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Jovens americanos em tempos de Bush, exemplo inglês, Por Newton Carlos   Jovens americanos em tempos de Bush Pesquisa feita por importante universidade dos Estados Unidos constatou um...

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Jovens americanos em tempos de Bush, exemplo inglês,

Por Newton Carlos

 

Jovens americanos em tempos de Bush Pesquisa feita por importante universidade dos Estados Unidos constatou um perigoso estado de ânimo da juventude do país. Há quase 30 anos, quando a guerra do Vietnã estava em seus estertores já com a configuração de tragédia nacional, os jovens americanos tinham outra feição. Abominavam as manipulações patrioteiras, sofriam com o martírio imposto a um pobre país asiático pela maior potência do mundo, não queriam saber de guerras e colocavam os políticos contra a parede.

Em 1975, quando a bandeira dos americana foi arriada em Saigon, só 58% dos menores de 20 anos, segundo a pesquisa “focal” conduzida por especialistas, davam algum crédito aos governantes. O que se vê nos dias de hoje? Dois terços apoiaram a invasão do Iraque e os “falcões” do governo Bush são os mais admirados (dois por um) entre os que assumiram o poder em Washington.

O Vietnã foi a rebeldia dos que subiam na escala etária, a caminho de ocupar lugares mais definidos na sociedade americana. O Iraque, pelo que se vê, é o contrário: é a adesão entusiasta ao emprego das armas como forma de projetar a influência dos Estados Unidos. Crença de que o mundo precisa ser policiado e só o poder americano tem condições de manter a ordem em escala universal. A idéia da “pax americana” aloja-se na cabeça dos jovens que dão inteira razão aos que invadiram o Iraque.

Não importam as manipulações patrioteiras. Tampouco o uso de justificativas mentirosas, como a da posse, por parte do Iraque, de armas de destruição maciça. A pesquisa da Harvard não encontrou nenhuma cobrança a respeito. Um jornalista inglês, adepto aos hábitos políticos de seu país, onde o parlamento dificilmente peca por omissão, ficou impressionado com a ausência de debates no congresso americano envolvendo a questão iraquiana. Os Estados Unidos se encaminhavam para uma guerra e seus parlamentares discutiam cortes de impostos.

Ou não discutiam nada. Os democratas esconderam a sua cara de oposição, com medo de serem taxados de impatriotas, e deixaram que o barco corresse ao sabor de um belicismo acoplado à alma nacional e forte penetração entre os jovens, como mostrou a pesquisa da Harvard.

A “síndrome vietnamita”, o medo de intervir e afundar em lamaçais, foi sepultada no martírio de Faluja. O retrocesso já teve o seu registro na reeleição de Bush, na qual imperaram os moral values americanos, com a perspectiva de que a religião se sobreponha a tudo, a começar pela ciência. Missão religiosa fundamentalista em vez de mandato presidencial. Só resta perguntar o que nos reserva o futuro, tendo o Iraque como referência a partir de agora e não se sabe até quando. Uma nova pesquisa constatou algo mais do que inquietante.

Jovens americanos começam a achar excessivos os graus de liberdade vigentes no país, sobretudo quando se trata de liberdade de expressão. Há uma lei, o Freedom Act, que autoriza desencavar, com mandato judicial, informações que de outra maneira nunca viriam à tona. Caso de memorandos “internos” do Pentágono tratando de tortura em prisões no Afeganistão, Iraque e Guantánamo. Ou de assessores do governo Bush questionando a validade da Convenção de Genebra, de proteção aos presos de guerra, quando se trata de enfrentar o terrorismo. Sem o Freedom Act tais documentos nunca se tornariam públicos.

A maioria dos jovens americanos, no entanto, aceitaria suprimi-lo, o que pode dar uma idéia de uma formatação futura dos Estados Unidos. Não estamos diante, é claro, de um fenômeno estratificado. Os Estados Unidos dos anos 50 não foram os mesmos dos anos 60: da explosão do multiculturalismo, da rebeldia, dos anseios de liberdade. O que é hoje pode não ser amanhã. As conseqüências da guerra do Iraque ainda não estão codificadas. Muita água ainda vai jorrar.

Exemplo inglês A Corte Suprema da Inglaterra, os lordes que dão a última palavra em matéria de leis, decidiu que as operações no Iraque estão sob jurisdição da Convenção Européia dos Direitos Humanos. Soldados têm de puxar o gatilho com todo o cuidado, situação que cercou de constrangimento uma das visitas ao Iraque da mais alta autoridade militar inglesa. O Ministério da Defesa, em Londres, quer (ou queria) que a convenção só tivesse vigência na Europa. O resto do mundo poderia ser metralhado à vontade. Os lordes não concordaram. Os soldados ingleses são obrigados a respeitar os direitos humanos convencionados na Europa em suas relações com populações de qualquer parte do universo.

Jurisprudência firmada graças aos entrechoques provocados pelo Iraque nos dois países da linha de frente da coalizão invasora. Nos Estados Unidos, deserções tomam o rumo do Canadá, onde foi criado um “grupo de apoio” a americanos que buscam asilo político. Eles já são uma dezena, segundo os seus protetores nativos. Pelo menos um pedido está em mãos de juízes canadenses. As razões apresentadas são em geral duas: objeção de consciência e o fato de que a guerra do Iraque é ilegal, segundo as leis internacionais. Não teve autorização da ONU e é até possível que o secretário geral, Kofi Annan, seja con¬vocado como testemunha. Ele chamou a invasão de ilegal, em entrevista à BBC de Londres.

O Canadá foi refúgio de desertores do Vietnã, nos Estados Unidos; comunidades que sempre supriram as Forças Armadas com grande número de recrutas, como a negra, estão se retraindo. Os bônus são atraentes, sobretudo para quem vive em faixas de pobreza, mas os ônus tornam-se apavorantes. “Nunca se sabe de onde vêm os tiros e onde vão explodir as bombas”, disse um combatente. A Guarda Nacional, tropa auxiliar do Exército americano, informa que, nos dois últimos meses, caiu em 40% o seu potencial de recrutamento. Existem, nos Estados Unidos, sete mil casos de reservistas que resistem em atender a ordem de reconvocação. Recursos forçarão o Judiciário a manifestar-se.

newtoncarlos@revistaforum.com



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