O poeta do encontro

Há 25 anos, Vinicius partia deixando aqui não apenas sua fina obra mas incontáveis amigos, parceiros e paixões

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Há 25 anos, Vinicius partia deixando aqui não apenas sua fina obra mas incontáveis amigos, parceiros e paixões

Por Ricardo Santhiago

Quando Vinícius mostrou a letra que havia feita para a melodia da canção que viria a ser “Regra Três”, Toquinho torceu o nariz e disse que não havia gostado, pedindo para que o amigo tentasse uma melhor. O poetinha se enfureceu com a opinião do parceiro, mas contornou a situação, fazendo uma outra versão, se inspirando no amigo. “Tantas você fez que ela cansou porque você, rapaz, abusou da regra três…” uma clara alusão à vida amorosa de Toquinho, com uma recomendação expressa de que o violonista deixasse de ser mulherengo. Agora, não havia como condenar a bela e irônica poesia de Vinicius e restou a Toquinho aceitar, mas não sem deixar de lembrar que o “velho sarará” também era um conquistador incansável, segundo ele, “um homem de uma mulher só… a cada dois meses”.

Esse episódio mostra um pouco daquele que se tornou um dos poetas brasileiros mais populares entre todas as faixas etárias e classe sociais. Em vida, não lhe faltaram funções: foi poeta, escritor, compositor, letrista, intérprete, jornalista, crítico, advogado, diplomata. Apaixonado pelo Rio de Janeiro, pelo mar, pelas mulheres. “O único de nós que teve a vida de poeta”, segundo Carlos Drummond de Andrade. Nascido Marcus Vinicius da Cruz Melo Moraes, logo ficou conhecido apenas como Vinicius de Moraes. Há 25 anos – que se completam no próximo dia 9 de julho – o homem que achava que “bem pior que a morte / é deixar só o amor” partiu. Em uma manhã de 1980, morreu em sua casa na Gávea, de edema pulmonar. Estava em companhia de Toquinho e de Gilda Mattoso, sua última mulher, que viram interromper-se, na banheira, uma trajetória única.

(Ricardo Alfieri/Wikimedia Commons)

De acordo com amigos e parentes próximos, o poeta transitava com naturalidade por vários universos, zelando sempre pelo bom humor e a espontaneidade. “Ele era muito rigoroso com os valores da integridade, mas de modo nenhum vivia rigorosamente, muito pelo contrário”, confirma Luciana de Moraes, filha, que hoje cuida de seu vasto espólio. Formado em Letras e Direito, o poetinha trabalhou na Censura Cinematográfica do governo Vargas como representante do Ministério da Educação, e depois de publicar cinco livros, ingressou em 1943 na carreira diplomática, por meio de concurso público. Seu primeiro cargo chegou três anos depois: foi vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, onde ficou por quase cinco anos. Na ditadura militar, foi perseguido pelo presidente Costa e Silva – era, entre outras coisas, acusado de despachar de cuecas na própria casa – e exonerado compulsoriamente do Itamaraty.

Durante todo esse período, escreveu boa parte das poesias e canções que o consagraram. Ainda nessa época, flertou com o jornalismo e chegou a lançar autores como Pedro Nava e Lúcio Rangel no “Suplemento Literário” de “O Jornal”, que dirigiu. Além da imprensa, outra de suas paixões que mereceram muitas linhas do poetinha foi o cinema. Escreveu artigos, crônicas e críticas sobre cinema para diversos veículos e chegou até mesmo a estudar mais a fundo a sétima arte com grandes personalidades hollywoodianas, em Los Angeles, com Orson Welles e Gregg Toland.

Na década seguinte, de volta ao Brasil, passou a trabalhar no lendário “Última Hora”, diário comandado por Samuel Wainer. Com a credencial do jornal, cobriu o festival de Punta Del Leste e, em seguida, foi para a Europa estudar a organização dos eventos de cinema. Mais tarde, trabalharia para o produtor Sasha Gordine no roteiro do filme “Orfeu Negro”.

A essa altura, Vinícius deixa um pouco de lado o cinema e sua relação com a música vai-se estreitando. Tendo composto algumas canções com os irmãos Paulo e Haroldo Tapajoz, na década de 20, até então não tinha conseguido fazer sucesso, o que viria a mudar em 1953, com uma parceria com outro compositor e jornalista, Antonio Maria. Para aumentar a chance de repercussão, os dois fizeram um trato: cada um faria um samba sozinho e daria parceria ao outro. Vinícius compôs “Quando Tu Passas por Mim”, sucesso na voz de Araci de Almeida e Dóris Monteiro. Três anos depois, convida Antônio Carlos Jobim para fazer a música da peça “Orfeu da Conceição”, que estrearia no Teatro Municipal. A participação de João Gilberto no espetáculo define a tríade que foi o embrião do mais importante movimento de renovação da música brasileira: a bossa nova.

Sambas, bossas e outras canções

É na voz de Elizete Cardoso que a bossa nova dá seus primeiros acordes. O disco “Canção do Amor Demais”, com parcerias de Jobim e Vinicius, traz, em “Chega de Saudade”, a nova batida do violão de João Gilberto. A partir disso, a produção musical de Vinicius ganha densidade. Nos anos seguintes, passa a compor com outros mestres da MPB como Pixinguinha, Carlos Lyra e Baden Powell.

Em 1961, Baden havia estreado como arranjador no disco “Jóia Moderna”, da cantora e compositora Alaíde Costa. No ano seguinte, quando começou a criar com o poeta, o violonista o apresentou a Alaíde. “Comentei com Baden que gostaria muito de conhecê-lo, e ele me levou à casa de Vinicius. Depois, passei a ser convidada sempre para ir lá”, conta Alaíde, que se tornou amiga do poeta. “Sem Você”, parceria com Jobim, foi a primeira letra dele que gravou.

Vinicius teve em Alaíde sua primeira parceira. “Eu estudava piano com um professor, mas precisava fazer a lição de casa. Como não tinha condições para comprar um, Vinicius colocou o dele à disposição. Eu ia à casa dele e passava as tardes estudando. Nessa época, estava começando a criar algumas melodias. Ele me ouviu cantarolar duas delas, gravou e, um tempo depois, me entregou duas letras: “Amigo Amado” e “Tudo o que é meu”.

Outro mimo do poeta à cantora foi o piano com o qual a presenteou. Quando o maestro Moacir Santos foi embora do Brasil, ofereceu a ela o instrumento. “Disse que não tinha dinheiro para pagar e ele sugeriu que eu pedisse a Vinicius que comprasse e eu pagasse em prestações. Tive muita vergonha e não pedi. Então, o próprio Moacir conversou com Vinicius que comprou o piano e mandou para minha casa”, recorda. “Acertamos as prestações, mas como nunca conseguia cumpri-las, ele me deu de presente”.

Além da amizade, havia entre os dois respeito e admiração mútua. O autor dizia que “se uma flor cantasse, cantaria como Alaíde”. Ela, tímida, nega o elogio. “A única coisa que sei é que na gravação de ‘Samba da benção’ ele dizia ‘a benção, Alaíde Costa, que canta muito bem’”, conta. Atualmente, entre seus diversos projetos, a cantora se apresenta com show baseado no repertório de Vinicius.

Atração internacional

Ao longo dos anos 60, outros nomes se juntaram à lista de amigos e parceiros de “Vina”, como era chamado por eles. Compôs com Ary Barroso, Edu Lobo e Francis Hime, gravou com Odete Lara e Dorival Caymmi, participou e ganhou festivais de música popular. Toquinho, seu último grande parceiro, começou a compor com ele em 1970. Um ano antes, haviam gravado, na Itália, o LP “La Vita, Amico, É L’arte Dell’incontro”. Nos anos seguintes, fariam outros discos internacionais, como “Per Vivere Un Grande Amore”, também na Itália, e “En la fusa”, resultado de uma turnê feita na Argentina e Uruguai com a cantora baiana Maria Creuza.

Vinicius a assistiu em um festival de música popular em 1969. Conseguiu seu telefone e a convidou para ir à sua casa. “Ele era uma figura que você via como uma estrela que está lá em cima. Quando o conheci, descobri que era a pessoa mais simples do mundo: carinhoso, carismático. Ele me disse: ‘nossa, até que enfim conheci essa baianinha da voz que me acaricia'”. Em várias ocasiões, o poeta afirmou que ela estava entre suas cantoras favoritas.

Quando recebeu o convite para se apresentar na América Latina com ele, aceitou imediatamente. No começo, os dois foram acompanhados por Dori Caymmi, depois substituído por Toquinho. “A partir daí, formamos um trio ligado de uma forma maravilhosa. As pessoas ficavam encantadas e Vinicius me apresentava muito carinhosamente. Ele não só me definiu como cantora, mas também me apresentou ao mundo, no Olympia, por exemplo”, diz Creuza. A perda de Vinicius, há 25 anos, foi um choque para a artista. “Perdi um pai, um amigo. Estava muito acostumada a trabalhar com ele. Vivemos coisas muito fortes. Foi uma das amizades mais intensas e sinceras que tive na vida”, relembra. O que a consola é a permanência mágica da obra do amigo e parceiro.

Para a pesquisadora Guaraciaba Micheletti, autora do livro “A poesia, o mar e a mulher: Um Só Vinicius”, isso se explica porque o poeta “encarna com precisão os mais profundos sentimentos do ser humano, suas paixões, suas fraquezas, numa linguagem artística de uma simplicidade muito elaborada”. Segundo ela, “Vinícius apaixona porque aprisiona o leitor pelos sentidos. As imagens são extremamente tácteis e visuais, e a sonoridade embala os que ouvem seus poemas”.

Hoje, o gerenciamento de sua obra, feito pela VM Cultural, tem como palavra de honra a fidelidade. A filha, Luciana, confirma e acrescenta: “Levamos em conta também que se trata de um artista póstumo e que é necessário criar novos projetos para manter a sua obra viva, principalmente, para a nova geração”. Assim seja.

Vinicius para crianças

No meio de sonetos, baladas e criações experimentais, figuravam na obra de Vinicius de Moraes, desde os primeiros anos da década de 60, alguns poemas para crianças. Antes restritos a antologias, foram reunidos no livro “A Arca de Noé”, que a editora Sabiá publicou em 1970. Desde então, é provavelmente o livro de poesia infantil mais popular do Brasil.

Nessa seara, aliás, o poetinha só perde para si próprio. O universo fantástico que criou a partir da temática animal, com humor, leveza e jogos sonoros típicos da poesia popular, cativou as crianças da época. Isso embalou o desejo de musicar os poemas e transformá-los em canções.

O curioso é que, inicialmente, elas foram lançadas na Itália, através do disco “L1arca – Canzoni Per Bambini”, de 1974. As parcerias de Vinícius com o amigo Toquinho e os músicos italianos Sérgio Bardotti e Luiz Bacalov foram interpretadas por Sérgio Endrigo e, em algumas faixas, pelo próprio poeta. Só em 2004 o trabalho chegou ao Brasil, pela Warner Music.

As canções, vertidas para português, já eram conhecidas por aqui desde 1980. Poucos meses depois da morte de Vinícius, em uma época em que a produção musical infantil se resumia a canções de ninar e brincadeiras de roda, foi lançado o primeiro LP “A Arca de Noé”. Para comemorar o dia das crianças, se transformou em um especial exibido pela Rede Globo.

O programa manteve os mesmos arranjos e intérpretes do disco. Elis Regina, Alceu Valença e Marina foram alguns dos participantes. No ano seguinte, Ney Matogrosso e Elba Ramalho estavam entre os convidados da segunda edição do projeto, que registrou novas canções em LP e em outro especial para a emissora.

O cantor Carlos Navas, que na época foi um dos espectadores do projeto, lançou no ano passado, o CD “Algumas Canções da Arca…”, no qual propõe releituras das músicas mais alegres dos discos originais. “Sempre quis me aproximar musicalmente das crianças, mas sentia que meu caminho artístico não dava margem a este tipo de convite. O universo me deu um “alô” e, imediatamente, me lembrei das canções de Vinicius”, diz ele.

No seu quarto trabalho, lançado pela Movieplay, como aval dos herdeiros do poetinha, estão clássicos como “O Pato” e “A Galinha d’Angola”. A “campeã de audiência”, a canção “A Casa”, foi também incluída no seu novo espetáculo com a atriz Clarisse Abujamra. Em “25 anos de Saudade”, os dois artistas homenageiam Vinicius de Moraes mesclando música e poesia. Mesmo entre os adultos, a canção é um sucesso.

Para Navas, a experiência está transformando sua vida e carreira. “É um orgulho interpretar estas canções e aferir a catarse que acontece com o público de todas as idades. Vinicius soube criar uma obra lúdica, abordar a solidão do universo das crianças, os sonhos, o tempo delas”, declara. Em breve, a “Arca de Noé” também deverá chegar ao cinema, em um desenho animado produzido pela VM Cultural.

A permanência do poeta

“Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado vôo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade”.

No texto “Morte de um pássaro”, publicado entre as crônicas reunidas de “Para viver um grande amor”, Vinicius de Moraes homenageia Federico García Lorca. O sensível e revolucionário espanhol lançava mão de seus poemas e peças como forma de resistência ao regime de Franco e às perseguições políticas e pessoais que sofria.

Países diferentes, contextos diferentes e, inclusive, universos temáticos diferentes. Isso não isenta os dois autores de uma similitude indiscutível: o fato de não divorciar arte e vida. “Vinicius não vivia a poesia olhando-a pela janela. Minha impressão, como filha, é que ela estava dentro de suas veias”, diz Luciana de Moraes.

A analogia serve de amparo a outro argumento: a permanência que o carioca atribui a Lorca incide também sobre sua obra. Espedançando-se em vão contra o infinito, como disse em outro texto, Vinicius permanece presente – ora influenciando as gerações que o seguiram, ora assistindo à recriação e disseminação de seus trabalhos, na dança dos tempos.

Entre os parceiros e discípulos que o homenagearam, dedicando discos e shows a seu repertório, estão Tom Jobim, Alaíde Costa, Elizete Cardoso, Miucha, Quarteto em Cy, Joyce, Claudette Soares. Mais recentemente, Cláudia Telles, Carlos Navas, Mônica Salmaso, Olívia Byington e Paula Morelenbaum fizeram isso.

O último lançamento – e mais alardeado – é distinguido pela afetividade que carrega. O novo CD de Maria Bethânia, “Que falta você me faz” já exibe, logo no título, a regência da emoção. Ela e o poeta, afinal, tiveram uma relação afetuosa e cúmplice. Recém-chegada ao Rio para participar dos antológicos shows do Teatro Opinião, contou com o apoio fundamental de Vinicius, recebendo dele obras inéditas.

Nas canções selecionadas, parcerias com compositores como Chico Buarque, Carlos Lyra e Baden Powell, vê-se principalmente cumplicidade, em vez de rigor artístico. Bethânia decidiu cantar obviedades como “A felicidade”, “Samba da benção” e “Minha namorada”. A primazia do disco cabe a “Bom dia tristeza”, que tem música de Adoniran Barbosa.

Das estantes para os bolsos, a novidade é o livreto que a Companhia das Letras acaba de colocar no mercado. O formato é inédito na obra de Vinícius, e apresenta poemas selecionados, organizados e apresentados por Antônio Cicero e Eucanaã Ferraz. A “Nova Antologia Poética” tem preço sugerido de R$ 18,50 e é destinada tanto aos leitores familiarizados com o autor quanto às novas gerações.

“A antologia tende a ser a maneira ideal para as pessoas encararem a obra de um poeta”, pensa o jornalista e poeta Nelson Ascher. “As edições completas, por exemplo, intimidam os jovens – inclusive monetariamente. O fato de ser um livro pequeno, em formato pocket e relativamente barato, ajuda um pouco”.

À formação de novos públicos deve se somar à realização de um documentário intitulado “Vinicius de Moraes”. O filme será lançado em setembro e foi feito em parceria entre a VM Cultural e a 1001 Filmes. A direção é de Miguel de Faria Jr., que fez “Xangô de Baker Street”.



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