O melhor das comunidades

Foi lançada a Rede de Comunidades Saudáveis do Estado do Rio de Janeiro, que reúne 60 comunidades de baixa rende e promove ações de saúde e solidariedade Por Karine Mueller  ...

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Foi lançada a Rede de Comunidades Saudáveis do Estado do Rio de Janeiro, que reúne 60 comunidades de baixa rende e promove ações de saúde e solidariedade

Por Karine Mueller

 

Quando chegou em Vila Iêda II, Campo Grande, zona Oeste do Rio de Janeiro, em 1996, o aposentado Manoel Miguel Pereira, de 72 anos, encontrou uma comunidade empobrecida, que não possuía água, coleta de lixo, saneamento básico e ruas calçadas. “As pessoas calçavam sacolas de supermercado nos pés por causa da lama”, lembra. Desde que foi iniciado o projeto Vamos caminhar juntos, o local onde mora conseguiu substanciais melhorias nas áreas de saneamento básico, coleta de lixo, convênio com hospital público, luz, água e asfalto. As ações do projeto ainda renderam o título de comunidade mais limpa do município, dado pela prefeitura do Rio de Janeiro, em 2001. Hoje, o sr. Manoel Miguel afirma com orgulho que sua comunidade é saudável. Ele não restringe saúde como ausência de doenças, mas como qualidade de vida.
Entre as atividades regulares promovidas na Vila Iêda para manter o ambiente saudável estão o camelô educativo, no qual as pessoas recebem instruções para o uso da camisinha e informações sobre doenças como Aids e tuberculose; a biblioteca comunitária, a distribuição de preservativos, a alfabetização de crianças e adultos e a lavagem das calçadas e ruas, feita por donas de casa. “O índice de criminalidade na Vila é zero”, informa Manoel Miguel, que participa ativamente do projeto. “Não vemos lixo nas ruas e me sinto realizado quando vejo essas mulheres cuidando de nossa comunidade”, diz emocionado.
Isso é uma amostra do amplo arco de ações que podem ser desenvolvidos pela Rede de Comunidades Saudáveis do Estado do Rio de Janeiro, movimento do qual a comunidade faz parte e que foi lançado no último dia 10 de maio pelo Centro de Promoção da Saúde (Cedaps). A Rede reúne representantes de aproximadamente 60 comunidades, atingindo diretamente 115 mil pessoas. De acordo com a coordenadora geral da instituição, Wanda Lúcia Guimarães, a iniciativa foi inspirada em um programa global de comunidades/cidades saudáveis da Organização Mundial da Saúde, para fortalecer e dar mais visibilidade às ações positivas dos moradores de locais de baixa renda. Segundo ela, comunidades saudáveis são aquelas onde os moradores buscam melhorar seu ambiente físico, vida social, cultural e econômica. “Os moradores assumem um papel ativo na solução de seus problemas, conquistando direitos e bens sociais”, destaca. “Nós acreditamos que um movimento organizado, de caráter coletivo, participativo e construtivo, pode representar um marco na melhoria das condições de vida desses moradores”, completa Wanda.
Para Manoel Miguel, os encontros e a troca de experiências promovidas pela Rede são fundamentais na responsabilidade de trazer para a comunidade mais conhecimento no campo da saúde. “Entendo saúde como um pacote de tudo o que se pode fazer por você mesmo e pelas pessoas à sua volta”, esclarece. “A Rede de Comunidades Saudáveis para mim é uma pescaria. Pescávamos um peixe pequeno, quando batemos no casco de um navio e nos demos conta que estávamos em alto-mar. Agora buscamos um peixe maior.”

A musa da prevenção
Por onde passa na comunidade de Rio das Pedras, subúrbio do Rio de Janeiro, a educadora social e radialista, Cláudia Moraes, 35, atrai a atenção de todos. Kakau, como é conhecida, apresenta um programa diário na rádio comunitária do bairro, na qual levanta questões que vão desde o uso da camisinha nos bailes funk e outras mais abrangentes de saúde, política e violência contra a mulher, até questões jurídicas. Sem papas na língua, Kakau não mede esforços para atender aos seus ouvintes nas suas principais queixas, acumulando audiência e popularidade. Quando foi convidada para fazer um programa de rádio, Kakau não imaginava do que seria capaz. “Morria de medo, ficava nervosa, mas mantive minha responsabilidade e fui transmitindo cada vez mais informações aos ouvintes”, conta ela.
Freqüentadora de bailes funk, a radialista diz que,quando chegou na comunidade há oito anos, tinha preconceito contra esse tipo de entretenimento. Aos poucos ela foi introduzindo seu trabalho de prevenção a DST e Aids, através da distribuição de preservativos ao público do baile. “Fui percebendo que aquilo representava a cultura da comunidade e seria um dos melhores meios para desenvolver meu trabalho de prevenção”, esclarece. Compositora de rap e funk, Kakau faz paródias de músicas populares no meio para levar a mensagem da importância do uso da camisinha aos mais jovens. Além disso, hoje ela é constantemente convidada a participar de bailes em outros lugares, dar palestras e distribuir preservativos. Otimista, Kakau diz que, apesar das melhoras, ainda há muita coisa a ser feita por meio da Rede de Comunidades Saudáveis. Atualmente, a comunidade de 80 mil habitantes sofre com a falta de saneamento básico. “A Rede já vem colaborando mediante a informação e orientação desenvolvidas durante os encontros, que é justamente o que transmito aos meus ouvintes”, comenta. “Acredito que todos são capazes de ter idéias, articular, mas às vezes custam a descobrir seu potencial de transformação”, reflete.
Por mês, cerca de 60 pessoas procuram Kakau para resolver os seus problemas. E não somente no estúdio da rádio. Elas costumam ir pessoalmente na sua casa. “Fico à disposição durante o dia todo e à noite. Minha filha de 12 anos até reclama a minha ausência, mas minha casa se tornou referência no bairro”, destaca entusiasmada. “Eles vão pedir emprego, querem saber como registrar seus filhos, tirar documentos etc.”, relata. “Aqui na comunidade reciclei meus conceitos e aprendi muito. Fico realizada em saber que outras pessoas estão seguindo o mesmo caminho”, alegra-se.
Para Kakau, ser saudável significa ter saúde, trabalho, dignidade e respeito. “Rio das Pedras ainda não é uma comunidade saudável, porque o primeiro passo seria o saneamento básico. Mas acredito que, com o meu trabalho e o das pessoas que vivem aqui, estamos nos fortalecendo e caminhando para isso”, finaliza.

A mãe da comunidade
Um dos temas que impulsiona o trabalho da Rede de Comunidades Saudáveis do Estado do RJ é a solidariedade. E essa palavra a comerciante Tânia Alexandre da Silva, de 44 anos, conhece bem. A comunidade onde vive, desde 1996, o Conjunto Habitacional do Campo do América, no bairro de Edson Passos em Mesquita, município da baixada fluminense, é uma das mais carentes do estado. Além da falta de saneamento básico, seus quase 3 mil habitantes sofrem com a falta de coleta de lixo, asfalto e com a violência no local. Mas Tânia acredita que esse cenário pode mudar. Ela promove ações que vão de encontro aos princípios da Rede desde quando fundou a Amepa (Associação de Mulheres de Edson Passos), em 1999. Através deste trabalho, Tânia trouxe para a comunidade desde cursos de capacitação técnica em diversas áreas como corte e costura, carpintaria e mecânica até a alfabetização de adultos. “Antes de morar nessa comunidade, eu assistia as notícias na televisão sobre doenças, fome e adolescentes grávidas, e achava que tudo era mentira para ganhar audiência. Quando cheguei aqui me deparei com tudo isso na realidade”, conta Tânia. “Achei que estava na hora de alguém fazer alguma coisa e iniciei um trabalho de formiguinha, mostrando a cada morador que a gente podia superar as dificuldades”, explica. Sua mais recente vitória foi a implantação do primeiro posto de saúde no local. Antes, ela havia levado aos moradores o programa de médico das famílias. “Foi um grande passo na integração da prefeitura com a comunidade”, comemora.
Por seu empenho em ajudar as pessoas, Tânia é considerada a “mãe” da comunidade. Eles recorrem a ela para pedir desde medicamentos, exames e preservativos até alimentos e roupas. “Aqui não tenho horário. Minha vida acaba sendo a própria comunidade”, afirma. Sua meta, por intermédio da Rede, é conseguir levar o saneamento básico para a localidade. “Nossas ruas estão todas entupidas e, quando chove, os moradores são surpreendidos com o esgoto dentro das suas casas”, conta a moradora. Assim como os outros participantes do movimento, Tânia espera que a Rede torne seu trabalho mais visível e reconhecido. “A Rede é a grande parceira das comunidades que dela fazem parte”, pontua. “Além de nos beneficiar com mais projetos sociais, garantimos mais respeito e nos tornamos menos invisíveis”, conclui.
Além do Cedaps, a Rede conta com o apoio de outras instituições ligadas à área da saúde, como a Dreyfus Health Foundation, a Ford Foundation e a Organização Pan-Americana de Saúde. As bases do movimento estão na Declaração de Princípios por Comunidades Saudáveis no RJ.

Para saber mais:
www.cedaps.org.br
www.opas.org.br



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