O novo e velho Chico

A primeira de uma série de reportagens sobre o São Francisco traz um retrato das mudanças sofridas pelo rio e o dia-a-dia das pessoas que dependem dele para sobreviver Por  ...

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A primeira de uma série de reportagens sobre o São Francisco traz um retrato das mudanças sofridas pelo rio e o dia-a-dia das pessoas que dependem dele para sobreviver

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No encontro das enlameadas águas do São Francisco com o seu último afluente perene, o rio Grande, fica a cidade de Barra, BA, uma das que mantém a tradição beiradeira de produção de cerâmica a partir do barro das margens. Em uma empoeirada rua de terra, por uma pequena porta é possível ver um muro de reboco de barro onde algumas mulheres se revezam em três mesas na formação do bojo, raspagem e pintura de peças. Perto do forno, alguns artefatos como potes, panelas e moringas descansam sob o sol forte antes do acabamento.

Uma das mais antigas artesãs é dona Eunice Batista Matos, de 64 anos, solteira e sem filhos, mas orgulhosa de ter criado um bocado de gente. Com as mãos sujas de argila, ela pouco sabia sobre o projeto de transposição, mas avisa não gostar da idéia:

– Não sei… Já tá sem água e tirar mais não pode… Será que é agora que ele seca? – indaga, tirando os olhos, pela primeira vez na conversa, da moringa que esculpe na forma de um corpo de moça. Depois volta o olhar para as companheiras, depois para os visitantes:

– Tem a história de que o rio vai secar, sabe?

– História de quem? – intromete-se o repórter.

– História que os antigos contavam, como uma previsão… uma profecia, sem dia nem hora certa. Mais uma pausa: – Olha, vai ver que é dessa vez…

Suas companheiras de trabalho acenam com a cabeça. Demonstram concordar com a possibilidade. O Velho Chico, como se referem os barranqueiros, vem sofrendo há muito tempo um duro processo de degradação e alterações em sua dinâmica natural, o que transforma qualquer idéia de nova intervenção em temor.

A disputa que ocorre nos planos político, econômico e técnico domina o debate sobre o projeto do governo federal de Integração de Bacias do São Francisco e do Nordeste Setentrional, cujas obras estão previstas para ter início ainda no primeiro semestre de 2005. O aspecto humano acaba sendo escondido por números acerca da grande obra de infra-estrutura do governo Lula, voltada para a questão da água no semi-árido brasileiro.

A degradação pela qual passa o rio é um processo contínuo que mostra os seus efeitos por todo o percurso. No distrito de Barra do Guaicuí, no município de Vargem de Palma, MG, ao norte de Pirapora, o clima úmido e as chuvas de dezembro tornavam as águas ainda mais barrentas no encontro do São Francisco com outro rio, o das Velhas, que passa por Belo Horizonte. Quem conduzia o barco com um barulhento motor a diesel de 15 hps era José Gomes Miranda, o Zé Garrafa, de 44 anos, nascido em Bom Jesus da Lapa, BA, mas mineiro “adotivo” desde 1969, quando a família subiu o rio em um dos barcos a vapor que eram comuns à época, as chamadas gaiolas. Negro, capoeirista, pescador e pedreiro, confidencia ser pai de 14 filhos com quatro mulheres diferentes na cidade. Ao aproximar-se do maior afluente da bacia, mostra a sujeira que ele traz. São garrafas pet flutuando e algum mau cheiro. Além do esgoto das cidades que crescem sem planejamento nem infra-estrutura, há o despejo de dejetos industriais, agrícolas e da mineração.

Nas margens, a vegetação não-nativa não é suficiente para evitar a erosão. A situação reproduz-se por toda a bacia, incluindo os afluentes. Técnicos da Articulação do Semi-Árido (ASA) calculam que exista apenas 5% de matas ciliares originais. Todo o restante foi queimado ou devastado, seja para ocupação agrícola ou para uso da madeira. O desbarrancamento por todo o rio provoca o assoreamento da calha com a formação de bancos de areia cada vez maiores, tornando a perícia do piloto essencial, ainda que a embarcação seja de pequeno porte.

– Pra descer o rio pra outras cidades, se não conhecer bem, você prega o barco no fundo. Conheço cada cidade, cada curva do rio, daqui a Juazeiro, BA – vangloria-se Zé Garrafa.

Tecnicamente, o rio tem dois trechos navegáveis, um entre Pirapora, MG, e Juazeiro e outro entre Piranhas, AL, e a foz em Brejo Grande, SE. O primeiro é o mais longo, embora hoje poucos barcos se arrisquem a ir além de Januária, MG, já que o assoreamento é especialmente intenso no trecho mineiro.

Sem nêgo d’água, sem peixe Além da degradação do rio, há algumas outras intervenções que determinaram alterações profundas em seu curso. A construção de cada uma das oito barragens provocou mudanças no ritmo das cheias, especialmente nos casos dos reservatórios de Três Marias, MG, em 1969, e Sobradinho, BA, em 1979.

Com a vazão controlada para a geração de 95% da eletricidade consumida no Nordeste, houve apenas uma grande cheia nas cidades ribeirinhas e diminuiu muito a cultura nas vazantes. O barqueiro Agenor Soares da Silva Filho, de 32 anos, nascido em Brejo Grande, é morador de Piaçabuçu, AL. Ele circula entre as últimas cidades de cada lado do rio até a foz, transportando a produção da região e turistas, e lembra que seu pai era um desses agricultores que aproveitava as cheias para plantar arroz, prática comum na região.

Ele mesmo é quem aponta uma segunda conseqüência dessa transformação, quando seu relato parece tomar contornos de história de pescador.

– Quando baixavam as águas da cheia, não era raro encontrar um surubim encalhado no arrozal.

– No meio da plantação?

– Pois é. E hoje pergunte a qualquer pescador: ele não pega mais surubim. Acabou-se.

A redução das cheias diminuiu a troca de água entre o rio e as lagoas adjacentes que serviam de berçário de peixes. Além disso, algumas lagoas tornaram-se poluídas sem a renovação da água, transformando-se em fonte de incômodo e transmissão de doenças. Resultado: muitas foram sendo aterradas. Além da alteração da vazão do rio, a pesca predatória com redes de malha fina compromete ainda mais a sobrevivência dos cardumes, especialmente quando feita nos períodos de piracema.

Longe da foz, 60 quilômetros depois da barragem de Sobradinho, o maior lago artificial do mundo, está Juazeiro. Descalço, sem camisa, cabeça raspada, Erenildo de Sousa, o Leleco, lembra do tempo em que era comum ver surubins e dourados, os maiores peixes do rio, fisgados. Hoje, aos 44 anos, quando sai em seu “barco a pano”, com a vela vermelha hasteada para sete ou oito dias de pescaria, nem sempre garante o seu sustento.

– Desde que construíram a barragem o peixe acabou, ficou ruim demais. Às vezes a gente pesca dois quilos, às vezes quatro. Quando dá mais, a gente separa um para comer e três pra vender. Mas tem vez que não dá nada. Aí é difícil.
Leleco tem um casal de filhos com uma moça com quem viveu amigado, mas se separaram e ele vive apenas com um dos filhos. Contador de causos, não é preciso insistir muito para que recorde os relatos que ouvia quando menino a respeito do Nêgo D’Água, um dos seres legendários do rio, um dos poucos traços culturais comuns ao longo de todo São Francisco. Com mais ou menos 1,20 m, ele tem pele escura e cabeça raspada. Vive pregando peças nos pescadores, mas também ajuda a quem lhe traz fumo de corda e não mexe com ele. Depois de uma rodada cheia de gestos e interpretação de causos do cumpadre – que é como o povo d’água gosta de ser chamado – a pergunta:

– Tem Nêgo D’Água por aqui? Você já viu algum?

– Já, já vi. Mas hoje tem mais não, é muito pouca água. Não tem peixe, não tem Nêgo D’Água. Pra ele aparecer, precisa ter bem mais água…

Água pra plantar O projeto Nilo Coelho foi o primeiro perímetro de irrigação realizado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), em 1983, quando a área de atuação da estatal restringia-se ao Velho Chico. Depois dele foram feitos mais 24 projetos que funcionam de maneira semelhante. A água é coletada e elevada por bombas em adutoras até algum morro presente na topografia local. A partir dali, por canais ou adutoras, ela segue por gravidade, percorrendo estações secundárias de pressurização, que garantem pontos de água em cada um dos lotes empresariais e individuais. Cada proprietário paga pela água por meio de uma divisão organizada de modo análogo a um condomínio, a partir do tipo e tamanho da propriedade e do consumo. A maior parte desses projetos acaba dedicada à fruticultura.

A região Nordeste oferece cenário favorável para esse tipo de cultura, já que tem em média pouco mais de 200 dias por ano com sol e calor intensos. Inspecionando a colheita para realizar a entrega do dia no mercado de Petrolina, Nilberto do Nascimento Silva, de 38 anos, fala animadamente a respeito da sua plantação. Ele possui um lote de 7,5 hectares, onde planta goiaba, atemóia, manga e uva. É um dos poucos que, em janeiro, estava com videiras repletas de uva itália, de bagos grandes e verdes. Quando o projeto foi implantado, sua família tinha terras que foram desapropriadas para o loteamento. Uma alternativa oferecida a quem tinha direito à indenização era permutar as terras por áreas irrigadas, o que garantiu lotes para o pai e o tio. Quando Nilberto completou a maioridade, não perdeu tempo e foi tratar de também garantir o seu pedaço. Por ter crescido na terra sem irrigação e sustentar os dois filhos com a água colhida no rio, a idéia de levar água do São Francisco para regiões secas lhe parece boa.

– Se outros lugares que hoje estão secos tiverem água como aqui, é bom. Se tiver água pra todo mundo.

É essa dúvida que atormenta os índios Truká, cuja reserva está localizada em um arquipélago na altura de Cabrobó, de onde sai o eixo norte dos canais da transposição rumo ao Ceará. Ailton Santos, cacique e porta-voz, acredita que o braço pernambucano do rio na região não irá resistir, caso o projeto de Integração de Bacias do governo federal seja levado adiante. Os indígenas plantam utilizando a água de bombas herdadas dos fazendeiros que possuíam arrozais na ilha antes que a reserva fosse estabelecida. Uma vez em posse da tribo, a fórmula foi mantida e o cultivo responde por 85% do total de arroz produzido no Estado.

A conversa acontece na entrada da reserva, sobre uma ponte que liga a ilha de Assunção, a maior do arquipélago, e o lado pernambucano do rio. Desconfiado, o cacique mantém distância de um metro e meio durante toda a conversa e, mesmo de saída para a cidade quando abordado, não passa do portal de entrada da reserva. Fala com gestos amplos e num tom de voz alto, como se falasse em público, sem disfarçar o descontentamento com o projeto:

– Não queremos nada em troca do rio São Francisco. Queremos ele do jeito que está –, disse, para retomar depois de uma pausa. – Ou revitalizado. Aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô, a trabalhar a terra, a plantar e a colher. Como vou ensinar meus filhos se não houver o rio? A terra é nossa mãe. O rio, hoje, é nosso pai. Se o rio morrer, nossa mãe vai ficar viúva, vai sofrer com isso.

Com a cabeça coberta com um lenço escondendo os cabelos grisalhos, Josefa Maria da Silva, de 58 anos, é mãe de quatro filhos, e uma de suas grandes paixões é o trabalho com a terra. Nascida e criada em Ibimirim, sertão de Pernambuco, há 15 anos se viu forçada a abandonar o seu pedaço de chão por conta da forte seca que atingiu a região em 1989. Hoje vive do comércio no mercado de Petrolina e acredita que a transposição pode ajudar a sua terra natal.

– A terra era boa, mas deu a seca e não tinha como plantar. Largamos as terras e voltamos para a cidade. Se levar água para o sertão é bom. Quando o açude seca, o pessoal fica sem água.

Se o sertão espera por água, há quem viva perto do São Francisco e mesmo assim não tem acesso a ela. Angélica Batista dos Santos, de 64 anos, e Edvaldo Pereira dos Santos, de 81, explicam que essa é a realidade de Geléia, distrito da cidade de Barra. Ela veio da vizinha Xique-Xique e ele fugiu da seca de 1932 do sertão do Maranhão. Vivem a 50 metros da margem do rio, aos pés de uma duna de areia fina, com quatro dos nove filhos do casal, em uma casa de adobe – tijolos de barro e palha secados ao sol.

Eles mantêm pasto na vazante, alugado para os vizinhos que têm animais, para juntar algum dinheiro. Além disso, seu Edvaldo planta “a pó” (sem irrigação) a uma légua dali.

– Ano passado choveu um bocado e deu milho, mandioca, melancia. Neste ano, plantei no seco. Choveu um pouco em dezembro e nasceu, mas não veio mais água e se perdeu tudo.

– Se chove, dá, se não, a gente se lasca – sentencia dona Angelita, com uma incompreensível ponta de sorriso.

Navegar é preciso O primeiro registro de navegação no rio São Francisco data de 4 de outubro de 1501, dia do santo dono do nome do rio. A façanha foi realizada por uma expedição de caravelas que contava com a presença de Américo Vespúcio. Desde o Segundo Império até meados do séc. XX o rio serviu de via de migração e cargas.

Uma característica dos barcos que percorriam o rio eram figuras híbridas de animais com cara de cavalo, cabelo de corda e olhos de gente levados na proa. As carrancas não são mais vistas sobre as águas, mas como peça de decoração em um modelo diferente do que circulava, com feições vampirescas e assustadoras. A identificação é tão grande que as carrancas estão nas logomarcas de duas empresas estatais, a Codevasf e a Companhia de Navegação do São Francisco (Franave).

Por 110 anos, a partir de 1871, os navios a vapor, com suas fornalhas abastecidas a lenha, ditaram a rotina das cidades barranqueiras. Neles, migrantes nordestinos rumaram em direção ao Sudeste do país, antes da consolidação do modelo rodoviário na década de 1960. Esse fluxo produziu importantes influências nas cidades ribeirinhas de Minas Gerais, introduzindo ali um cadinho de cultura nordestina.

Eles não circulam mais em parte alguma do mundo, à exceção de um, na mineira Pirapora. É o Benjamim Guimarães, restaurado, que percorre um curto trajeto de dois quilômetros, exclusivamente com fins turísticos.

anselmo@revistaforum.com.br



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