O sangue ferve

Quarenta anos depois, A Sangue Frio ainda choca e serve de alerta. Com a obra, Truman Capote inaugurou o romance reportagem e um método de investigação perfeito, que deveria ser retomado pelo bom jornalismo Por...

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Quarenta anos depois, A Sangue Frio ainda choca e serve de alerta. Com a obra, Truman Capote inaugurou o romance reportagem e um método de investigação perfeito, que deveria ser retomado pelo bom jornalismo

Por Márcio Calafiori

 

Faz exatamente 40 anos que Truman Capote pôs lenha na fogueira. A literatura americana precisava urgente de algo que combinasse com direitos civis, protestos, Guerra do Vietnã, contracultura, hippies, maconha, muita maconha, ácido, feminismo, pílula, minissaia, Beatles e Rolling Stones. Foi então que em quatro semanas consecutivas, entre o fim de setembro e o início outubro de 1965, Capote apareceu na New Yorker com o elétrico e desconcertante A Sangue Frio. Não se tratava só de uma mais uma reportagem diferente. Ao misturar a técnica jornalística com a arte do romance, Capote não deixou por menos: A Sangue Frio inaugura o romance verídico, de não-ficção. No caso, um romance com boa dose de suspense e narrativa cinematográfica.
A obra tem como subtítulo “O relato fiel de um assassinato múltiplo e suas complicações” e trata do homicídio brutal de quatro pessoas de uma mesma família, os Clutter, ocorrido em novembro de 1959, em Holcomb, uma cidadezinha de 270 habitantes, no Kansas. Gerald Clarke, biógrafo de Capote, diz que o escritor leu uma notícia escondida sobre o crime em uma edição de segunda-feira do New York Times: “Fazendeiro rico e sua família são barbaramente assassinados.” Enquanto lia a notícia, Capote teve um frenesi — acabava de se deparar com o tema que, finalmente, lhe permitiria desenvolver um novo estilo de escrita, o que perseguia havia anos: a mistura perfeita da reportagem, com a técnica literária.
Quando a reportagem virou livro, em janeiro de 1966, Capote foi bombardeado por alguns críticos, segundo os quais o que ele tivera a audácia de anunciar como novo não era exatamente novidade. Antes dele, vários escritores já tinham misturado a reportagem com a técnica literária, inclusive na própria The New Yorker, responsável por reportagens que causaram impacto justamente pelo estilo arrojado: “O Professor Gaivota” (1942), de Joseph Mitchell; “Hiroshima” (1946), de John Hersey; “Produção nº 1.512” (1952), de Lillian Ross.
Aliás, a publicação agora pela Companhia das Letras de Filme — como a reportagem de Lillian Ross foi intitulada ao sair em livro, em 1952 —, coloca os pontos nos “is”. Há quem diga que foi Ross, na verdade, quem inaugurou o estilo que Capote anunciou como novo. Mas basta ler a obra de Ross e compará-la com a de Capote. São diferentes. Filme é exatamente o que é: uma reportagem minuciosa, muito bem escrita e envolvente. Quarenta anos depois, A Sangue Frio é… um romance! E Capote acrescentaria: “Imaculadamente factual”.
Embora alguns escritores do século XIX, e mesmo do século XX, já tivessem experimentado narrar uma reportagem mesclando-a com a técnica da ficção, foi Capote quem realmente de fato inovou. Foi só a partir de A Sangue Frio que essa técnica que depois se convencionou chamar de “Novo Jornalismo” se consagrou e influenciou gente como Norman Mailer, Gay Talese, Tom Wolfe, Hunter S. Thompson e Lacey Fosburgh, entre outros repórteres-escritores.
A crítica Kathryn VanSpanckeren diz que “os anos 60 [nos Estados Unidos] foram marcados por menor distinção entre ficção e fato, romance e reportagem, tendência mantida até hoje”. Quer dizer, a linguagem que Capote fez explodir não influenciou só o jornalismo, mas a literatura também. Para Tom Wolfe, o “Novo Jornalismo” substitui, inclusive, a importância que a literatura americana não soube alcançar a partir dos anos 60.
No caso de Norman Mailer, a influência de Capote foi absolutamente vital, pois aos 24 anos Mailer ficara mundialmente famoso com o romance Os Nus e os Mortos (1948), mas depois disso a sua carreira de escritor estava apenas morna. Referindo-se às criticas que recebera por “A Sangue Frio”, Capote escreveu: “(…) Vários críticos se queixaram de que romance verídico era uma expressão ambígua, uma mistificação, e que não havia realmente nada de realmente original ou novo no que eu tinha feito. Mas houve quem pensasse de maneira diversa, outros escritores que compreenderam o alcance de minha experiência e se apressaram a pôr a receita em prática — nenhum com mais rapidez do que Norman Mailer, que ganhou muito dinheiro e recebeu uma porção de prêmios escrevendo romances verídicos (…), embora sempre fizesse questão de jamais classificá-los de ‘romances verídicos’ (…)”.
O monstruoso Perry — Acompanhado de Harper Lee — uma amiga escritora, autora de O Sol É Para Todos —, Truman Capote viajou para Holcomb em dezembro de 1959, um mês depois do assassinato da família Clutter. Homossexual assumido, afetado, baixinho (media 1,58), com uma voz fininha de garoto, Capote se sentiu extremamente desconfortável naquele ambiente de “faroeste”. Virou a atração principal da cidade. Os moradores imitavam os seus trejeitos e a sua voz, mas duas semanas depois era Capote quem os ridicularizava.
Até a prisão dos dois assassinos, ocorrida em janeiro de 1960, Capote só pretendia escrever uma boa reportagem para a New Yorker, sobre a reação paranóica da cidadezinha ao crime brutal. Mas quando estava se preparando para voltar a Nova Iorque, em janeiro de 1960, a dupla de assassinos foi presa. Capote compreendeu que tinha em mãos algo grandioso: uma história intensamente trágica, protagonizada por um personagem ao mesmo tempo humano e monstruoso. E o personagem não precisava ser inventado: estava ali à sua frente — era Perry Smith.
O Perry Smith de A Sangue Frio é considerado pelo insuspeito Norman Mailer como uma das grandes personagens da literatura americana. O assassino teve graves problemas emocionais. Criança ainda foi entregue a um reformatório, onde era insultado pelos colegas e apanhava das freiras por mijar na cama. Perry tinha sensibilidade artística. Queria ser poeta. Lia muito e colecionava palavras para aumentar o vocabulário, além de ser também compositor. (Na versão de A Sangue Frio de 1996, o diretor Jonathan Kaplan usou no filme canções compostas por ele). Em muitos aspectos, Capote se identificava com o assassino, pois até os 10 anos de idade também fora criado por “estranhos” (tios e tias), por causa da separação dos pais. O escritor disse várias vezes aos amigos que teve a sorte de não se tornar um marginal como Perry.
O romance-reportagem de Capote entra para a história não só como um dos principais marcos da literatura e do jornalismo do século XX, mas também como um dos relacionamentos mais tensos, neuróticos e complexos de que se tem notícia entre um autor e sua obra. Para reconstruir o assassinato da família Clutter, o escritor se aproximou dos assassinos e se tornou amigo deles. Além dos advogados, Capote era o único que tinha permissão para visitá-los no corredor da morte.
Tudo o que ele conversou com Perry e Dick está no livro, a ponto de muitos leitores ficarem surpresos e até mesmo não entenderem como é que o escritor “sabia de tudo aquilo”. Perry e Dick, no entanto, não tinham idéia do que ele estava escrevendo. Em uma carta a Capote, Perry questionou: “Disseram que o livro só vai ser vendido depois da nossa execução. E que o título é A SANGUE FRIO. Quem está mentindo? Parece que alguém está. Francamente, A SANGUE FRIO é de chocar qualquer consciência”.
Embora tenha se tornado amigo de Perry e Dick, na intimidade Capote queria que eles fossem executados, para que A Sangue Frio tivesse o desfecho digno de um grande romance. Cada adiamento da execução era um drama para o escritor. De 1959 a 1965, ele não conseguiu se dedicar a nada que não fosse a história do assassinato. As três primeiras partes da reportagem foram concluídas em 1962, mas daí em diante Capote ficou esperando o enforcamento dos assassinos, o que só ocorreu em abril de 1965, para desespero e, por paradoxal que seja, para alívio do escritor, para quem a execução teve o sentido de missão cumprida.
A repercussão da reportagem e depois do livro foi imediata e retumbante. De acordo com Gerald Clarke, Capote ganhou pelo menos dois milhões de dólares com a obra e ficou rico. Ele foi assunto de todas as revistas e jornais americanos importantes e manteve polêmica com críticos e colegas. Mas depois de A Sangue Frio, Capote nunca mais foi o mesmo. Como artista, entrou em decadência irreversível, até morrer em agosto de 1984, um mês e pouco antes de completar 60 anos, vítima das inimizades, da depressão, do álcool e das drogas pesadas.



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