O Haiti precisa ser entendido pela América Latina

Camille Chambers, 50 anos, é professor de economia e um dos militantes do Fórum Social Mundial. Também coordena o Papda, uma entidade que atua no Haiti organizando e disseminando projetos econômicos e políticos alternativos....

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Camille Chambers, 50 anos, é professor de economia e um dos militantes do Fórum Social Mundial. Também coordena o Papda, uma entidade que atua no Haiti organizando e disseminando projetos econômicos e políticos alternativos. Nesta entrevista exclusiva concedida à Fórum ele dá uma aula de história sobre o seu país e reflete a respeito do atual momento político

Por Renato Rovai

 

O contexto histórico do Haiti
O que acontece hoje no país passa pela conquista da independência no Haiti, em 1804. Foi algo particular, fomos a única revolução vitoriosa negra e o primeiro país latino-americano a deixar de ser colônia. Isso nos deixou isolados pelos impérios, pelas potências econômicas da época, porque nos tornamos uma república independente e a favor da luta de libertação dos escravos. Isso de alguma forma também nos isolou da América Latina, um continente que ainda vivia no sistema colonial e onde a escravidão era permitida.
Desde aquela época, o Haiti de certa maneira vive isolado e as pessoas não têm uma informação correta do país, sempre o vêem como um país miserável, violento, com muitos enfrentamentos, caótico. A opinião pública mundial ou conhece muito mal ou desconhece o Haiti. Isso se deve a um serviço de desinformação da grande imprensa mundial.
Na verdade, somos o país mais tranqüilo da região. Na questão da violência urbana, por exemplo, em comparação com a Jamaica temos índices muitos mais baixos de violência. Mais baixos também do que os índices da República Dominicana e inclusive do que os dos EUA. E isso apesar de uma miséria e de uma polarização social muito grandes. Somente nos últimos anos tivemos algumas ondas de violência, mas limitadas a Porto Príncipe, que tem relação com o comércio da droga. E isso se deve ao fato de que 20% da cocaína consumida nos EUA passa pelo Haiti.
Essa violência também está relacionada ao endividamento do Estado, que tem a ver com o ajuste estrutural promovido a partir de 1985 e 1986. Tudo isso explica que hoje em dia tenhamos um contexto particular, mas que não é um contexto caótico e nem de guerra civil.

A intervenção das Nações Unidas
Infelizmente as soluções que nos oferecem para a crise que vivemos são soluções controladas pelo Império, pelos EUA. Temos uma força militar atuando em nosso país, quando nosso problema não é de caráter militar. Por isso, essa força militar não tem como enfrentar os problemas vividos por nós. Não pode apontar soluções para o problema de alfabetização, para a questão de saúde, para o déficit social do Estado. E é uma força que gasta 520 milhões de dólares ao ano em um país onde esses recursos poderiam ser muito úteis para resolver problemas sociais existentes. Nossos problemas se resolveriam com políticas sociais e não militares. Com vacinas, alfabetização e não com helicópteros e metralhadoras. Parece-me que a presença de tropas brasileiras no Haiti é uma infelicidade porque temos muita coisa em comum com o povo brasileiro, como dança, candomblé, futebol etc. Isso tudo poderia ser muito interessante para um intercâmbio produtivo, mas não se pode fazer com a presença dos militares.
O Brasil tem experiências importantes, por exemplo, na área ambiental, em produção de energias alternativas, processos educativos populares, há todo um acúmulo de experiências que poderiam ser muito úteis para acelerar o processo de recuperação do Haiti.
O que acontece no Haiti é que as potências nunca o aceitaram porque ele participou muito do processo de luta pela liberdade das colônias do continente, com aporte de armas e soldados. Nossos primeiros dirigentes tinham claro que era fundamental lutar pela libertação dos escravos em todas as partes.

Aristide e as opções políticas recentes
Em 1985, surge um movimento popular muito importante que luta por uma constituição democrática e derrota Duvalier. A partir de 1986, o jogo político muda, porque os EUA sempre intervieram antes disso para que qualquer dirigente que não fosse submisso a Washington fosse deposto. Naquele ano, houve um esforço muito grande das forças sociais para construir um projeto democrático que implica em resolver as questões sociais mais importantes do país. E essa luta pela conquista da cidadania implica em mudanças na lógica política e ao mesmo tempo faz com que os EUA e as oligarquias dominantes enxerguem isso como uma ameaça aos seus interesses estratégicos. Por isso tornou-se estratégico para eles eliminar esse movimento democrático, matá-lo. E impedir que se apresentasse no cenário político. Isso vem acontecendo de 1986 até 2006.
Entre 1986 e 1987 tivemos um ciclo de mobilizações importantes, com reivindicações sociais básicas e de uma nova constituição, uma nova ordem política que modificasse as relações entre Estado local e Estado nacional. Quando havia uma importante mobilização social por essas mudanças, a resposta das oligarquias foi dura. Em 23 de julho de 1987 mataram 139 camponeses em um só dia, numa manifestação em uma região onde havia uma organização importante. Isso foi para neutralizar o movimento social e eliminar seu potencial político. Em 1991 houve a eleição e venceu Aristide. Naquele momento ele era o representante genuíno daquele movimento. Tinha toda aquela trajetória de Teologia da Libertação, vivência nos bairros populares. O golpe de Estado contra o governo dele foi sangrento, mais de cinco mil mortos, 300 mil refugiados e desarticulação de todas as cooperativas, desaparecimento dos principais dirigentes… uma violência enorme. E apesar de tudo isso o povo resistiu. E quando os países imperialistas que controlavam os golpistas viram que não havia como derrotar a organização popular, aceitaram o retorno de Aristide, que voltou sendo trazido por tropas militares estadunidenses e do Caribe. Devolveram o governo a ele, mas impuseram um programa de ajuste estrutural que tinha por base uma liberalização financeira e comercial muito agressiva, eliminando todas as tarifas e isso, claro, teve conseqüências econômicas catastróficas, aumentando o desemprego, destruindo a agricultura campesina e aumentando a migração para as cidades. Hoje, 60% da população economicamente ativa do país está desempregada como conseqüência dessa política.
Quando as pessoas que haviam lutado por Aristide vêem que ele estava aplicando essa política econômica antipopular, há uma divisão no movimento. Um grupo considera que ele está fazendo o possível naquela conjuntura e um outro setor passa a vê-lo como traidor do movimento popular. Esta ruptura segue até hoje. E isso não se deu por acaso. Em um dos documentos do Departamento de Estado dos EUA aparece claramente como um dos objetivos da ação deles em nosso país criar uma divisão no movimento social haitiano. É difícil debater essa questão porque Aristide aplicou o liberalismo econômico, mas resistiu a alguns aspectos como a privatização da telefonia e da eletricidade. E essa resistência provocou uma ruptura com os EUA, que organizaram um boicote financeiro total ao Haiti. Isso se deu de maneira muito confusa, porém. Aristide não organizou a resistência à não-privatização e então as posições dele não ficaram claras. Ele preferiu cooptar dirigentes para ser correia de transmissão de suas políticas. Ou seja, a ação de Aristide para se manter no poder também contribuiu para destruir a organização do movimento popular no Haiti.
Podemos dividir o período de Aristide em três. A primeira fase, em 1991, quando ele era a grande liderança e sofre o golpe. O segundo, em 1994, quando reassume o poder e já volta muito influenciado pelas idéias de Washington. E o terceiro momento quando se elege em 2001 e fica até 2004, quando há novo golpe. Nesse momento, sua administração é contestada pelos EUA, que financia os opositores ao governo, o que acaba gerando a intervenção que vivemos hoje. Em 2004, havia um descontentamento popular com o governo, mas Aristide foi derrubado pela CIA, que financiou ex-militares para lutarem contra o governo.
Só que antes do golpe se concretizar, Aristide distribuiu armas a grupos populares de Porto Príncipe que estavam a seu favor, para defender o governo. E por isso hoje grupos populares têm armas pesadas em seu controle.
Hoje no Haiti existem muitas armas ilegais e muito grupos paramilitares controlados pela burguesia e pelos grupos populares que estavam a favor dele. É preciso haver um desarmamento geral, mas isso não interessa aos setores burgueses. A eles só interessa atacar os bairros populares, que, segundo eles, são onde vivem os bandidos.

As últimas eleições
Em 2006, o processo eleitoral foi muito mal-organizado. A percepção das pessoas é que era controlado desde o exterior. Um processo muito caro, custou 80 milhões de dólares. A Organização dos Estados Americanos (OEA) foi quem escolheu os postos de votação e tudo foi pensado para excluir do processo os setores populares. Para dar dois exemplos, o Haiti tem 75% de população rural, mas estruturaram todos os postos de votação na zona urbana, distantes das zonas populares. E, muito surpreendentemente, nos últimos dias da campanha se lançou candidato René Préval, que já havia sido presidente, era do grupo de Aristide e foi o sucessor do seu primeiro governo. O povo o considera como irmão dele. O lançamento da sua candidatura muda toda a correlação de forças. Os outros candidatos eram todos do sistema. Houve uma mobilização incrível a seu favor, apesar de toda a anticampanha midiática. E Préval ganhou as eleições com ampla maioria. Até porque, quando foi presidente, ele havia tentado fazer a reforma agrária e as pessoas o achavam diferente de todos os outros candidatos. Houve grande participação. Vi os camponeses caminhando de quatro a cinco horas para chegar ao posto de votação e depois ficar mais quatro a cinco horas embaixo do sol pra poder votar. Algo incrível e sem enfrentamento. Havia filas de quilômetros, com cinco mil pessoas para votar. E três dias depois, quando começaram a aparecer os resultados das eleições, a diferença era enorme, mas com o tempo foi diminuindo. E as pessoas perceberam que havia mão dos EUA ali. O povo foi às ruas e aconteceram manifestações com mais de 300 mil pessoas. Só assim se aceitou a vitória de Préval, que era contundente.
A missão da ONU diz que a organização e o sucesso das eleições se deveu a eles. Isso não é verdade. Eu, por exemplo, fui votar às 6h da manhã e já havia fila. Só quando eram 10h30 apareceu o primeiro agente da ONU. Eles não tinham dispositivos suficientes para controlar qualquer coisa que houvesse. Agora, é importante registrar que o governo do Brasil se posicionou muito claramente a favor do voto popular quando os governos dos EUA e França queriam aplicar um novo golpe, dizendo que era necessário ter um segundo turno.

O governo atual
Está difícil. Demorou muito para que Préval assumisse e isso foi um problema. Ele foi eleito em fevereiro de 2006 e só se tornou presidente em maio. Infelizmente tenho de dizer que o governo não está à altura dessa enorme mobilização que o elegeu. O mandato que o povo lhe concedeu era muito claro. Era de retomada da soberania e de participação popular nas decisões políticas. É verdade que muitas das dificuldades existem porque é um governo de coalizão. Porque Préval ganhou amplamente as eleições para presidente, mas a de parlamentares foi diferente. Como teve baixa participação de votos, muitos partidos de direita fizeram representantes. No parlamento o grupo de Prèval tem algo como 30% e tem que se aliar com outros setores. E não há sinais de que vá se buscar um novo formato de ação política, mais original e criativa, de que haverá combate à fome, ao desemprego etc, os quais poderiam ajudar a manter a mobilização por conquistas sociais. Ou seja, estamos em um momento confuso. De qualquer forma ainda é muito cedo para uma avaliação definitiva.



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1 comment

  1. Hudson Lacerda Responder

    Que ironia: o texto explicativo já aparecia aí em cima, só visível para quem checou os comentários…


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