Mundo afora

Das guerras a uma só Europa, descaminhos da ONU Por Newton Carlos   Das guerras a uma só Europa Começou na Espanha a campanha por uma nova...

196 0

Das guerras a uma só Europa, descaminhos da ONU

Por Newton Carlos

 

Das guerras a uma só Europa
Começou na Espanha a campanha por uma nova Europa e uma Constituição européia, a Carta Magna de uma integração que foi muito além das previsões. Ela terá o seu destino definido nos próximos 18 meses. Embora com o comparecimento às urnas moderado, os espanhóis aprovaram a nova Constituição, cuja vigência ainda depende de mais de nove referendos. Eles se encerrarão em 2006 na Inglaterra e terão o seu ponto talvez mais incandescente na França, no verão europeu deste ano.
O El Pais, de Madri, chamou de evento histórico o fato, em si próprio, de países com línguas e culturas tão diferentes terem produzido tal documento. Também se registram avanços significativos na prática da integração. Um dos mais importantes jornais alemães, o Suddeutsche Zeitung, de Munique, saudou a harmonia pós-Iraque em política externa européia. Incidência marcante na decisão da França, Alemanha e Inglaterra de juntarem suas forças em uma operação diplomática destinada a bloquear “eventuais” intenções do Irã em ter armas nucleares. Negociações, nada de confronto, como se delineava em Washington.

Bush deu de cara com essa determinação em sua viagem à Europa e se viu constrangido a dar tempo aos europeus com pulso forte. O jornal alemão pediu ao espanhol Javier Solanas, espécie de ministro do Exterior da União Européia, que ande mais rápido na elaboração de políticas de defesa e de segurança européias. O chefe de governo da Alemanha, Gehard Schroeder, propôs que as estratégias e políticas de colaboração transatlântica, entre americanos e europeus, sejam resolvidas no âmbito da União Européia, que assume a forma de instituição, e não mais da OTAN, a aliança militar ocidental. Jacques Chirac, da França, deu apoio entusiástico.

Outra dor de cabeça para Washington, que quer a OTAN com plena vigência. Foi criada pelos Estados Unidos e é ainda dominada pelos Estados Unidos. Mas a OTAN resultou da Guerra Fria, hoje peça de museu. A Europa das guerras tornou-se a Europa da integração, com voz própria e assertiva. Mas à esquerda, embora o voto majoritário seja pró-Constituição, há queixas e críticas. O texto, de certo modo, consagra o neoliberalismo ou a economia de mercado estilo inglês. O Le Monde disse que poderia haver mais generosidade com os imigrantes. “A Europa deve saudar os imigrantes não por caridade, mas porque precisa deles para cobrir deficiências demográficas”, escreveu o jornal parisiense.

Curiosa a situação da Inglaterra. “Não temos Constituição escrita e agora estamos atados a um processo que levará a uma Constituição européia”, observou o conservador Sunday Times, de Londres. Em termos gerais, a nova Constituição definirá a divisão de poderes entre a União Européia e os Estados-membros. O parlamento europeu terá sua influência robustecida. Deixará de ser peça decorativa. As políticas de defesa e de segurança serão comuns. É também prevista a criação do cargo de presidente da União Européia.

Descaminhos da ONU Depois da invasão do Iraque, de um “ano terrível”, na palavra de seu secretário-geral, Koffi Annan, a ONU procura recuperar-se. Mas Annan, em entrevista à BBC, disse que a invasão do Iraque foi ilegal, acirrando ainda mais os já duros sentimentos anti-ONU do conservadorismo americano no poder com Bush. Suspeitas de mau comportamento na administração do programa petróleo em troca de comida e remédio, adotado durante a ditadura de Saddan Hussein para compensar sanções, abriram caminho para que parlamentares republicanos pedissem a cabeça de Annan e até a sua prisão.

Um filho do secretário-geral, com salário sem trabalhar em empresa suíça com contrato com a ONU, piorou as coisas. Uma direita enraivecida ficou com mais munição. Annan acabou recuando diante do peso dos Estados Unidos, que financiam um quarto do orçamento da entidade. Só assim os ânimos se acalmaram. Na superfície, pelo menos, já que a disposição declarada dos inimigos da ONU, em Washington, é desmontá-la, acabando com os instrumentos de negociações multilaterais intoleráveis em um ambiente de ambições imperiais. Em 2004, o Conselho de Segurança resistiu às pressões dos Estados Unidos e não aprovou uma segunda resolução, autorizando o uso de força no Iraque.

Aconteceu algo humilhante para os americanos. Nanicos, como Angola e Chile, com assento temporário no conselho, não se dobraram às ofertas de tapete vermelho feitas pessoalmente por Bush e se recusaram a avalizar a invasão. Na Casa Branca ficou a impressão de que Annan tomou partido anti-Bush nas eleições americanas. No íntimo, certamente. O unilateralismo de Bush tornou ainda mais dramático o esvaziamento da ONU. Iniciativas importantes, como a criação de um Tribunal Penal Internacional, a cargo de crimes contra a humanidade, se ressentem da ausência dos Estados Unidos.

Não há dúvidas de que os “neo¬conservadores” (falcões) no poder em Washington colocaram Annan na alça de mira. As vozes de solidariedade que se levantaram em defesa do secretário-geral criaram a impressão de que, afinal, a ONU assumia feições de entidade cuja existência é necessário preservar. Mas Annan, que reformulou todo o seu “staff” para compor-se com o governo Bush, ainda está distante de um porto seguro. Uma coisa é certa: a ONU que resistiu a pressões para legitimar a guerra do Iraque, uma ONU combativa, entrou em franco retrocesso.

O New York Times diz que veteranos especialistas americanos em política externa se dispõem a assessorar Annan em gestos que reduzam os graus de hostilidade dos falcões de Bush. “A ONU sem os Estados Unidos é instituição falida, inclusive financeiramente”, argumentam. Annan parece ter aceitado os conselhos do grupo.



No artigo

x