O jogo sujo da CIA

A temida CIA, a agência de espionagem e sabotagem dos EUA, acaba de divulgar vários documentos até então classificados como top secret. São 11 mil páginas que revelam as ações terroristas do imperialismo ianque...

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A temida CIA, a agência de espionagem e sabotagem dos EUA, acaba de divulgar vários documentos até então classificados como top secret. São 11 mil páginas que revelam as ações terroristas do imperialismo ianque em várias partes do mundo entre os anos 1950 e 1970.

Por Altamiro Borges

 

A temida CIA, a agência de espionagem e sabotagem dos EUA, acaba de divulgar vários documentos até então classificados como top secret. São 11 mil páginas que revelam as ações terroristas do imperialismo ianque em várias partes do mundo entre os anos 1950 e 1970. A desclassificação periódica destes relatórios é uma exigência legal e não significa que a CIA tenha abandonado seus métodos espúrios de interferência em nações soberanas. Muito pelo contrário. Em recente passeata da direita venezuelana contra o fim da concessão da RCTV, algumas fotos flagraram a presença do agente da CIA responsável pela América Latina. Também surgiram denúncias de que alguns “jornalistas” são subsidiados pelo governo dos EUA.
Os documentos agora tornados públicos provam que esta central de “inteligência” sempre teve papel ativo na América Latina. No caso do Brasil, tratado como “o maior alvo do comunismo” na região, ela ajudou a orquestrar o golpe militar de 1964. Um deles afirma que o presidente João Goulart é “um oportunista que ascendeu ao governo com o apoio da esquerda”, taxa Leonel Brizola de “líder demagogo antiamericano” e acusa o governador Miguel Arraes de ser “um pró-comunista”. O texto tenta criar o clima de pânico na burguesia ao falar da “crescente influência” do Partido Comunista. Outro documento, intitulado “A Igreja engajada e a mudança na América Latina”, critica o setor progressista do clero e ataca dom Hélder Câmara, cujo “forte é fazer publicidade e exigir reformas, sem oferecer soluções práticas aos problemas que ele cria”.
Na época, o auge da chamada Guerra Fria, a maior preocupação dos EUA e de sua agência era com o aumento da influência da Revolução Cubana. Os documentos inclusive confirmam que a CIA se aliou à máfia para tentar envenenar o líder Fidel Castro – o que sempre foi negado pelas autoridades ianques e pela mídia servil. Um deles dá detalhes da contratação do ex-agente Robert Maheu para realizar “uma ação do tipo de gângsteres”, que envolveu vários chefes mafiosos, como Salvatore “Momo” Giancana, o sucessor de Al Capone no controle do crime. A CIA disponibilizou US$ 150 mil e forneceu seis pílulas “de alto poder letal” para assassinar o dirigente cubano. Allen Dulles, o chefão da agência, coordenou a operação terrorista pessoalmente, mas ela foi desativada devido a um incidente passional de Giancana.
Os documentos agora desclassificados compõem os arquivos chamados de “jóias de família”. O apelido designa todas as operações ilegais e que causam constrangimento ao governo dos EUA. Há relatos sobre os planos da CIA para matar o presidente chileno Salvador Allende, inclusive com o uso de “empresa de fachada” para transportar armas, e outras operações no continente, visando a desestabilizar governos e destruir movimentos contrários ao domínio imperial na região. “Os EUA não podiam permitir uma outra Cuba no continente. Foi por isso que Kennedy, cuja diretriz da política para a América Latina era apoiar governos reformistas, apoiou ditadores”, explica Mary Junqueira, professora de história da USP.
Se estas barbaridades ocorreram no passado, nada indica que tenham sido descartadas no presente – ainda mais quando o ocupante da Casa Branca é um terrorista e torturador confesso, George W. Bush; e a América Latina vive um processo inédito de ebulição, com a vitória de vários governos progressistas. O jogo sujo da CIA, que só poderá ser conhecido oficialmente com a desclassificação de novos documentos daqui a algumas décadas, prossegue. Os EUA estão temerosos com as mudanças no tabuleiro político na região, não confiam nos novos governantes – nem mesmo nos mais pragmáticos e conciliadores –, não toleram o avanço dos movimentos sociais e estão cientes dos riscos da integração regional. A CIA continua na ativa.



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