No coração da floresta

No Oeste do Pará, o Programa Saúde e Alegria transforma a realidade humana de comunidades como Urucureá, garantindo a preservação da selva Amazônica. Por Eliza Capai  ...

174 1

No Oeste do Pará, o Programa Saúde e Alegria transforma a realidade humana de comunidades como Urucureá, garantindo a preservação da selva Amazônica.

Por Eliza Capai

 

Um grupo se reunia nos bancos de madeira montados em forma de meia-lua na praça de terra batida à sombra de seringueiras. A poucos metros dali, o rio Arapiuns e a floresta Amazônica. Marcio Halla, do Projeto Saúde e Alegria, se levanta. “Queria consultar vocês sobre uma visita”, começou. “Na quarta-feira o Greenpeace e dois representantes do McDonald’s gostariam de vir aqui.”
Entre uma frase e outra, o fruto da árvore caía estalando no chão, ao lado das crianças que acompanhavam suas jovens mães. A rede de fast food, que pressionou a gigante Cargill ao recusar soja de áreas desmatadas, queria conhecer comunidades que vivem em “harmonia com a floresta”, para apóia-las em seus programas de responsabilidade social. “Vocês sabem o que é McDonalds?” Olhares silenciosos significavam “não”.
No Oeste paraense, Urucureá faz parte das comunidades ribeirinhas do médio Amazonas onde 47,5% da população têm 15 anos ou menos. Na mesma proporção de riquezas e belezas naturais, estão tristes números de desenvolvimento humano. A desnutrição atinge 10% das crianças de até dois anos e a mortalidade infantil é o dobro da média brasileira, empatando com Nova Guiné. Sem saúde e sem escola. Apenas 7,5% da população concluem o ensino médio.
Diante desses números, surgiu, em 1987, o Projeto Saúde e Alegria voltado para 16 comunidades à beira do Amazonas, Tapajós e Arapiuns. Passadas duas décadas, são 29 mil beneficiários de três frentes de trabalho: Saúde comunitária, Economia da floresta e Educação, cultura e comunicação.

Ao chegar à casa de dona Rosangela, que me hospedava, pergunto onde é o banheiro. “Ah, isso ainda não tem. Mas sanitário é ali em cima”, apontou a anfitriã para uma pequena trilha do lado da casa que leva a um barraquinho de madeira. O sanitário consiste em um buraco no chão. Para o banho, tem a pia. “Nem acredito quando vejo essa água vindo até aqui”, comemora a dona da casa.
Há dois anos, como parte das medidas sanitárias, o PSA levou água encanada para Urucureá. Antes, banho era de rio. “Na seca ficava muito barrento e as crianças tinham muita diarréia”, lembra Rosangela. Além dos canos a entidade distribuiu filtros, auxiliou na construção de fossas, ensinou a tratar a água. Mas a menina dos olhos do projeto é o barco-hospital Abaré, que atende 14 mil pessoas, por conseguir chegar a vilas de difícil acesso e distantes de postos de saúde e hospitais convencionais. A “ambulancha” é uma rede de radioamadores que comunica ocorrências, implantada para garantir a eficácia da ação de saúde.
A queda da mortalidade infantil é um dos resultados. As comunidades atendidas pelo projeto têm 27 mortes para cada mil nascidos vivos. As não-atendidas têm 51,8 por mil. O índice nacional é de 22,5 por mil, e o do Pará é de 25,5 por mil (dados de 2004), o que mostra que há muito trabalho pela frente.
Na área da educação, o aproveitamento também melhorou. O analfabetismo, que na vizinhança chega a 11,27% para maiores de 15 anos, caiu para 5,49% nas comunidades atendidas. 95,1% das crianças freqüentam atualmente a sala de aula, e exigem investimento na capacitação de professores. Também incentivam a organização e gestão comunitárias, além de fomentar jornais e rádios.
À luz de velas, Rosangela revirava a tapioca na frigideira enquanto seu filho escrevia as notícias do Jornal Mocorongo. Mocorongo, gentílico de quem nasce em Santarém, é também o nome do circo que alegra as comunidades atendidas pelo PSA, e da rede de jovens comunicadores. São repórteres-mirins que usam o rádio, recebem kits para fazer seus impressos e começam a produzir seus jornais digitalmente. Os telecentros, munidos de computadores e acesso à internet movidos a energia solar, já se ancoram pelas vilas ribeirinhas, mas ainda não chegaram a Urucureá.
Enquanto as máquinas não chegam, o jornal continua sendo feito à mão, à luz das lamparinas. Na manchete, a visita de um grupo de turistas pela comunidade. Ocorre que, desde 2002, o turismo social aportou por ali. Cada viajante que chega deixa R$ 10 por dia para a comunidade. Nas vilas, cuja economia é baseada na caça, pesca artesanal, coleta de produtos da floresta e roçado de mandioca – tudo para subsistência –, a circulação de dinheiro é muito reduzida.
Com o esgotamento de recursos naturais decorrentes das monoculturas, do pasto para o gado, extração madeireira e pesca comercial, a mercantilização vem sendo necessária para a sobrevivência. Nestes povoados com árvores de cinco séculos, igarapés com água transparente, rios verdes e vitórias-régias, o turismo ganha espaço como gerador de renda, potencializando outras atividades, como a venda de artesanato, incentivada e capacitada pelo PSA dentro do eixo da Economia da floresta.
É esta a área que chama a atenção da multinacional McDonalds. Em tempo: a visita do Greenpeace com representantes da empresa foi autorizada e realizada. Eles conheceram as três frentes de atuação, especialmente o comércio de cestas de palha de tucumã, que trouxe R$ 33 mil para as artesãs de Urucureá em 2006, a maior fonte de renda das 60 famílias da comunidade.
“Com isso a gente acaba levantando a discussão do desmatamento, porque aproximadamente 80% da área têm que estar preservada”, calcula Marcio Halla. Este percentual é a forma de garantir a matéria-prima do negócio. Líderes comunitários e membros do PSA percorrem a região, com um aparelho GPS nas mãos, para mapear casas, roçados, a igreja, e as matas primária e secundária.
Depois de três horas de caminhada para o mapeamento, o grupo retorna à mesma praça onde Rosangela, gerente de vendas, se reuniria com as tecelãs no dia seguinte. Cada uma ganhava os reais que havia tecido e Rosangela ganhava um percentual por cuidar do negócio. O dinheiro-extra tinha destino certo. Comida.



No artigo

1 comment

  1. Vilmara - Turismol&o Responder

    Muito boa a materia. É possível observamos que quando há interesse das grandes empresas em preserva os recursos naturais os resultados são pósperos a todos os envolvidos e a comunidade ribeirinha do norte do Brasil agradece. E outro vies importante a ser mencionado é a possibilidade de acensão da economia dessas cidades com essas iniciativas de extração susténtavel de recursos naturais tanto para produção como para prática do turismo social que quando bem planejado e desenvolvido trás dividendo satisfatórios.


x