Parabéns aos banqueiros!

Parabéns aos banqueiros! Por Fausto Wolff   Em Notícia sobre Gogol, escreveu Merimée: “Sou dos que apreciam demais os bandidos embora não deseje encontrá-los no meu caminho....

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Parabéns aos banqueiros!

Por Fausto Wolff

 

Em Notícia sobre Gogol, escreveu Merimée: “Sou dos que apreciam demais os bandidos embora não deseje encontrá-los no meu caminho. A meu malgrado, a energia desses homens em luta contra uma sociedade inteira, arranca-me uma admiração de que me envergonho”.
É claro que o bom Próspero não se referia ao barão de Rothschield mas a bandidos honestos que arriscavam a vida no exercício da sua profissão. Como ele, sempre tive grande admiração por esses indivíduos. Não falo dos boçais, ignorantes, miseráveis, desesperados que assaltam ônibus, táxis ou velhinhos aposentados. Esses, como suas vítimas, me inspiram piedade e são produtos do III Mundo. Falo de homens que não aceitaram o contrato social ao qual foram condenados e que, embora em grande desvantagem, tentam dar o troco ao poder. Tenho, por exemplo, o maior respeito por Ronald Biggs, o craque que assaltou o trem pagador britânico. Pagou para ver, fugiu pelo mundo inteiro, fez uma operação plástica e acabou dando toda a sua parte do assalto a bandidos legais, os advogados. Bom pai, grande bebedor de cerveja, vivia em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, sem fazer mal a ninguém, graças ao único ato de independência da história do governo brasileiro, que foi o de não devolvê-lo à polícia inglesa. Sua grande burrice foi voltar.
Se admiro os bandidos corajosos na tradição de Robin Hood, François Villon, Raffles e Arsène Lupin, desde menino nutro o maior desprezo pelos bandidos ricos e covardes, os que roubam o povo, em síntese, os banqueiros. Lá em casa, nos anos 40, meu pai, meus dois irmãos e eu trabalhávamos para juntar dinheiro a fim de podermos comprar uma casa própria, sonho que só se realizou depois de vinte anos quando eu já era jornalista. Todo fim de mês via meu pai voltar triste, quase chorando, do banco, pois os juros haviam aumentado e poupáramos muito menos do que havíamos imaginado. E olhem que estávamos em pleno governo Dutra, os juros não eram tão exorbitantes e havia pelo menos um banco que emprestava dinheiro a quem realmente precisasse, o Banco do Brasil. De lá para cá e, principalmente, desde a ditadura neoliberal, os bancos só emprestam dinheiro depois de certificar-se de que o sujeito não precisa. Não é de se admirar, portanto, que desde aquela época eu admirasse Jesse James, o herói mais cultuado pelo cinema americano que, pelo menos de mentirinha, não perdoa banqueiros. Creio que o único banqueiro honesto que já existiu é o que aparece no filme It’s a Wonderful Life, de Frank Capra, e é puramente ficcional. Mas, no tempo de Capra, Hollywood conseguia produzir alguma coisa remotamente parecida com arte. Qualquer filme de Monicelli é melhor do que toda a produção americana dos últimos vinte anos. Dou-me conta de que tergiverso e paragra-feio .
No III Mundo e no Salvelindo, em particular, os banqueiros não são considerados bandidos. Podemos vê-los elegantes, bem falantes, simpáticos, sorridentes em qualquer reunião da alta sociedade e, entretanto, são os maiores bandidos do país. Esses marginais não marginalizados, depois de assegurarem vida mansíssima para os tetranetos que ainda não nasceram, declaram falência. Nessa ocasião, mediante propinas equivalentes a 500 anos de salário mínimo de um trabalhador, recebem dinheiro do Banco Central, o que nos transforma em um povo inteiramente à mercê de bandidos. Como? Ora, além de roubarem diretamente o nosso dinheiro ainda o roubam indiretamente através do que o governo nos rouba nos impostos para dar a eles que não pagam impostos. Coisa de bordel de luxo.
Abro as principais revistas do país e vejo páginas e mais páginas de propaganda informando o quanto os banqueiros nos querem bem e o quanto precisamos deles. No dia seguinte, as mesmas revistas me informam que os mesmos banqueiros foram à falência, embora continuem sendo os homens mais ricos do país. E o mais incrível é que o dinheiro gasto com a publicidade também é nosso. Quando Brecht perguntava quem era o maior ladrão, o homem que assaltava um banco ou o homem que fundava um banco, sabia muito bem, como eu, a resposta. O homem que assalta arrisca a vida, o homem que funda rouba a vida de todos. Está aí, o Globo que não me deixa mentir: “Bancos são os maiores sonegadores do País”. Só no ano passado nos roubaram 2 bilhões e 400 milhões de reais. Não contentes com toda essa roubalheira, os bandidos descobriram que, graças aos cheques pré-datados, as pessoas não estão mais fazendo uso dos seus cartões de crédito. Por isso, inconstitucionalmente, só nos venderão os talões (segundo Millôr Fernandes, os livros mais caros do mundo: 4,50 reais) de dez cheques depois que todos tiverem batido no caixa. Bandidos, ladrões sonegadores, estão todos em liberdade. Se eu não declarar o que recebi por este artigo, logo, logo a polícia virá me buscar. Banqueiros, parabéns.
Seria injusto se dissesse que jamais ganhei dinheiro com ladrões. Quando o senador Estevão foi cassado e em seguida preso, propus bolão aos companheiros de chopp do Bunda de Fora: um litro de White Horse para quem acertasse quanto tempo ele ficaria na cadeia. Os bêbados ainda acreditam na justiça. Escrevi 24 horas e ganhei. Metade dos bancários do país foi despedida e a outra metade não recebe aumento há oito anos.



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