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Oded Grajew diz que os orgãos responsáveis pelo controle dos recursos públicos falharam. “Eles têm de alertar os governantese a sociedade que tem um ladrão entrando” Por Glauco Faria e Daniele Próspero  ...

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Oded Grajew diz que os orgãos responsáveis pelo controle dos recursos públicos falharam. “Eles têm de alertar os governantese a sociedade que tem um ladrão entrando”

Por Glauco Faria e Daniele Próspero

 

Amigo pessoal de Lula, Oded Grajew, hoje só conversa com o presidente em encontros esporádicos, fato que os dois já lamentaram publicamente. Ex-assessor da presidência, o empresário, idealizador do Fórum Social Mundial e fundador do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, diz que uma das grandes dificuldades de se chegar ao poder é o isolamento do governante em relação a muitas coisas que acontecem à sua volta. “Qualquer pessoa, não só o presidente, precisa que alguém chegue e diga: ‘Olha, sou amigo, não sou adversário. Tem problema aqui, problema lá’. Mesmo as pessoas que têm críticas, quando chegam perto só dão parabéns”, critica.
Grajew também ataca a centralidade das ações do governo na área econômica e a ausência de metas sociais claras. “Foi essa idéia que me levou a criar o Fórum Social Mundial. Sempre me incomodava o econômico ser o motor de todas as discussões e mobilizador de todos os projetos e ações”, relembra. Mesmo assim, ele acredita que o presidente possa ser reeleito, já que a comparação com as gestões passadas seria vantajosa para o atual governo. “Mesmo com muita gente dizendo que o Lula devia avançar mais na área social, ele tem mais a mostrar do que o FHC”. Confira abaixo trechos da entrevista:

Fórum – Muitas empresas acabaram adotando responsabilidade social não em termos de conceito, mas de marketing. Um exemplo disso é o recente comercial de uma faculdade privada em que o conceito de responsabilidade social está resumido a mensalidades mais baixas. Como se combate esse tipo de apropriação?

Oded – Uma coisa que temos trabalhado muito são os meios de comunicação. Temos uma rede grande de jornalistas, fazemos capacitação, temos materiais justamente para eles entenderem o conceito da responsabilidade social e poder tanto valorizar ações positivas como criticar o mau uso do conceito. Estimulando a crítica para que essas coisas não aconteçam ou, quando acontecerem, resultem em descrédito para quem faz. As pesquisas que a gente tem com o consumidor mostram que ele está disposto a valorizar as empresas de acordo com o grau de responsabilidade social e a propaganda enganosa faz com que as pessoas rejeitem a empresa. Evidentemente, essa universidade cai no descrédito diante do público, a propaganda vai se tornar negativa inclusive para as pessoas que estudam ou trabalham lá.

Fórum – Muitas empresas fazem programas que parecem ser compensatórios, articulam um projeto social, mas degradam o meio ambiente de outro lado…

Oded – Quando o Ethos surgiu era para expor essa contradição e dizer: “Não estamos falando de projetos sociais”. O crime organizado, o tráfico de drogas tem projetos sociais, mas isso não quer dizer que sejam socialmente responsáveis. A responsabilidade social é uma forma de gestão que procura impactar positivamente todas as ações da empresa. A filantropia procura influir em uma parte da comunidade, agora, quando falo do todo, estou falando de meio ambiente, dos funcionários, dos investidores, dos clientes, dos acionistas, do governo, da sociedade… Não adianta fazer ação social se agride o meio ambiente, joga lixo no rio, engana o consumidor, usa trabalho infantil ou não paga imposto.
Quando a gente fala em responsabilidade social, dizemos em relação a qualquer organização, sindicato, ONG, partido político, governo ou mesmo um clube de futebol. Falo isso e já começo a causar um determinado incômodo em várias dessas organizações.

Fórum – Quais organizações se sentem incomodadas?
Oded – Aquelas que têm como missão trabalhar, por exemplo, para o bem público. O que se questiona é a coerência que existe entre o discurso e a prática. Os sindicatos, por exemplo, têm como missão melhorar a vida dos trabalhadores. Eles têm funcionários e podem dar o exemplo de como os trabalhadores têm de ser tratados. E aí começa — muitas vezes, não quero generalizar —, mas começa um certo mal estar. A mesma coisa vale pra Ong. Tem algumas com determinadas missões, como direitos humanos, mas não praticam isso internamente. E isso vale para partido político também.

Fórum – Falando em partidos, como o senhor vê o momento político atual?
Oded – Isso é um exemplo típico do que eu estou falando. Porque quando você proclama, no caso do PT, a questão da ética e a defesa dos trabalhadores, como esse discurso tem a ver com a prática confessada de caixa 2, que é uma ilegalidade? O que é caixa 2? É sonegação de impostos. Impostos que iriam para a educação, saúde, para políticas publicas que beneficiam acima de tudo os pobres. Não sei se passou despercebido, mas se olharmos a situação do PT, há muitos impostos atrasados, fundo de garantia dos funcionários, previdência… Isso faz com que a credibilidade do partido fique colocada em xeque.
Depois, a questão do Estado brasileiro. Ele tem por objetivo trabalhar para o bem comum e uma maneira de fazer isso é nas suas relações com as empresas, procurando estimular a responsabilidade social. Por exemplo, colocar como condição de fornecimento, a responsabilidade social. Hoje apenas é visto preço. Deveria se exigir que a empresa cumprisse uma série de requisitos de responsabilidade social para fornecer ao Estado. Outra coisa, todos nós pagamos impostos e uma quantia substancial deles vai para organizações e pessoas que têm a missão de defender o bom uso dos recursos públicos, como Tribunais Eleitorais, Tribunais de Contas, Receita Federal, Banco Central, Corregedoria da Republica. Essas organizações devem avisar imediatamente quando percebem alguma coisa suspeita. Elas têm de alertar os governantes e a sociedade que tem um ladrão entrando. E avisar antes que o ladrão roube o dinheiro, né? Afinal, há um monte de gente trabalhando lá. Um monte de dinheiro investido. E nenhum deles acionou nem um apitozinho. Então, todo o sistema de proteção de Estado falhou. Como uma usina nuclear que tem o risco de estourar e estoura sem que ninguém avise absolutamente nada.

Fórum – Quando se fala no caixa 2 e em corrupção sempre o foco é o Poder Público, os políticos, mas quem financiou o caixa 2 foram empresas, instituições financeiras. Não existe um silêncio em relação a esse setor da sociedade que está dentro desse processo?
Oded – Nesse sentido, você tem toda a razão. No Ethos, uma das coisas novas que estamos fazendo é iniciar um projeto de engajar as empresas. Porque se não houver corruptor, financiamento de caixa 2, você vai eliminar uma boa parte dessa corrupção. O processo que estamos tocando é semelhante ao que fizemos com o Pacto do Trabalho Escravo. Algo como eu faço desde a Fundação Abrinq, com o trabalho infantil. Até porque o Estado brasileiro não tem condições financeiras de cumprir sua função. Para coibir o trabalho infantil, o trabalho escravo, tem muito pouco funcionário, poucos fiscais. Então fizemos um levantamento do trabalho infantil na época da Fundação Abrinq, e agora do trabalho escravo, no Ethos. Fizemos o mapeamento da cadeia produtiva onde chegam os produtos e fomos comprometendo as grandes empresas e os bancos a não comprar produtos e serviços dessas empresas. Também estamos convencendo os bancos a não oferecer crédito a elas. Então você corta a possibilidade dessas atividades, porque você as torna inviáveis.
Isso está tendo impacto grande na diminuição do trabalho escravo. Agora nessa questão da corrupção estamos construindo um Pacto Nacional Empresarial pela Integridade e pelo Combate à Corrupção, que será lançado no dia 9 de dezembro. Pelo pacto, não vai se dizer apenas “não vou com gente corrupta”, mas será assumido o compromisso de implementar dentro da empresa processos de gestão que eliminem o risco de se corromper agentes públicos, como auditoria, fiscalização, enfim. Depois vamos fazer a mobilização dos consumidores, pessoas físicas, jurídicas e dos próprios governos para que só comprem de empresas que assinem o pacto. Se vai comprar de outras, cada um assume a sua responsabilidade. Você pode me perguntar, e por que o Congresso não faz isso, não torna lei? Porque estão todos comprometidos. Não querem perder a sua fonte de financiamento das campanhas.

Fórum – E a reforma política onde entra em todo esse contexto?
Oded – A reforma política só vai acontecer com a pressão da sociedade. Se houver reforma política pra valer, 90% do Congresso não se reelege. Por isso ela só vai acontecer se a sociedade se mobilizar. E por que tem que ter a reforma política? Porque esse processo atual produz esses resultados. Precisa ter uma reforma que promova outros processos e assim outros resultados. Por exemplo, na minha opinião, acabar com o financiamento privado de campanhas. O financiamento privado de campanhas eleitorais produz caixa 2. As empresas não querem aparecer e quem está lá passa metade do mandato para atender os interesses de quem financiou e a outra metade procurando os próximos financiadores. Então, quem está lá não vai produzir resultados, propostas ou leis que favoreçam aos pobres, que não financiam. Vão beneficiar aqueles que os financiaram. Por exemplo, escolas privadas têm um grande lobby. Elas financiam muitas campanhas e certamente não pedem para seus candidatos fazerem uma educação pública de excelência. Porque aí elas perdem, acabam. Ninguém vai lá pagar porque gosta de pagar. Se tivesse escola pública de excelência para todos, não precisaria existir escola particular.

Fórum – Tanto que a reforma universitária teve toda resistência.
Oded – Com certeza… Com a saúde a mesma coisa, tem um grande lobby. Sem a pressão da sociedade não vai acontecer. As organizações, os sindicatos precisam se mobilizar. Não tem só a questão da corrupção, mas também os compromissos com o interesse público das pessoas que estão lá. Hoje só votam leis e projetos voltados para a camada da população mais rica. Por isso que a desigualdade não diminui no Brasil, os menos favorecidos não têm voz nas políticas públicas. Quem determina as políticas públicas são aqueles que são financiados pelos ricos.

Fórum – Você disse que os financiadores de campanha firmam uma relação com o candidato eleito. No caso do Lula, você acha que existe essa relação ou isso na verdade está em alguns setores do governo que não necessariamente na figura do presidente?
Oded – (pensa bastante) Quem financia campanha, financia por algum motivo, ele quer algum retorno. As campanhas custam muito, geralmente são recursos de grandes empresas, bancos, e o político tem a sua lógica: chegar ao poder e ficar no poder. Quando se chega lá já é preciso pensar na próxima campanha. A grande dificuldade com esse sistema é descontentar aqueles que financiaram. Se fizer isso, não vai haver recursos para a próxima campanha. O governo Lula não fugiu à regra.

Fórum – O senhor consegue identificar algum setor do governo mais atrelado a esses financiadores?
Oded – Isso não é aqui ou ali dentro do governo. Como na empresa, existe uma direção e não há diferentes políticas. Tudo tem uma coerência. O maior peso no orçamento federal hoje são os juros. É um terço. Mais que saúde, educação, transporte, habitação. E essa é a parte sagrada do orçamento. Você pode mexer em tudo, menos nisso.
Uma coisa bem simbólica, didática, para explicar. Como se avalia um governo? Com que indicadores se trabalha? Estamos promovendo indicadores muito precisos que medem a relação da empresa com todos os seus públicos. Em relação ao governo, quais são os indicadores que a sociedade conhece? São metas econômicas, meta de superávit primário, de inflação, de superávit da balança comercial, crescimento do PIB… São indicadores econômicos, você conhece metas sociais com as quais o governo tem compromisso? O governo firmou compromisso de metas econômicas com o Banco Mundial. E os compromissos sociais e com o desemprego, isso foi firmado com algum organismo? E a distribuição de renda, os indicadores da saúde?
Foi essa idéia que me levou a criar o Fórum Social Mundial. Porque lá, no Fórum Econômico, que tive a oportunidade de acompanhar, sempre me incomodava o econômico ser o motor de todas as discussões e mobilizador de todos os projetos e ações. O econômico é que comandava o social. O mundo não era visto como uma sociedade, mas como mercado. As pessoas não são pessoas, são consumidoras ou produtoras. E a idéia de criar o FSM é fazer a inversão, o social é que tem de determinar o econômico.

Fórum – Falando da centralidade na área econômica, a Carta ao Povo Brasileiro já era um prenúncio do que viria, não?
Oded – Foi um prenúncio, um aviso. Tiveram pessoas que acreditaram, outras não, ou acharam que era apenas uma retórica para ganhar as eleições e a esperança de que as coisas depois iam acontecer de outra forma. Por exemplo, respeitar os contratos. Vamos respeitar ou tentar negociar? Vou chegar, por exemplo, e propor que, ao invés de pagar tanto de juros da dívida, vamos converter uma parte deles em um Fundo de apoio da Educação e fazer uma negociação, um monitoramento, para priorizar o social.

Fórum – E à época qual era sua impressão quanto à Carta ao Povo Brasileiro, o senhor achava que era de fato um compromisso ou somente retórica?
Oded – Achava que era uma afirmação que ajudaria nas eleições e que a partir de lá ia se tentar uma negociação. Pensava que, depois, com o peso político da eleição, de tantos votos, do peso do Brasil no cenário internacional, iríamos fazer propostas, renegociar, converter parte da dívida em projetos sociais, como alguns paises conseguiram. Mas é uma negociação dura, tem que colocar todo o peso político nisso. Mas a Carta do Povo Brasileiro também não dizia que não ia fazer.

Fórum – Mas foi essa prioridade para a área econômica que lhe motivou a sair do governo?
Oded – Não. Fiquei apenas um ano lá. Primeiro relutei em aceitar o cargo, não queria sair de São Paulo. Sempre foi claro para mim que era uma coisa transitória, pois o meu trabalho era muito mais de mobilização da sociedade, de engajamento do setor empresarial, apoio a projetos sociais, porque o orçamento tem seus limites, mas a sociedade tem muitos recursos.
Então fui lá e muitos projetos foram desenvolvidos, como o das cisternas, banco de alimentos, de zerar o número de cidades sem biblioteca no Brasil, combate ao trabalho e prostituição infantil, engajamento em programas de combate ao analfabetismo, de apoio a projetos de desenvolvimento local e o Fome Zero. Mas eu não gostava de morar em Brasília, minha família, meus amigos, meus interesses estavam em São Paulo. O trabalho já está lá, posso continuar ajudando, mas acho que a minha tarefa com um cargo oficial, como assessor da Presidência da República já estava se esgotando. Eu queria mais qualidade de vida.

Fórum – No discurso da sua despedida do Planalto, o presidente falou que no governo vocês tinham pouco tempo para conversar e achava que depois do seu desligamento vocês poderiam “prosear” mais. Você têm proseado mais com o presidente?
Oded – A agenda do presidente é uma loucura, principalmente porque ele tem muitas relações e sobra pouco tempo, né? Não só comigo. Isso é um dos problemas do Lula. De não ter tempo de reflexão, de conversar. A gente está ocupado a todo momento. De lá pra cá não mudou muito, nos encontramos de vez em quando, mas tanto na agenda dele quanto na minha não sobra muito espaço. Esse é um dos problemas não só dele, mas de outros presidentes, de governadores, uma agenda tão cheia que se pára pouco para pensar, refletir, ouvir uma critica.

Fórum – Isso faz mal ao Lula? Em uma entrevista, o senhor disse que eram o senhor, o Frei Betto e o Ricardo Kotscho que conseguiam falar algumas coisas que outros não conseguiam.
Oded – Até mandei uma carta para a Época por conta disso, dizendo que não era só a gente, é que eram poucos os que tinham condições de chegar, conversar e fazer críticas. Falar coisas que são desagradáveis até para quem ouve, mas com a maior das boas intenções. E qualquer pessoa, não só o presidente, precisa que alguém chegue e diga: “Olha, sou amigo, não sou adversário. Tem problema aqui, problema lá”. Como amigo mesmo. Mesmo as pessoas que têm críticas, quando chegam perto, só dão parabéns. Isso porque a política virou meio de vida de muita gente. A pessoa não tem a liberdade de defender as suas idéias e pensa: se eu fizer uma crítica, corro o risco de ser demitido e perco meu meio de vida. Isso é um grande problema dos cargos de confiança. Muita gente depende do governante e não fala com medo de perder o emprego. Eu não dependia, não tinha isso. O Kotscho e o Betto saíram porque não era um meio de vida para eles.

Fórum – O senhor consegue identificar dentro do governo pessoas que possam fazer essa crítica?
Oded – O Gilberto Carvalho é uma pessoa próxima que fala as coisas para o presidente. O Jacques Wagner também. Acho que são essas pessoas que vejo dentro do governo. Tem outros fora do governo, como o Paulo Vanuchi, que tem essa liberdade. Mas são poucos.

Fórum – Como o senhor analisa as possibilidades de reeleição do presidente Lula?
Oded – Tudo é possível com o poder que tem o governo e alguns resultados positivos, por exemplo, na área social. A bolsa-família deve atingir até o final da gestão 11 milhões de famílias, ou seja, 40 ou 50 milhões de pessoas, que são diretamente beneficiadas com isso. O emprego formal, de carteira assinada, também está crescendo. Acho que se a atividade econômica acelerar no próximo ano, e o governo tem instrumentos para fazer isso acontecer, o Lula pode se reeleger.
Tem outro cenário, onde a atividade econômica não se acelera tanto e a oposição vai usar muito toda essa questão da corrupção. Mas os outros adversários também têm telhado de vidro, fizeram caixa 2, usam os mesmos métodos. O que está aparecendo não mostra que o PT é pior que os outros, mas que é igual, quando o discurso era que “eu sou diferente”. Os outros candidatos, do PSDB em especial, também fizeram mau uso do fundo partidário e não tem muito a mostrar. O que foi feito em termos de políticas sociais na época do Fernando Henrique Cardoso? Não tem currículo para mostrar e não tem diferença em prática política. Mesmo com muita gente dizendo que o Lula devia avançar mais na área social, ele tem mais a mostrar do que o FHC. Eleição se faz sempre entre os candidatos possíveis e não aquilo que a gente deseja. Na eleição, o Lula pode mostrar dados sociais melhores, dados econômicos melhores, em termos de inflação, de diminuição do risco do país, crescimento e geração de emprego.



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