"O país está vivendo um estado de sítio às avessas"

Durante a uma hora e meia em que falou, o ex-ministro fez críticas diretas e indiretas a membros do PT e do governo e foi muito duro com a oposição. “Recentemente o PSDB fez...

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Durante a uma hora e meia em que falou, o ex-ministro fez críticas diretas e indiretas a membros do PT e do governo e foi muito duro com a oposição. “Recentemente o PSDB fez uma convenção. Não tem uma idéia para o Brasil, uma proposta, e a mídia tratou como se fosse um grande fato político. Qual a idéia dele pro Brasil? Tirar o Lula.” Dirceu faz também algumas revelações. “Falei pro presidente, três vezes no primeiro e no segundo semestre de 2004, pedi conversa com ele com o testemunho do Gilberto Carvalho. ‘Se o senhor continuar com minoria no Senado e na Câmara, vão fazer uma CPI, qualquer CPI com o objetivo de desestabilizar o governo, desmoralizar e o tema geralmente é corrupção.‘

Por Renato Rovai, Frédi Vasconcelos, Glauco Faria e Eduardo Maretti

 

Fórum – A esquerda perdeu a vitalidade?

A vitória do Lula cria uma nova situação para a esquerda. Pessoas tanto no PT como fora não souberam compreender isso. Isso não significa não fazer luta, não pressionar, não fazer greve, não fazer ocupação, não combater as políticas de que se discorda, não estou falando isso, mas depois da experiência do Allende, do Jango, dos sandinistas, inclusive na Europa, já temos experiência suficiente pra saber o que significa a frase que um manifestante chileno exibia em um cartaz: “é um governo de merda, mas é o meu governo”. Ou seja, primeiro, vamos tentar o governo; segundo, vamos disputar o governo internamente; terceiro, vamos mobilizar a sociedade contra as políticas que consideramos conservadoras; quarto, vamos criar alternativas para o governo avançar. Faltou da nossa parte – é um dos cinco, seis grandes erros que costumo apontar – mais empenho nesse diálogo e nessa relação. Na verdade, nunca ficou muito claro que a gente fazia isso no governo e o partido acabou não fazendo também. E faltou também da parte dos movimentos buscar mais os governos.

Fórum – O senhor não acha que se tivesse ficado na presidência do partido e articulado essa relação com movimentos sociais e a sociedade civil, o PT e o governo não ganhariam mais? E o José Genoino poderia ter disputado o parlamento, por exemplo, não teria sido melhor?

Talvez sim. Se eu tivesse ficado no partido e o Genoino, em vez de ser candidato a governador, fosse a deputado e se tornasse presidente da Câmara, talvez o governo tivesse mais condições… Mas eu queria governar. Passei quarenta anos lutando pra depois não ir para o governo? A coisa mais certa que fiz foi ir para o governo e a coisa mais certa que fiz foi sair do governo, embora devesse ter saído antes, no fim de 2004 e ou em março, abril de 2005.

Fórum – Se o senhor estivesse na presidência do partido, não haveria uma relação hierárquica com a presidência da República, haveria?

Do jeito que funcionam o governo e as relações políticas no país, não poderia dizer isso. Acho que se criaria uma situação de impasse e rompimento. Vamos supor que eu tivesse ficado na presidência do PT, não sei se isso daria certo porque o governo tem muitos limites e só se compreende isso lá dentro. Nós tínhamos uma idéia de promover um ajuste fiscal e monetário, depois, uma transição e em seguida um projeto de desenvolvimento. De certa forma, ficamos no ajuste fiscal e monetário e iniciamos um processo de transição, criando alguma base para um projeto de desenvolvimento. Mas tanto esse processo quanto a transição foram abortados em determinado momento, o que, na minha opinião, eram decisões que poderiam ser tomadas em outra direção. Quando se decide reduzir a banda de inflação, não diminuir a TJLP e não abaixar os juros e aumentar o superávit, isso significa uma inflexão definitiva para outra política.
Com a MP 232, há um aprofundamento disso. Ela é feita depois que nós conseguimos, com a decisão do presidente de aumentar o salário mínimo, atualizar a tabela do imposto de renda, aumentar os recursos para saneamento e educação, para a agricultura familiar e infra-estrutura em geral, essas medidas já apontavam para a retomada da transição e de um projeto de desenvolvimento. Criaram-se ali dois caminhos. Quando a opção do presidente é clara em relação ao caminho que o ministro Palocci sempre defendeu, eu devia ter saído. Perto do final de 2004 eu devia ter saído. Não só por isso, mas também pela questão da reforma política, reforma ministerial, o papel do partido…

Fórum – O senhor não caiu (do governo) também por uma questão de apetite pelo poder? Acusam o senhor de stalinista, concentrador de poder.

Isso não tem nada a ver. Nunca fui stalinista, é um mito que criaram. Como a Folha queria dizer que eu era o “sombra” no começo do governo. Como sou o “sombra”? Fui eleito deputado estadual, federal três vezes, candidato a governador, presidente do PT três vezes – uma vez por eleição direta –, fui eleito presidente de centro acadêmico na rua, com bomba de gás lacrimogênio, cavalaria. Fui presidente da UEE com repressão em todas as escolas. Sempre tive presença na vida pública do país.
Clandestino? Uma bobagem, milhares de pessoas viveram clandestinas no país e dão à minha clandestinidade uma importância que ela não tem. Vivi no Paraná cinco anos, e daí? Era clandestino, mas era uma pessoa pública. Toda cidade me conhecia, nunca fui “sombra” de ninguém, nem do Lula eu sou. O país sabe que minha relação com o Lula é de lealdade, mas de total autonomia e independência. Aliás, o Lula, e isso é uma qualidade dele, me delegou autoridade na presidência do PT e nunca interferiu na minha presidência – até em demasia. E repeti isso com o Genoino. Considero que foi um acerto no sentido de fortalecê-lo, mas foi um erro de ter saído do partido. Nós abandonamos o enfrentamento. Quando digo “nós”, é relativo a mim porque é o que sempre fiz e vários setores do partido e do governo puxaram minha orelha por isso, enfrentar o PSDB, enfrentar o debate, não levar desaforo pra casa, não deixar nada sem resposta. Se você observar os 30 meses que fiquei no governo, enfrentei o debate político, a questão da mobilização e os grandes temas que estavam em discussão no governo. Eu não me omiti. Mas não foi a postura geral nossa.

(A íntegra da entrevista na edição 33 da revista Fórum)



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