privatização das figuras do político e do cidadão privatiza o espaço público. Com isso, a avaliação ética dos governos não possui critérios próprios de uma ética pública, e se torna uma avaliação de virtudes e vícios pessoais dos governantes, e a corrupção é atribuída ao mau caráter dos dirigentes e não às instituições públicas. Temos o narcisismo completo.



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