Onde o mundo se encontra

Durante o FSM, Porto Alegre se transforma no ponto de encontro de povos, realidades e idéias diferentes, tudo em um clima de respeito e valorização da diversidade Por Glauco Faria  ...

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Durante o FSM, Porto Alegre se transforma no ponto de encontro de povos, realidades e idéias diferentes, tudo em um clima de respeito e valorização da diversidade

Por Glauco Faria

 

Os números impressionam. Nesta última edição do FSM, foram 155 mil participantes vindos de 135 países. Quem andava um pouco pelo Território Social Mundial às vezes se sentia perdido em um lugar onde línguas mais comuns, como inglês, francês e espanhol, se misturam com idiomas nórdicos e dialetos africanos e indianos. Reflexo do processo de democratização e internacionalização que o Fórum tem vivido desde a sua primeira edição, gente de todo o planeta pôde conviver em um clima onde imperavam não as diferenças, mas a necessidade de se encontrar objetivos e pontos em comum, além de denunciar cenários e situações que estão longe da mídia e da preocupação dos governos nacionais.

Mesmo no FSM, existe o risco de várias experiências e relatos se perderem em meio a tantas atividades. Um exemplo são as discussões em relação à situação do Haiti, mesmo no Fórum, muito do que se discutiu a respeito dele passou despercebido. Às vistas da comunidade internacional, o que lá ocorreu foi a queda de um presidente, derrubado por milícias armadas, e um princípio de guerra civil, sufocada pela intervenção da ONU e de tropas de paz, capitaneadas pelas Forças Armadas brasileiras. No FSM, os participantes haitianos puderam dizer que a história não é bem essa. Aliás, entre os próprios haitianos há mais de uma versão sobre ela.

No seminário “A ditadura da comunidade internacional”, realizado no Fórum, o título não deixou dúvidas quanto à opinião dos participantes em relação à intervenção em seu país. Militantes de entidades e ex-integrantes do governo de Jean Bertrand Aristide divulgaram um documento no qual repudiam a presença de tropas de outros paises, até mesmo do Brasil, em seu território, e pedem o restabelecimento das instituições democráticas haitianas. “Desde junho de 2004, temos a Missão das Nações Unidas para a Estabilização Democrática, com cerca de 12 mil militares, sendo o exército brasileiro o responsável pelo comando da tropa. Mas essa missão é, na verdade, uma ocupação militar que corresponde aos objetivos estratégicos do imperialismo norte-americano”, denuncia o ativista Camile Chalmers, em entrevista ao site do Ibase.
Daí pode-se concluir que os haitianos querem a volta do ex-presidente Aristide, certo? Errado. É justamente nesse ponto que começam as divergências. Simpatizantes do ex-mandatário incluíram, no documento divulgado no painel, o seu retorno ao país como uma das reivindicações. No entanto, no mesmo encontro, ativistas contrários protestaram, atribuindo a Aristide um governo ditatorial que não dava espaço a grupos opositores e reprimia as manifestações de adversários políticos. No evento, os dois grupos quase chegaram a agredir-se. Ainda assim, em relação a outros pontos, houve convergência.

Integração 
Um dos pontos mais importantes do FSM, reforçado nesta última edição, está em se alavancar campanhas e ações com um caráter mais global, envolvendo entidades de diversos países. Afinal, há lutas que são comuns, embora as condições variem de país para país.

O combate à discriminação é um desses objetivos que alcançam diversos povos. O Fórum Mundial da Dignidade, realizado dentro do FSM, pôde contemplar a tentativa de unir etnias em prol da construção de sociedades menos desiguais e injustas. Representantes de dalits indianos, de quilombolas brasileiros e de índios colombianos, entre outros, puderam articular ações contra um mal que lhes é comum. “A questão não deve ficar restrita aos dalits. Deve englobar todos os grupos marginalizados, afetados pela globalização. Nós estamos lutando por todos eles”, explica Ashok Bhart, representante dos dalits. “Podemos até ter, em alguns casos, problemas diferentes, mas todos nós somos excluídos da mesma forma. E é contra isso que viemos lutar”, defende Israel Evangelista, integrante da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen) e do Ilê Axé Oxumaré.

Os movimentos em defesa dos direitos das mulheres também encontram no FSM um lugar para expandir o seu raio de ação. Durante o evento, foi realizada a assembléia da Marcha Mundial de Mulheres. Dentre as decisões tomadas, está o lançamento da Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade no dia 8 de março em São Paulo, defendendo cinco princípios: igualdade, liberdade, solidariedade, justiça e paz.

“A carta é como se fosse um acordo internacional sobre o mundo que as mulheres querem. Resgata utopias”, esclarece Marisa Mello, coordenadora estadual da Marcha no Rio de Janeiro. As ativistas se esforçam para tornar menos desiguais as condições de luta nos diversos países, que têm pontos de vista distintos sobre a questão. “As mulheres estão bem organizadas na África, na região dos Grandes Lagos, uma região marcada pela guerra. Na Europa, a marcha significa a retomada de um movimento feminista de rua. Na América Latina, a retomada da mobilização é mais crítica, articula a questão de gênero com a macroeconomia”, pontua Nalu Faria, coordenadora da Sempreviva Organização Feminista (SOF).

Outro grupo que sofre discriminação e abusos não por conta de etnia ou gênero, mas devido a uma condição social cada vez mais comum no mundo globalizado, são os migrantes. Eles tiveram espaço em Porto Alegre não apenas em atividades do FSM, mas em um evento específico que o antecedeu, o Fórum Social das Migrações. E as limitações impostas aos migrantes não param de crescer, atingindo não apenas cidadãos de países subdesenvolvidos mas também de grandes países da Europa. Em evento realizado pela Federação Italiana dos Trabalhadores Emigrados e pela Federação Italiana Emigração Imigração, trabalhadores daquele país reclamaram por imposições e discriminação sofridas em vizinhos europeus como Suíça, Alemanha e Bélgica.

No painel “Refugiados”, também realizado no Fórum Social de Migrações, um relato dramático. Durante o governo do golpista Alberto Fujimori, milhares de peruanos foram perseguidos e denunciados por falsas acusações de ligação com o terrorismo. Com reduzidas chances de defesa, diversos deles tiveram de abandonar o país e buscar refúgio em outros lugares. Como o crime de terrorismo é imprescritível no Peru, as pessoas têm como opção permanecer no exílio e tentar defender-se à distância ou voltar ao Peru, o que significa a prisão imediata.

Até mesmo onde seria inimaginável encontrar convergências, o rumo pode ser semelhante. Entre os camponeses presentes no FSM, as diferenças entre países do Norte e do Sul se apequenam. “O Fórum Social para os camponeses é muito bom, pois viemos juntos, compartilhamos experiências e compromissos”, conta Stephen Barttett, das Missões Agrícolas dos Estados Unidos. “Os agricultores dos EUA, quando vieram há dois anos para Porto Alegre, se animaram muito e voltaram com outra consciência pela luta de como organizar-se. Temos o problema de que somos minoritários nos Estados Unidos, necessitamos sentir um movimento global”, completa. “Para nós, o Fórum sempre é importante, pois essa diversidade de cultura permite uma troca a nível mundial com esse processo que se está fazendo e, principalmente, viemos todos motivados para confraternizar com as pessoas e levar muitas idéias de como enfrentar esse sistema imperante que leva o povo a viver na miséria”, sustenta Alberto Romero, dirigente da Organização camponesa regional do Paraguai.

Outro importante ponto de contato entre países em situações completemente distintas acontece entre Finlândia e Tanzânia. Os ministros das Relações Exteriores dos dois países estiveram presentes no FSM para debater o Processo de Helsinque sobre a Globalização e a Democracia, que busca soluções inovadoras para a problemática da governança global. A iniciativa conjunta supera as claras diferenças econômicas e sociais existentes entre eles, pois há um importante ponto em comum: a crescente força dos movimentos sociais em ambos.

“O movimento social está muito forte na Tanzânia e quem está à frente disso são as mulheres, já que elas têm os piores empregos e os piores salários”, explica Jakaya Kikwete, ministra das Relações Exteriores da Tanzânia. “Entre nós, houve muito avanço no entendimento da forma como as relações internacionais impactam na vida cotidiana”, completa. Na Finlândia, a organização de movimentos é uma tradição. “Existe uma piada no país de que se existem três finlandeses juntos eles fazem uma ONG, quando são quatro eles precisam fazer duas”, brinca Pertti Majanen, ministro finlandês das Relações Exteriores. “Nos meados dos anos 90, época do Consenso de Washington, houve uma reação anti-globalização muito forte dos movimentos organizados na Finlândia”, explica. “Hoje é diferente, houve uma mudança positiva na maneira de se ver a globalização, sobretudo quando se vai percebendo que com essas potencialidades negativas vêm também possibilidades de cooperação, solidariedade, criação de redes entre pessoas de diversas nacionalidades”.

Outro ponto forte do FSM é a articulação de campanhas mundiais. As grandes manifestações contra a guerra no Iraque, que tomaram as ruas de todo o planeta em 2003, tiveram início no Fórum bem como a campanha unificada contra a Alca. Ao contrário do que dizem os críticos ao avaliar a falta de resultados práticos, ambos os movimentos serviram não só para ampliar a consciência sobre esses temas mas forçaram uma mudança na postura de governos (principalmente o norte-americano). Agora há a expectativa de realizar-se um dia de mobilização contra a fome e a pobreza no dia 10 de setembro, data próxima da reunião da cúpula das Nações Unidas no dia 14 do mesmo mês. E assim se caminha rumo ao outro mundo possível: um passo de cada vez, mas com uma direção certa.

glauco@revistaforum.com.br



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