"Não tem outro Lula" – entrevista com Ciro Gomes

Ciro Gomes fala sobre a crise conspiração política e garante: se forçar a barra agora, esquerda só ganha eleições novamente daqui a três gerações Por Renato Rovai  ...

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Ciro Gomes fala sobre a crise conspiração política e garante: se forçar a barra agora, esquerda só ganha eleições novamente daqui a três gerações

Por Renato Rovai

 

O ministro da Integração Nacional Ciro Gomes atendeu a revista Fórum em seu gabinete, na quinta-feira, dia 29 de julho, das 14h às 16h. No contexto atual, destacar o exato momento da fala passa a ser um dado importante. O cenário político tem se alterado com enorme rapidez e muito pode ter acontecido entre o momento da conversa com o ministro e a hora em que essa entrevista estiver sendo lida por você, leitor. Um exemplo é o depoimento do ex-ministro José Dirceu na Comissão de Ética do Congresso. Ele aconteceu no intervalo dessas duas ações. Mas, dificilmente, por mais que muito mude, a entrevista que você tem a seguir, perderá em força e novidade. A ela, sem mais.

Fórum – Ministro, vamos direto ao mais quente, como o senhor está vendo o atual momento político?
Ciro Gomes – Com um misto que vai oscilando de preocupação à esperança. Às vezes, essa preocupação vai para o limite extremo e em outras a esperança aumenta bastante. O que está acontecendo, potencialmente, não é pouco grave. Temos um escândalo que pode ficar confinado à apuração da responsabilidade das pessoas, afinal de contas, é o que as civilizações mais equilibradas, mais corretas, fazem. Mas, no nosso caso, temos uma ameaça potencial de que este escândalo possa migrar para comprometer instituições e valores. O que tenho procurado dizer é que as instituições em si não são corruptas. O partido político não é corrupto, seja qual for. Eventualmente, podem ser corruptas pessoas.
Então, qual é a minha preocupação? O PT, parte por boa fé, parte por inexperiência, parte por certa arrogância, sinalizou, do pós-ditadura para cá, um discurso moralista. Ele presumia que o PT possuía o monopólio da ética, e deixava, mais do que afirmava, deixava o conjunto da sociedade acreditar na possibilidade de que ao emergir ao poder, realizaria um governo de anjos. Ora, aparentemente, e não quero fazer pré-julgamentos, algumas pessoas do PT, com responsabilidades maiores, médias ou menores, no momento em que estou lhe falando, fizeram uma bobagem. É o que parece. Se isto for na linha do que o próprio PT está fazendo, quando afasta preventivamente sua direção e estabelece os procedimentos devidos para que a impunidade não seja o prêmio deste mal-feito, isso pode ser, e é o que me dá esperança, uma coisa muito positiva.
Emergirá daí, sob o ponto de vista do PT, um partido muito mais maduro, mais democrático, mais sincero em relação à população brasileira. E também emergirá daí, para a sociedade, uma idéia muito forte de que a impunidade não é mais o prêmio dos mal-feitos.
Entretanto, como isto tudo não é neutro, nós temos outras precariedades nas jovens instituições democráticas brasileiras e temo por outras coisas. O senador César Borges, do PFL da Bahia, por exemplo, foi ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pedir, formalmente, a cassação do registro do PT. Isto é só uma caricatura daquilo que, no geral, temo. Chamei a atenção desse exemplo caricato, mas isso pode ser desdobrado no comportamento de muitos políticos no Brasil. Num senso de conveniência, de oportunismo, de exploração epidérmica dessa justa indignação da população, excitada pela televisão por horas a fio de uma cobertura. Sempre fui um crítico de certos aspectos do PT, mas faço essa análise não como militante, mas como brasileiro, como alguém que estuda as questões do país. Quem protegeu o Brasil dessa deterioração que levou a Argentina à lona, que espantou governantes recém-constituídos na Bolívia e no Equador e que gerou o clima que há na Venezuela, enfim, essa instabilidade crônica no nosso espaço, é e foi o PT.
No Brasil, essas tensões referiram-se à democracia, à política, às suas linguagens, às suas instituições, ao seu calendário, tudo por causa do PT. Levada à última conseqüência, essa absurda iniciativa, que é só caricata de um conjunto de iniciativas outras, de pedir a cassação do registro do PT, estaria subtraindo do Brasil este caminho. E traríamos para dentro do Brasil essa “ingovernabilidade” que é característica hoje na América Latina. E o mais grave é que setores de ultra-esquerda fazem o serviço desses setores ou incautos ou ultra-reacionários que estão na vida brasileira.

O senhor considera que essas duas pontas estão apostando, inclusive, nesse cenário de caos?
Ciro – Eu não sou dos que vêem golpe em gestação no Brasil. Tenho até certo ponto de vista privilegiado para entender que há. O que há é um plano para fazer do presidente Lula um “tetraplégico político”. Isso é uma expressão um pouco indelicada com pessoas que tiveram essa desdita, mas é só para fazer uma figura forte, como eu imagino que seja. O plano é fazer o presidente Lula ficar “tetraplégico” no Palácio. Para, das duas uma, abatendo a psicologia do presidente e ele imaginar não ser candidato ou, ele tendo a fibra que tem, sendo de luta como é, mantendo-se candidato, ser derrotável, que até o presente momento, eles imaginam que não é.
Esse é o plano, mas o problema é que o agir em direção a esse plano está pautado por figuras menores da vida brasileira. Das crises todas que já participei e testemunhei, essa é a primeira vez que vejo figurinhas intelectuais, morais e políticas dando o tom. Figurinhas na própria grande imprensa dando o tom. Não é que não tenha que apurar, tem que apurar. Não é que não tenha que punir, tem que punir. Mas determinados princípios, determinados cuidados, determinados zelos, com as instituições, com o dia seguinte do país, com determinadas prudências, determinadas cautelas com o aonde se quer chegar, isso eu vejo pouco. Vamos apurar e punir, mas não vamos forçar uma barra nem permitir que a sociedade descreia de certas referências centrais.

O senhor considera que essa crise, de algum modo, pode abrir um novo momento para o campo progressista construir um outro tipo de diálogo?
Ciro – A bola está quicando no nosso campo. A agenda agora é de dissenso, de falta de referência teórica. A agenda agora é qual é o modelo de desenvolvimento que nós queremos para o país, qual é a economia política que o Brasil precisa. E aí a confusão é absoluta. Não há nem um espaço nem um método para discutir, quanto mais mérito. Esse é o nosso problema. Hoje nós estamos administrando com números todos eles muito melhores do que os nossos precedentes. Dá para defender os resultados atuais da economia. Nossa vulnerabilidade externa é a menor dos últimos oito ou dez anos. Os nossos desempenhos de comércio exterior são recordes na história. Nossas contas externas são as mais sadias dos últimos oito ou dez anos. Agora, a questão básica não é essa, a questão é modelar.
O Brasil, se nós descontarmos esses momentos, essas conjunturas e olharmos em perspectiva, o Brasil, desde quando, para sair do desespero da hiperinflanção, da superinflação, adotou esta modelagem, num primeiro momento, muito mais como transição, não era um modelo assumido organicamente, refletido, debatido, amadurecido pela sociedade. Juntou-se uma meia-dúzia de ferramentas que não precisam interagir com mudanças institucionais mais profundas, nem com o Congresso, para debelar a inflação. Daí em diante tem sido uma bola de neve. Mas já é possível fazer um balanço. Na década, o Brasil teve o menor crescimento econômico médio da sua história. Nós erodimos. Deixamos de fazer coisas essenciais. As energias são, e na minha opinião não por acaso, drenadas para isso, para a conjuntura, para a desordem do dia, para a novela do dia. Não vou relativizar, acho que governar é assobiar e chupar cana mesmo. Mas Congresso, vou brincar aqui, tem que “congressar”. Tem que trazer a agenda para o país. O governo tem a obrigação de apoiar, tem, até compreensivamente, certas razões para certas perplexidades, mas tem que governar. É árido, mas agora começa a surgir um novo “petismo” na acepção pior que há nessa expressão. Eu volto a dizer, o PT é essencial para a democracia brasileira, é essencial para dar ao Brasil um caminho diferente dessa “ingovernabilidade”. Mas nessa acepção que estou querendo dizer, está surgindo um novo “petismo” daqueles que querem bancar de esquerdista de goela. O máximo de agenda que eles têm é essa agenda que o PT já teve de “fora o FMI”. Até desconhecem que o Brasil, pela primeira vez em nove anos, está fora do FMI. Agora, o FMI está na nossa alma. Nós não precisamos mais do FMI porque ele entrou na nossa alma. E essa discussão não será feita com grito, nem com simplificações grosseiras, nem com pseudo-heroísmos. Não quero dizer que não haja muita integridade em cada uma dessas pessoas. Não tenho a menor dúvida da integridade da senadora Heloísa Helena, das suas melhores intenções. Mas, assim, digo morbidamente que gostaria que o Brasil não fosse um país, fosse um laboratório.
E a gente traria certas pessoas e diria: — Toma conta aí, põe suas idéias na prática. Qual é tua relação de forças na sociedade? A esquerda sempre calculou isso. Para onde é que vão os grupos? É com o lumpen que nós vamos fazer mudanças radicais? O lumpen, para quem leu a orelha de livro de qualquer pensamento de esquerda, não é revolucionário, é reacionário. Quando exercita sua revolta é sempre sob o ponto de vista individual. Já a pequena burguesia tem uma atitude oscilante, se está em uma situação de emprego e renda, tem uma atitude conservadora.
Mas não é por culpa dessas pessoas. Quem tem que orientar essa discussão somos nós. Na academia, entre os artistas. Aliás, com os artistas, fico impressionado de ver o que vejo hoje. Quando disputava contra o Lula, aliás, não contra o Lula, era contra o Fernando Henrique e o Lula era candidato também, via a pressa, a simplificação, a falta de respeito ao processo pelos artistas. Estavam todos com o Lula. Tudo bem, o Lula é um grande brasileiro, mas agora, na primeira dificuldade, os caras já vão para um show e esculhambam. Para servir a quem? Estavam pensando o quê quando queriam botar o Lula lá? Que ele ia resolver o país num estalo de dedos, do dia para a noite? Nós estamos numa dificuldade, podemos sair dela melhor do que entramos, mas não será possível sem qualificar o debate.

Ou seja, é preciso, antes de mais nada, construir certos consensos para um projeto nacional?
Ciro – Sim, nós temos uma burguesia produtiva que possui uma interlocução interessante. Mas ela tem uma atitude meio esquizofrênica, porque, ao produzir, ao trabalhar, vê que as coisas estão erradas, mas ao apropriar os seus fluxos, seus excedentes, vira rentista, e aí fica esquizofrênica. Ela acha que está errado. Então tem uma coisa aí para a gente trabalhar, mas é muita mão-de-obra, é preciso muita lucidez, muita humildade, para não ter soluções rápidas e apressadas para problemas que são dramaticamente complexos. Sinto falta de um lugar, do método, da oportunidade, do estímulo. É atroz. Não é possível que a agenda do país se resuma a essa novela desagradável que estamos tendo que manejar. Não estou falando aqui para esquecer, puxar o foco para outro lado, nada disso. Acho apenas que a gente tem que assoviar, chupar cana e botar os pratos para rodar.

Ministro, essa crítica mais desqualificada interessa a alguns setores, o senhor poderia nomear alguns deles?
Ciro – Sim. Vamos lá, vou do menor para o maior. Cada brasileiro da política já sofreu uma injustiça do PT. Então, e conheço os ramos e as pessoas, é indisfarçável ali que o calor é também vontade de se vingar daquela injustiça, daquela coisa. Veja o Jorge Bornhausen, que sofreu o diabo, sendo um homem conservador etc., mas o tenho na conta de um homem digno. Sofreu o diabo de suspeições, sem provas, na CPI do Banestado. É um dos mais violentos hoje. Por outro lado, veja a Heloísa Helena. Ela começa as inquirições dos petistas que vão lá dizendo: “Você lembra quando me expulsou…”. Ela nem percebe. É humano, é legítimo, é compreensível. Então, do menor interesse, é que cada um quer dar um tapinha para se vingar por um dia ter sofrido uma injustiça, uma leviandade de um petista. A primeira linha é esta. É também assim quando as multidões se enfurecem. Elas não querem linchar uma pessoa, cada um só quer dar um tapinha.
Depois tem uma linha mais orgânica, mais organizada, pensada, por onde passam frenéticos entendimentos. O apartamento do senhor Fernando Henrique Cardoso é um ponto de encontro dessas pessoas. E esse setor quer fazer o presidente Lula ficar “tetraplégico”. Também é indisfarçável a ação orgânica do PFL da Bahia, mas o projeto não é golpe, é deixar o presidente Lula “tetraplégico politicamente”. Então identifico, não sei se já no limite da minha paranóia e talvez porque já me acostumei a não ver tatu em cima de toco, sem saber que tatu não sobe em toco sem que alguém o tenha botado ali, não tem quem me diga que não haja um grupo interessado em derivar todas as energias políticas do governo, as suas atenções para administrar essa crise como blindagem para não se discutir a política econômica, não se discutir os absurdos dessa modelagem no que diz respeito a essa questão da política econômica. Deixa te dar um dado, que talvez não devesse mencionar, mas li numa revista, que não consigo me lembrar agora qual, na mesma semana que explode a crise, uma página que basicamente passou despercebida. Ali se dizia que, em função das dificuldades, da queda dos indicadores do sistema econômico, começavam as discussões sobre meta de inflação, câmbio, sobre isso, sobre aquilo, pá, pá, pá e tal. E a revista dizia que isso não era certo, que não devia ser feito, não tinha cabimento… entende?

Essa crise conseguiu impor ao presidente, ao governo, a impossibilidade de tocar no modelo econômico?
Ciro – Eu não digo que impôs. O presidente está na inteireza da sua autoridade. O que há é uma derivação preciosa de energias, de tempo, de avaliação ou de aptidão a risco. Mas é preciso registrar que quando o presidente Lula estava sendo ameaçado pela minha candidatura a presidente da República nas simulações de segundo turno, o PT lançou um documento, que eu li, chamado “Carta aos Brasileiros”. Naquele documento, o presidente impôs os limites que iam balizar sua assunção no poder, uma vez ganhando, e isso fez parte do contrato dele com a sociedade brasileira. Naquela data, o PT e muita gente do partido que hoje fala em traição e tal, leu aquele documento e não disse nada.

Não seria melhor dizer que foi um contrato com setores da sociedade brasileira?
Ciro – Não, fez parte do contrato com a sociedade, com os 52 milhões. Tudo bem, o povão lá de uma favela de Olinda pode não ter entendido bem, mas os políticos que estavam com o Lula entenderam porque sabem ler. Outro dia vi uma entrevista do (Fernando) Gabeira, meu amigo, que respeito, dizendo “eles foram para a rua, prometeram, não sei o quê, não sei o quê”. Disse “eles”, como se ele não estivesse junto. Eu quis muito que ele estivesse comigo, mas ele estava com o Lula. Não dá para fazer assim, quem é de esquerda, quem é progressista, tem um compromisso com a sua biografia, mas não pode pôr o compromisso com a sua biografia acima do compromisso com a história, com o coletivo, com a nossa nação, com o nosso povo. É disso que estou tratando.
Isso também é ético. É ético não meter a mão em dinheiro, não sei o quê e tal, mas é ético também não ficar mentindo para as pessoas, não simplificar coisas que você sabe que não são simples. Às vezes é por ignorância que você está simplificando. Quem sabe e deserta nas primeiras dificuldades também não está tendo uma atitude progressista. Ou a gente esqueceu a história brasileira? Nós esquecemos? Certos grupos de esquerda fizeram o que quando o João Goulart, confuso, sem rumo, num mundo apartado pelo preto ou branco da Guerra Fria, quis se socorrer no campo da esquerda? O campo da esquerda fez o quê? Foi puxar a corda para além do que a correlação de forças permitia. Aquilo, na minha opinião, mas cedo ou mais tarde, ia acontecer, mas certas atitudes de auto-referidos progressistas precipitaram. Mas agora não vão fazer…

Será que não, ministro?
Ciro – Não, não vão fazer. Porque o povo brasileiro é muito vulnerável, por um ângulo, mas tem uma sabedoria que ainda não consegui entender direito, impressionante. É incrível como o povo tem cumprido seu papel. Audaciosamente, vou sustentar a seguinte tese: o povo não errou nenhuma vez. Aí você pode me perguntar, nem na sua eleição? Nem na minha. Mas o mais complicado da minha provocação é o Collor. Porque, depois que o Collor virou o que virou, todo mundo simplifica a abordagem. Mas, na data em que o Collor se constituiu, talvez até por negação, do jeito que foi embalado pelos mediadores da mídia, da política, do poder econômico, para o conjunto da sociedade, ele representava um valor correto para aquela data.
Uma mudança de valores, uma ruptura, uma outra geração, uma vontade de deixar o passado para trás e olhar para o futuro. E foi isso o que o povo escolheu. Claro que, depois, revelou-se falso. Mas não porque o povo escolheu errado. O povo escolheu certo, o errado estava na embalagem. E, só para registrar, se elegeu sem o meu voto e o meu apoio.

O senhor tem, ao menos internamente no governo, manifestado suas diferenças com a política econômica. Que outro modelo o senhor propõe ou o governo deveria propor?
Ciro – Antes de o governo decidir qualquer coisa, é preciso criar correlação de forças, organizar os conceitos. Porque de um lado você tem um consenso com uma força prepotente que basicamente empalma todos os centros de poderes reais no mundo. A elite brasileira, inteira, está contaminada por esse consenso. E frações dela esquizofrenicamente. Porque quem produz na agricultura está enlouquecido com essa mistura de câmbio, juro etc. e tal. Percebe que tem alguma coisa errada. Mas na hora em que você disser “vamos mudar”, se não tiver isso dialeticamente amadurecido, esses setores tomam uma atitude reacionária.
A indústria brasileira percebe que tem uma coisa centralmente errada para ela. Percebem, por essa mistura de câmbio, de juro, de infra-estrutura depauperada, que tem alguma coisa errada. Mas se você disser “vamos mudar”, sem que isso esteja amadurecido dialeticamente, conceito estabelecido, eles ficam contra. Preferem que deixe assim, todo mundo já se adaptou, já sabe se virar. É claro que as estatísticas de falências e concordatas dos últimos oito anos foram as maiores da história do país. Agora não, agora desaceleram essas estatísticas.Falta o locus, o método e a humildade dos setores progressistas, porque agora nós temos a hegemonia política.
Essa é a nossa oportunidade histórica e seremos muito gravemente cobrados se não fizermos o que precisa ser feito. Não tem outro Lula no universo. Pelo o que ele é e pelo o que representa. Não tem outro Lula. Forçar uma barra agora, pela esquerda, só porque estamos todos inquietos com as contradições, sejam elas de natureza econômica, ética, de qual natureza for, é só cuspir para cima. Sabe quando a esquerda vai ganhar de novo as eleições no Brasil? Só daqui a três gerações de políticos. Não tem outro Lula.
Por isso que eu, mesmo não concordando com algumas coisas, acho que o foro é aqui. Tudo o que quero dizer, digo. Não quero ser o dono da verdade, não posso ser o dono da verdade, mas digo o que penso e nas instâncias corretas. Agora, sei que quem tem que amadurecer a correlação de forças, dimensionar o risco, ponderar a velocidade, ver a hora de pôr o pé no freio, no acelerador, é ele, o presidente da República. Nessa desgraça que temos, que é o presidencialismo, é sempre o presidente, e só ele, que tem que ajuizar isso.
E nós, que porventura não tivermos as nossas boas idéias postas em prática, precisamos ter paciência, humildade, senso histórico. Ou, se preferirem, paciência revolucionária. Não sendo atendidos, mesmo que estejamos frustrados, colaborar para destruir uma coisa dessas é um equívoco histórico. Uma pessoa que se diz de esquerda e pratica isso, na minha opinião, não é de esquerda.

E a respeito de um modelo diferente do atual?
Ciro – Modelo mesmo não existem muitos disponíveis. E o Brasil ainda é um país de certos rincões feudais, com uma economia agropastoril de subsistência dramaticamente atrasada, ao molde de como os portugueses nos encontraram aqui. E, por outro lado, tem uma economia pós-industrial, avançadíssima, moderna. Essa é uma característica do Brasil. Nós podemos andar para trás e virar uma nação exportadora de comoditties de baixo valor agregado. Ou podemos dar um pulo para frente. A China achou um caminho. Vá ver as institucionalidades chinesas, veja se eles estão copiando o modelo de alguém. Só os chineses podem entender aquilo. Existe uma hegemonia política de partido único, com todos os elementos simbólicos do marxismo-leninismo não negados na questão da prática das instituições. E uma economia de um capitalismo agressivo que mexe com tudo.
Por outro lado, a Índia tem fornecido mão-de-obra de qualificação para os Estados Unidos. Este é o primeiro episódio da história moderna do Pós-guerra em que você tem um grande centro de formação de capital humano fora dos Estados Unidos, para trabalhar lá. E em uma área de ponta, a informática. A institucionalidade indiana é ininteligível para esses simplificadores do planeta. A Rússia, que tombou diante da comunidade financeira internacional depois da explosão da União Soviética, já virou o jogo e sabe aonde quer ir. E, nós, vamos para onde?

O senhor disse que se fosse presidente poderia ter sido “impichado”. Então, um outro candidato que fosse eleito e não tivesse a base social de Lula ou talvez a até exagerada prudência dele na área econômica seria ainda mais vulnerável que ele?
Ciro – Além dos 52 milhões de votos, dessa representatividade, o presidente tem essa virtude da paciência, da serenidade que muitas vezes, por diversos setores mais agressivos da esquerda, é entendido como transigência. Eu, hoje, como observador da realidade brasileira, vejo como uma virtude essencial. Se não tiver essa prudência, essa paciência, querendo mudar, pode pôr tudo a perder. Hoje tenho convicção disso. É essencial observar a correlação de forças na sociedade brasileira. É um milagre que já não tenham desmoralizado o presidente Lula com este “abafa” que está aí.

O senhor responsabiliza o ex-presidente FHC por muito dessa cultura política de demolir projetos, propostas que difiram do atual modelo econômico?
Ciro – Quem deu organicidade a essa perversão no Brasil, que já havia sido iniciada nos primeiros passos do governo Collor, foi, e não há como mudar isso para a história, o senhor Fernando Henrique Cardoso. Repare bem, de 1.500, quando aportou Pedro Álvares Cabral, à posse do senhor Fernando Henrique, em janeiro de 1995, nós tínhamos construído uma dívida que correspondia, naquela data, a algo aproximado a 30% de um ano de produção nossa riqueza, do nosso PIB. Naquela data, nós tínhamos uma carga tributária de 27% desse mesmo PIB e tínhamos ativos de algumas empresas brasileiras que, vendida só a parte vendável, vamos dizer assim, pagavam 80% da dívida. Telebrás, Eletrobrás e Vale do Rio Doce pagavam 80% da dívida naquela data.
O país tinha superávit na balança comercial e na Previdência. E, oito anos depois, não 500, só oito, o Brasil tinha uma carga tributária de 36% do PIB, uma dívida pública de 58% do PIB e o senhor Fernando Henrique havia privatizado, internacionalizando, portanto, fundando nossa vulnerabilidade externa, 100 bilhões de dólares.

O desastre Fernando Henrique é maior que o desastre Collor?
Ciro – É sem precedentes na história brasileira. Não digo isso porque não gosto dele, não. São números e quero discuti-los. Mas tem outras coisas. Se pegarmos, por exemplo, o desastre cambial, o Brasil quebrou três vezes com o senhor Fernando Henrique. Três vezes nós fomos à lona. Numa delas, passada a reeleição, ele tinha assinado um memorando – o governo, não ele – com o FMI, com a maior ajuda em todos os tempos, 45 bilhões de dólares, em que não faltou a presença do presidente Clinton forçando essa barra. Isso é o que eles não querem que eu fale. Ele tinha assinado no governo um memorando, que faz parte do acordo, assumindo o compromisso de não mudar a taxa de câmbio. Sabe o que ocorreu? Passou a reeleição, princípio de 1999, e eles disseram que o mercado atropelou o câmbio. Devagar com o andor… Naquela data, e vou falar por dia para que não pairem dúvidas. Dias 1, 2, 3, 4, de uma semana o sistema financeiro todo comprando dólar. Fim de semana. Dia 1 da semana seguinte, o sistema financeiro todo comprando dólar. Dia 2, daquela semana, o sistema financeiro todo vende dólar para o Banco do Brasil, menos os bancos Marka e FonteCindam.
Todo o prejuízo cambial foi passado para o setor público brasileiro. Em um único dia. Pode ter sido uma coincidência. Só quem errou foram Marka e FonteCindam. Providência do dia 4 daquela semana: indenizaram o Marka e o FonteCindam com dinheiro público. Foi isso o que aconteceu, é disso que se trata, por isso fico comovido com certos fragmentos do nosso pensamento progressista. Não prestam atenção, ficam nas simplificações, não vamos mudar o paraíso para a terra. E a dialética? E a correlação de forças? E os prazos? E o esquema de alianças? E o esquema tático? Começamos por qual caminho? Então, cadê a discussão?

Essa crise poderia, por uma série de motivos que o senhor expôs, ter outro tamanho e gerenciamento?
Ciro – Quer um exemplo? No impeachment do Collor, tínhamos um coletivo para discutir o que estava acontecendo. O Lula fazia parte do coletivo, a gente discutia as coisas, tateava o ambiente. E o Jorge Bornhausen, que era um homem do Collor, conversava conosco. Não saía em jornal coisa nenhuma, mas conversava. O Hélio Garcia, ex-governador de Minas, tinha conexão para informar sobre como é que iam certos setores militares naquela data. Íamos olhando as coisas, como conduzir para não precipitar o país numa besteira. Tudo bem, a rua firmada, derruba o Collor etc., mas estava tudo sob controle.
Não estou falando de inibir nada, nem fazer nada, mas apenas de não brincar com fogo, não achar que o mundo se acaba num episódio. Não pode ser a luta política de extermínio. Como é que pode alguém pedir, sendo senador da República, ex-governador de estado, como o (César) Borges, pedir a extinção de um partido, a cassação do PT? Suponha que o pedido seja acatado. O que ele imagina que fez com o país? Qual é a responsabilidade que este senhor tem com o país? Tô puto com isso.

 



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