Os novos rumos do FSM

Na quinta edição do Fórum Social Mundial, um dos principais temas discutidos foi o seu próprio futuro Por Nicolau Soares   Após pouco tempo de preparação e...

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Na quinta edição do Fórum Social Mundial, um dos principais temas discutidos foi o seu próprio futuro

Por Nicolau Soares

 

Após pouco tempo de preparação e até então uma grande incógnita em relação a seus resultados, nascia em janeiro de 2001 o Fórum Social Mundial. O evento foi um grande sucesso, mobilizando diversas entidades em todo o mundo e reunindo cerca de 20 mil pessoas na capital gaúcha. Hoje, junto com a quinta edição do evento, que retornou a Porto Alegre depois de uma passagem pela Índia, se encerra um ciclo que consolidou o FSM como a mais importante referência para os movimentos de esquerda de todo o mundo.

O Fórum de 2005 reuniu 155 mil pessoas (35 mil no Acampamento Intercontinental da Juventude) que participaram de cerca de 2.500 atividades organizadas por 6.588 organizações de 135 países, de forma totalmente autogestionada, uma das novidades do evento. A tradicional Marcha de Abertura foi histórica, reunindo mais de 200 mil pessoas nas ruas de Porto Alegre.

Dentro da enorme variedade de temas discutidos (de privatização da água à economia solidária, do perdão da dívida dos países pobres aos rumos do movimento feminista), houve um que se destacou por ser muito complicado e cheio de controvérsias: o objetivo e o futuro do próprio FSM. Opiniões de todos os tipos foram ouvidas antes, durante e depois do evento, traçando um panorama das diversas tendências que disputam espaço dentro do encontro. As críticas e os elogios atingiram desde a nova metodologia adotada até o movimento rumo à internacionalização.

A nova geografia do evento, inspirada na experiência indiana, deixou de lado a PUC e outros espaços fechados que sediaram seminários e palestras nas outras edições. Criou-se o Território Social Mundial, que acompanhava a orla do rio Guaíba, começando no cais do porto e indo até as proximidades do ginásio Gigantinho, onde falaram os presidentes Lula e Hugo Chávez. O território foi dividido em 11 espaços temáticos, a fim de agrupar entidades e pessoas com objetivos e interesses convergentes, facilitando as trocas de experiências.

Mas a principal mudança ocorreu na organização das conferências e painéis. Dessa vez, todas as atividades foram autogestionadas. O comitê organizador, que antes realizava conferências que ficavam entre as mais concorridas de todo o FSM, dessa vez ficou de fora, trabalhando apenas no processo chamado de “aglutinação”, visando unir atividades com temáticas próximas. “Para fazer algo é necessário articular-se e acho que facilitamos isso: o Fórum deu um salto qualitativo”, defende Chico Whitaker, membro da Comissão de Justiça e Paz e do Conselho Internacional do FSM.

No entanto, o método recebeu críticas de algumas personalidades no FSM, como o sociólogo Emir Sader. Para ele, a auto-organização dessa quinta edição pode ser uma armadilha. “É bonita a idéia de ter um Fórum totalmente autogestionado, mas entidades como a Via Campesina da América Latina, por exemplo, não têm o mesmo poder de financiamento das entidades européias”, advertiu. Para ele, as atividades do Fórum teriam sido dominadas por ONGs, o que seria uma distorção na representatividade de quem participa do encontro. “Na marcha ficou claro que os movimentos sociais são a maioria no Fórum e não as ONGs”, afirmou. Para corrigir a situação, Sader propõe a instituição de um fundo para auxiliar a vinda de movimentos de outros países para o FSM. “Os recursos são obtidos por conta do prestígio que o Fórum tem. Se o evento é realizado no Brasil, temos de dar prioridade para trazer gente da Ásia e da África”, defende.

Espaço ou movimento organizado? Outra discussão que esteve aberta durante o evento foi como dar maior efetividade às propostas feitas no Fórum. O idealizador do evento, Oded Grajew, foi um dos que lançou a questão. Para ele, as organizações e os movimentos que se reúnem no Fórum devem pensar mais estrategicamente para atingir os seus objetivos. “Nós somos muito bons no diagnóstico, mas ainda não tanto na realização”, afirma. “Já fizemos a crítica e sabemos onde queremos chegar. Agora, temos de começar a percorrer o caminho até lá”, defende.

“É preciso que o movimento social mundial seja capaz de dar um salto e não apenas discutir, mas estar disposto a mudar os seus próprios pontos de vista para organizar, de forma prática e pragmática, grandes campanhas globais”, concorda Victorio Agnoletto, do Comitê do Fórum Social Italiano. “O Fórum foi capaz de mudar opiniões no Ocidente sobre diversos pontos, mas precisa ir além”, sustenta.

Agnoletto propõe a organização de campanhas sobre algumas das bandeiras mais tradicionais do Fórum, como o cancelamento das dívidas dos países pobres, especialmente os atingidos pelas Tsunamis, na Ásia; a criação de taxas sobre o capital financeiro internacional para a criação de um fundo de combate à pobreza, sendo a Taxa Tobin uma delas; e uma campanha contra a guerra que vá além das manifestações de rua, incluindo um grande boicote a produtos de multinacionais que patrocinem os conflitos. “Acredito que sejamos capazes de dar esse salto. De outra forma, o Fórum corre o risco de tornar-se uma simples repetição permanente, sem nada de novo”, analisa.

Dessa discussão sobre como construir de fato o Outro Mundo Possível, surgiram novamente questionamentos sobre o objetivo do evento. Deve o Fórum ser um espaço de encontro para as organizações ou ele deve passar a assumir posturas coletivas que representem todos os seus participantes?

Para alguns, se o FSM mantiver a atual postura de não se posicionar como entidade, acabará perdendo espaço político. “Acredito que os princípios do FSM devem ser mantidos, construindo movimentos voltados aos pobres, para lutar contra a desigualdade, pela democracia, pelos direitos humanos. Mas, em algumas questões, não se pode ser neutro, é preciso tomar posições”, defende Bheki Ntshali-Ntshali, Secretário geral da Cosatu (Congresso de Sindicatos de Trabalhadores da África do Sul) e membro do Conselho Internacional. O venezuelano Ivo Rodrigues, coordenador nacional dos Círculos Bolivarianos, pensa de forma semelhante: “Há muitas conferências, muita dispersão. Falta uma ação mais articulada que permita a produção de um documento único apelando à ONU contra a postura dos Estados Unidos que, sem dúvida, são hoje os maiores violadores dos direitos humanos, ambientais e sociais”, opina.

O belga François Houtart, do Centro Tricontinental, adota uma postura intermediária. “O Fórum nasceu para ser um ponto de encontro, não a Quinta Internacional.” No entanto, Houtart acredita que seja possível pensar ações propostas pela organização do FSM, dando a opção para que as entidades possam aderir ou não. “Há o perigo de parecermos impotentes diante de um sistema tão estruturado e forte como o capitalismo neoliberal. Precisamos chegar a ações mais visíveis e internacionais”, acredita.

Alguns acreditam que esse tipo de atitude vai de encontro à própria filosofia do evento, que busca atuar como uma rede de entidades independentes e não como um movimento organizado. Isso se reflete até mesmo nas formas como o Conselho Internacional do FSM delibera: as decisões são todas tomadas por consenso, sem que haja votações. Para os defensores da atual estrutura, declarações finais feririam esse princípio, uma vez que é impossível chegar a um consenso entre todos os participantes. “Os críticos não sabem que o FSM é um espaço, não um movimento. Ele perde a credibilidade se for encarado dessa maneira. Mesmo alguns membros do Conselho Internacional têm dificuldades para entender que o Fórum não pode sair com bandeiras unificadas. Temos de melhorar a maneira como abrimos esse espaço para os movimentos”, explica Chico Whitaker.

Salete Valesan, membro do Instituto Paulo Freire e do Conselho Internacional, concorda. “O objetivo do Fórum é promover a interação e interlocução entre as entidades. É um espaço da sociedade civil organizada”, esclarece. “Esse é um objetivo que se concretiza de forma mais intensa esse ano, com o FSM sendo todo autogestionado”, defende. “Esse formato já possibilitou grandes mudanças, até dentro do próprio Fórum, como as mudanças da metodologia, do espaço físico, a decisão de valorizar a cultura dentro do evento, de promover a economia solidária. Esses são movimentos propositivos que não precisam estar em um documento, vêm crescendo desde o início e se concretizam agora mais do que nunca”, analisa.

Todas essas discordâncias são, na verdade, uma mostra do que foi essa edição do FSM: com certeza uma das mais politizadas. Se, em 2001, ano da primeira edição, a própria realização do evento era duvidosa, em 2002, os atentados de 11 de setembro jogaram a sombra da Guerra Contra o Terror sobre os movimentos sociais, que passaram a temer perseguições. Da mesma forma, em 2003, o tema da luta contra a guerra praticamente monopolizou as discussões. Na Índia, os temas naturalmente ficaram mais presos à situação local e do continente asiático. Só agora o Fórum parece ter conseguido realmente efetivar a abertura de um espaço para que os movimentos buscassem contatos dentro de sua área de atuação. Isso levou a propostas mais consistentes de atuação para 2005.

No próximo ano, o Fórum vai encarar mais uma experiência. Em vez de um evento mundial centralizado, o Conselho Internacional decidiu abrir espaço para que vários Fóruns sejam organizados paralelamente em lugares diferentes, desde que sigam a Carta de Princípios e a metodologia do evento. Está garantida a realização de Fóruns na Ásia, África e América do Sul, este último com sede na Venezuela.

Em 2007, o evento volta a ser unificado e será realizado na África. O país-sede ainda não foi definido, mas existem propostas de Marrocos, Zaire, Quênia e África do Sul. A tendência mais forte, ao final do Fórum, era de que o evento regional de 2006 fosse realizado no Marrocos, país árabe, enquanto um país da África negra receberia a versão mundial, em 2007.

“Concordo com a decisão do Conselho porque o Fórum conseguiu ótimos resultados na Europa e na América Latina, mas precisa avançar na Ásia e na África. A mobilização em Fóruns mundiais nesses outros continentes é fundamental para essa ampliação”, defende Agnoletto. Vinod Raina, membro do Comitê indiano do FSM, tem opinião semelhante: “A ida do Fórum à África e outros continentes é uma boa medida, já que expande o processo do Fórum”, garante. “Na Índia, fizemos diversos Fóruns municipais preparatórios para o Mundial. Voltar os esforços para a regionalização é um ótimo caminho”, completa.

nicolau@revistaforum.com.br



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