Novidades do mundo do trabalho

Análise de Marcio Pochmann Por Marcio Pochmann   Em meio ao considerável avanço do que se reconhece cada dia mais por sociedade pós-industrial, são acumuladas novas e...

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Análise de Marcio Pochmann

Por Marcio Pochmann

 

Em meio ao considerável avanço do que se reconhece cada dia mais por sociedade pós-industrial, são acumuladas novas e importantes perspectivas acerca do trabalho no futuro não tão distante, muito mais como dúvidas do que necessariamente certezas. Um bloco dessas novidades é descrito brevemente a seguir, ajudando a compreender como as escolhas políticas, sociais e econômicas de cada país podem ou não resultar na transformação profunda do atual mundo do trabalho.
Em primeiro lugar, cabe mencionar a fantástica ampliação da expectativa média de vida. Há mais de cem anos, ainda durante o predomínio da sociedade agrária, a esperança de vida ao nascer não superava, por exemplo, os 40 anos de idade.
Ao longo do século XX, com o apogeu da sociedade industrial, a longevidade da vida humana praticamente dobrou para os 80 anos de idade, em média. Na sociedade pós-industrial, os 120 anos de esperança de vida ao nascer não mais parecem distantes.
A partir disso, adicionam-se ainda mais três significativas novidades no trabalho do futuro. Uma primeira relaciona o comprometimento do trabalho com o ciclo da vida humana. Na sociedade agrária, o trabalho era exercido a partir dos cinco a seis anos de idade para prolongar-se até praticamente a morte, com jornadas de trabalho extremamente longas (14 a 16 horas por dia) e sem descanso, férias, aposentadorias e pensões.
Para alguém que conseguisse chegar aos 40 anos de idade, tendo começado a trabalhar aos seis anos, por exemplo, o tempo comprometido somente com atividades laborais absorvia cerca de 75% de toda a vida. Em síntese, viver, naquela época, era fundamentalmente trabalhar.
Na sociedade industrial, o ingresso no mercado laboral foi postergado para 14 ou 16 anos de idade, garantindo aos ocupados, a partir daí, o acesso ao descanso semanal, férias, pensões e aposentadorias provenientes da regulação pública do trabalho. Com isso, alguém que ingressava no mercado de trabalho aos 15 anos de idade e permanecia ativo até os 60, teria absorvido, por exemplo, cerca de 50% do tempo de sua vida com o exercício do trabalho heterônomo. Nesse sentido, viver já não seria mais somente trabalhar.
Para a nova sociedade pós-industrial, a inserção no mercado de trabalho está sendo gradualmente postergada ainda mais, possivelmente para após a conclusão do ensino superior, com idade acima dos 23 anos de idade, bem como sincronizada com a saída do mercado de trabalho a partir dos 70 anos. Diante isso, o trabalho heterônomo deve corresponder a não mais do que 25% do tempo da vida humana. A parte restante da vida não se constituirá, necessariamente, em tempo livre, pois deve corresponder aos deslocamentos espaciais e aos compromissos burocráticos exigidos pela nova organização social.
A segunda novidade proveniente da maior longevidade da vida decorre da concentração do trabalho no setor terciário, que poderá representar cerca de 90% do total das ocupações. O terciário tende não apenas a assumir uma posição predominante, tal como representou a agropecuária até o século XIX com a indústria respondendo por não mais de 10% do emprego total, como passar a exigir, por conseqüência, novas formas de organização e representação dos interesses em um mundo do trabalho muito heterogêneo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a indústria emprega atualmente apenas 13% do total dos ocupados, com a agropecuária respondendo por menos de 5% do total da ocupação.
A terceira novidade a ser ressaltada decorre da profunda alteração na relação da educação com o exercício do trabalho. Até o século XIX, o ensino era somente para uma elite. No século XX, o acesso à educação foi generalizado amplamente pela sociedade industrial, passando a atender diretamente as faixas etárias mais precoces como requisito de preparação para o trabalho. Na sociedade pós-industrial, a educação tende a acompanhar continuamente o longo ciclo da vida humana, não somente como elemento de ingresso e continuidade no exercício do trabalho heterônomo, mas também como condição de cidadania ampliada.
Por fim, mais duas outras novidades do trabalho. Uma delas encontra-se associada à crescente luta entre fundo público — o único que pode sustentar as novidades do trabalho na sociedade pós-industrial — e capital virtual, conforme já enunciado pelo presidente Bush no seu discurso de posse (a revolução da propriedade que altere a titularidade da riqueza no futuro).
A outra novidade refere-se à nova Divisão Internacional do Trabalho, na qual as nações portadoras do futuro e geradoras de postos de trabalho de concepção, com maior qualidade e remuneração, são aquelas que ampliam os investimentos em tecnologia e em bens e serviços de maior valor agregado. Os demais países tendem a conformar-se com as disputas pelo menor custo de produção na feira mundial do trabalho precário e de execução, protagonizando a volta ao passado, com elevadas jornadas de trabalho, reduzida remuneração e forte instabilidade contratual.
Essa situação já é real em vários países, até mesmo no Brasil. Em um mundo repleto de novidades, algumas nações voltam a expressar a velha forma de inserção periférica que submete o trabalho ao piso do porão, enquanto as elites continuam a apreciar a valorização financeira de sua riqueza. As escolhas de hoje asfaltam, inexoravelmente, o caminho de amanhã.



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