Paulo Freire: o andarilho da utopia

O filósofo Mário Sérgio Cortella fala da convivência com o grande educador e do seu incessante trabalho para divulgar suas idéias em todo o mundo Por Gilberto Nascimento  ...

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O filósofo Mário Sérgio Cortella fala da convivência com o grande educador e do seu incessante trabalho para divulgar suas idéias em todo o mundo

Por Gilberto Nascimento

 

O filósofo Mário Sérgio Cortella, professor titular de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, foi aluno, amigo e confidente do educador Paulo Freire. Os ensinamentos mais importantes que ele diz ter recebido na vida foram resultados de conversas diárias com Freire, durante uma hora e meia, por cerca de três anos, quando era chefe de gabinete do educador, então secretário de Educação da prefeitura de São Paulo (1989-1991). Os dois conversavam enquanto Freire, mecanicamente, assinava montanhas de documentos exigidos pela burocracia, que já haviam sido previamente analisados por outros servidores. “Falávamos da vida, de arte e cultura, de esportes e coisas do cotidiano”, lembra Cortella.

O professor destaca que a obra de Paulo Freire influenciou todo o pensamento pedagógico contemporâneo. “Não dá para pensar na educação no mundo atual sem o pensamento de Paulo Freire. É um filósofo da educação. Ele conseguiu fazer um chamado, ser um andarilho da utopia e caminhar pelo mundo afora”, avalia. Cortella falou à Fórum sobre a obra de Freire e contou histórias, por exemplo, como a do ciúme que ele sentiu pelo cantor e compositor Chico Buarque e, por isso, abandonou o palco de um comício do PT no Pacaembu e foi embora sozinho.

Fórum – São dez anos da morte do professor Paulo Freire. Como ele é lembrado hoje?
Mario Sergio Cortella –
As pessoas às vezes dizem assim: ‘olha, nós vamos ter a comemoração de dez anos da morte do Paulo Freire’. Outro dia eu escrevi um texto, no qual falo em comemorar a morte, usando o sentido original da palavra. Comemorar significa memorar junto, lembrar junto. Há vários modos de comemorar. Existe a comemoração festiva e a não festiva. Não é errado dizer que se comemora a morte. Ao contrário, comemora-se a bomba Hiroxima e Nagasaki, o 11 de setembro, o holocausto, a morte de alguém, o que não é a mesma coisa de festejar. Portanto, no dia 19 de setembro de 2007, nós vamos festejar os 86 anos que o Paulo Freire faria. No dia 2 de maio, quando morre o corpo dele, temos uma comemoração não festiva, em relação a nossa perda. Comemoração é também celebrar, tornar célebre, inesquecível. Nesse sentido comemora-se, sim, os dez anos sem a presença cotidiana de Paulo Freire.

Fórum – De que forma a obra de Paulo Freire continua presente?
Cortella –
Eu recuso muito uma frase – e não é uma questão apenas de linguagem – sobre comemorar dez anos sem Paulo Freire. Existem pessoas, obras e idéias que não saem quando seu autor deixa de ter uma convivência cotidiana conosco ou, quase usando uma expressão religiosa, quando deixa de ter uma convivência material conosco. Paulo Freire teve, em 1997, a morte de seu corpo. Quem tem uma prática religiosa vai supor que ele mesmo não desapareceu. Mas, deixando a questão religiosa de lado, existe uma obra viva e um legado vivo de Paulo Freire. Nesse sentido, não são dez anos sem ele; nunca teremos um ano sem Paulo Freire. Sem ser triunfalista, nessa percepção, o legado dele é o que ele deixou de vitalidade nas pessoas, nos projetos, nas utopias. É aquilo que chamava de “o inédito viável”. Em 1997, tinha 76 anos, vinha produzindo e escrevendo bastante. Escreveu um texto publicado pela professora Ana Maria Araújo Freire, sua viúva, em um livro da Editora Unesp. É um texto muito forte, sua última produção viva, aqui chamada de Pedagogia da Indignação. Foi uma carta. Muita gente não sabe, mas Paulo Freire escrevia à mão, em folha sem pauta, com uma letra que ele e algumas pessoas compreendiam muito bem.

Fórum – Em reuniões com grupos que aplicavam seu método ele dizia que alfabetização não era a sua especialidade e, nesses momentos, entrava em ação sua primeira mulher, dona Elza…
Cortella –
Exatamente. Porque sua esposa, a Elza, ela sim era uma professora, uma mestra (como se diz no Nordeste até hoje). Tinha uma formação especializada nesse campo. Sempre foi uma docente, tal como sua viúva hoje, Ana Maria Araújo Freire, doutora em História da Educação. A Anita foi uma aluna dele quando estava no antigo ginásio, porque o pai dela era o dono da escola onde Paulo Freire ensinava. Isso lá no Grande Recife. Mais tarde, foi sua orientanda no mestrado, quando ele era casado com a dona Elza e ela, com outra pessoa. Aí, um dia, ambos ficaram viúvos, se casaram e viveram juntos, de 1988 até 1997. Há um belíssimo livro, chamado Paulo e Anita (Editora Olho d’ Água), em que Anita conta histórias estupendas dessa relação. Eu fiz a contracapa. É um livro muito gostoso, em que ela conta histórias da vida a dois. Exceto uma, e quem revelou fui eu, em outra publicação.
Paulo Freire era um homem que tinha um amor muito grande por Ana Maria Freire, assim como amou profundamente Elza Freire e todos os seus filhos. Era um homem que sabia ser repartido. Vi uma única vez ele ter uma demonstração de ciúme, num comício, em 1989, no Pacaembu. Era o primeiro comício do Lula, em sua primeira candidatura à Presidência. Paulo Freire estava com Anita. Na época, já estavam, claro, casados. Ela encontrou-se com um grande músico da MPB que lhe deu um beijo muito bonito, carinhoso, e a abraçou. E Paulo Freire achou que ela tinha abraçado o Chico Buarque. Desceu do palanque e foi a pé para casa, subindo, já com a idade que ele tinha, aquela ladeira do Pacaembu em direção à igreja Nossa Senhora de Fátima e à avenida Dr. Arnaldo, ali na Pompéia, na região onde morava. Ficou enciumado naquele dia. Anita contou a essa história no livro, sem contar o santo. E aí, um dia, eu disse para ela “vou revelar, porque aquilo é uma beleza”. Um homem que tem ciúme de quem ele teve é um homem inteligente.

Fórum – O que o Chico achou disso?
Cortella
– [risos] É o Chico Buarque de Holanda, um dos gênios da música, um homem muito sedutor, com uma capacidade artística muito grande, um homem bonito, encantador. E, claro, ter ciúmes do Chico Buarque era mais que compreensível, até uma honra naquela situação. Paulo Freire, humano, bastante humano, tinha essas condições de, inclusive, saber o que não sabia, o que é um princípio básico do conhecimento.
Aliás, uma das grandes lições que nos deixa é que quando a gente sabe que não sabe, dá um passo significativo na direção do conhecimento. Sócrates já houvera anunciado: “só sei que nada sei”. Mas uma coisa é anunciar isso, outra coisa é vivenciar. Paulo Freire vivenciava isso com muita força. Ele não tinha a chamada falsa modéstia, que é uma forma de cinismo. Aquele que é ator, quando você elogia, diz “bondade sua”. Ao contrário, sabia da importância dele e de sua obra. Ele sabia que sabia com os outros. Que o saber marcado pelo sabor é algo que se partilha.
Isso ele fez, por exemplo, quando secretário, de 1989 até maio de 1991. Era um democrata de altíssimo nível. Nunca esqueço uma vez que precisávamos mesmo virar a noite discutindo um tema, com toda equipe que coordenava a Secretaria. Lá pelas duas da manhã, deu fome. Fizemos o óbvio que se faz em São Paulo: encomendamos várias pizzas. E aí, claro, não usamos, como nunca se fez, dinheiro público para isso, embora tivesse até verba e seria admitido porque estávamos trabalhando. Mas fizemos a famosa “vaquinha”. Ele também colocou lá seu cheque, dividindo a pizza. Eu, sorrateiramente – um dia contei isso a ele -, tirei o cheque e pus o dinheiro na mesa. Tenho ele comigo até hoje. É um material que guardo, uma das minhas lembranças. E não passarei adiante o chequinho.

Fórum – Qual foi a contribuição de Paulo Freire para a África e outros países subdesenvolvidos?
Cortella
– Paulo Freire era o principal inspirador de projetos de educação em países do Terceiro Mundo, com sua obra publicada em 1968, Pedagogia do Oprimido, uma das mais reproduzidas no mundo todo. Esse texto serviu de inspiração a países do Terceiro Mundo, tal como se dizia na época, pois hoje são países subdesenvolvidos. Mas serviu também de inspiração a países do Primeiro Mundo. A obra de Paulo Freire, no que se refere ao diálogo, foi decisiva nos países nórdicos. Ele é o único brasileiro que tem, na Suécia, uma estátua ao lado de outras personalidades. Um homem cuja influência pelo mundo afora foi decisiva, em alguns locais como grande mito e, em outros, como uma perspectiva de visão epistemológica. Ele é um filósofo da educação. Não foi só alguém que produziu material no campo da educação em si, mas conseguiu fazer aquele chamado, ser um andarilho da utopia, caminhar pelo mundo afora e trocar correspondências com grandes pessoas de todo o planeta. Suas obras influenciam imensamente todo o pensamento pedagógico contemporâneo. Não dá para pensar na educação do mundo atual sem pensamento de Paulo Freire.
E há uma coisa curiosa: muita gente lê Paulo Freire hoje, obras como Educação como prática de liberdade ou Pedagogia da Autonomia, seu último livro lançado, e acham que é um pensamento óbvio. Ele escreveu há quarenta anos e, nesse período todo, educadores sérios começaram a trabalhar essas idéias. Lemos isso em outros autores, que leram em Paulo Freire. Então, quando as pessoas voltam ao original, começam a achar que é meio óbvio. Ao ler Pedagogia do Oprimido, é preciso levar em conta o universo vivencial da pessoa, o que ela tem, os temas geradores. Então, essas percepções circularam há meio século.
Quando nós passamos a saber e divulgar, a olhar para ele de novo, dá a impressão de que aquela visita é uma revisita. É uma obviedade falsa. Não se tem, de fato, aí, uma condição na qual ele não tenha criado. Ele criou muita coisa, trouxe muita coisa do existencialismo cristão, da fenomenologia. Há uma coisa forte do pensamento do materialismo dialético em Paulo Freire. Ele mescla e sabe fazer uma síntese, na qual parte para o cotidiano das pessoas. A expressão máxima é a idéia que a leitura da palavra deve ser precedida pela leitura do mundo. Se você precede a leitura da palavra pela leitura do mundo, para alfabetização de adultos, você terá um processo também de conscientização.
Existe uma filosofia do conhecimento, uma epistemologia, uma didática e uma pedagogia que compõem a possibilidade de se estruturar o método. Aliás, essa metodologia não pode ser separada dos seus procedimentos. O Mobral, vez ou outra, alegava que usava o método sem a metodologia e sem a ideologia, o que é impossível. Fazer a alfabetização da qual decorre o método está ligado à ideologia freiriana. Senão seria ensinar uma técnica que ensina a desenhar o nome, pois alfabetização também é interpretação.

Fórum – Paulo Freire reavaliou muito do seu próprio pensamento?
Cortella –
Quando ele escreve Pedagogia da Esperança, é uma revisita da Pedagogia do Oprimido, que sai quase trinta anos depois. Fez aí uma série de observações em relação ao conteúdo da época. Um homem como ele não perderia a possibilidade de se auto-criticar. Aliás, se há uma coisa que não apreciava, de fato, era a ortodoxia. Ele mesmo dizia que “fazer como Paulo Freire não é fazer o que Paulo Freire fez”. É fazer o que faria se estivesse aqui. Fazer o que fez Marx não é fazer agora o que ele faria, é fazer o que ele faria se cá estivesse. Então, ele tinha essa capacidade, inclusive, de não admitir que houvesse uma mistificação de seu trabalho.

Fórum – Como foi sua convivência com ele?
Cortella –
Tive contato com a obra do Paulo Freire, pela primeira vez, em 1973. Eu estava entrando no primeiro ano de filosofia, na universidade, e meu professor de metodologia científica, o Paulo Afonso Carlos usou um texto dele que era proibido, Educação como prática da liberdade. A gente até tinha uma cópia na época, mimeografada. Em 1977, já formado, comecei a dar aulas na PUC-SP. Naquele ano, comecei a ter aulas no mestrado com o professor Moacir Gadotti. Até o ano anterior, o Gadotti tinha trabalhado com o Paulo Freire em Genebra. Então, passei a ter um contato mais próximo com o Gadotti e mais ainda em 1979, a partir da fundação do PT. Logo depois, participei da organização inicial da Fundação Wilson Pinheiro [sindicalista assassinado no Acre], da qual o Paulo Freire era um dos próceres. Gadotti se tornou meu orientador no mestrado. Então, comecei a ter essa convivência com o pensamento e com o próprio Paulo Freire. Em 1988, Luiza Erundina foi eleita prefeita de São Paulo e Paulo Freire foi o primeiro secretário por ela escolhido. Fui um dos chamados pelo Gadotti para compor essa equipe e passamos a ter uma convivência mais cotidiana.
Montou uma equipe com ele para gerir a secretaria, embora já tivesse dito que não ficaria os quatro anos porque achava que tinha a tarefa de organizar o projeto, coordenar a equipe, mas que ficaria apenas a metade do mandato, para viajar, escrever mais livros e, portanto, preservar a liberdade para sair pelo mundo.
No primeiro ano da gestão dele, em 1989, o Gadotti era o chefe de gabinete e eu era o assessor especial; em 1990 nós invertemos a posição, o Gadotti foi o assessor especial e passei a ser o chefe de gabinete, ou seja, secretário adjunto, aquele que o substituía. Em maio de 1991 foi quando saiu e continuei como secretário, aliás, ele fez a sugestão à prefeita para que eu coordenasse a equipe que ele já montara.
Quando deixou de ser secretário, já não orientava mais trabalho na universidade, exceto eu, que fui o seu último orientando. Aliás, Paulo Freire faleceu duas semanas antes da minha defesa. Não consegui remarcar, só em junho, depois de um mês, quando então convidei para compor a banca, no seu lugar, a professora Ana Maria Freire, que participou, para minha alegria, do exame.
Mas tive o que chamo de melhor curso de alfabetização de adultos que existe. Porque, como chefe de gabinete, todos os dias, quando dava 18h30, tinha que entrar na sala dele com 250, 300, 400 documentos. Ele assinava a documentação porque a burocracia é grande: há gente que pede licença, ordem de compra, tudo. Era um gesto automático, que ele fazia em uma hora e meia. Cabia a mim sentar do lado dele, pegar aquela pilha de processos e documentos e deliberações, passava um, ele assinava, eu tirava, passava outro, ele assinava, eu tirava, era um processo automático, tanto dele como meu, porque todo o preparo anterior já tinha sido visto. Nós ficávamos conversando sobre vida, trabalho, sexualidade, educação… Sempre foi um homem alegre, ele sempre soube que a alegria e seriedade não são sinônimos de tristeza. Uma das coisas que ele mais gostava era de música. Você chegava na casa dele e sempre tinha música ao fundo.

Fórum – O que mais ele gostava de fazer?
Cortella –
Era um apreciador universal do esporte e, claro, gostava de contar histórias, tinha bom humor. Tinha uma que sempre contava e ria muito, que era um dos momentos clássicos da vida dele. Quando foi preso, no golpe militar, em 1964, estava em Brasília e depois foi levado para o Recife. Na primeira semana em que estava preso, o capitão que tomava conta dos recrutas no quartel foi até ele e disse: “professor, soube que o senhor é um grande educador, que tem a capacidade de alfabetizar as pessoas… nós temos muitos recrutas analfabetos aqui, será que o senhor poderia alfabetizá-los?” Ele riu e disse: “mas menino, é exatamente por isso que eu estou preso” [risos].
Contava também que, quando foi visitar uma universidade na África, o reitor foi recebê-lo no estacionamento e, entre o estacionamento e a entrada da reitoria tinha um gramado. O reitor, um senhor de quase dois metros, cabelos brancos, da comunidade zulu, segurou sua mão e os dois atravessaram o gramado de mãos dadas. Paulo Freire pensou: “meu Deus, se um outro brasileiro me encontra agora….”. Quando entraram na reitoria, o reitor disse: “professor, posso perguntar uma coisa? Quando nós estávamos caminhando, eu segurei sua mão e o senhor parece que reagiu mal” e ele: “sabe o que é, no meu país os homens não andam de mãos dadas”. E o reitor disse: “nossa, deve ser um país muito estranho o seu” [risos].

Fórum – Paulo Freire é o nosso brasileiro mais ilustre?
Cortella –
Acho que ele não acharia isso e também que não seria bom se achasse. Acredito que ele acharia que o brasileiro mais ilustre é aquele que não desistiu, seja quem for. Sem ser demagógico nisso, diria que o brasileiro e a brasileira que forem incansáveis na luta por uma vida humana mais feliz, esses são ilustres. Aquele que achar que a história está aberta para que nós criemos, como dizia ele, a capacidade de esperançar, já que não aceitava esperança do verbo esperar. Dizia que tem que ser esperança do verbo esperançar. E esperançar é ir atrás, é juntar, é não desistir.



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1 comment

  1. nena Responder

    Li a pagina toda e é interessante saber de fatos e historietas simples e até engraçadas que o ilustre mestre Paulo Freire viveu. E por mais que si tivesse pra contar, tenho certeza que tal leitura em momento algum se tornaria cansativa e/ou desinteressante ppte por serem contadas de forma simples, natural e descontraída como o tambem, mestre Mario Sérgio Cortella-o faz sempre, com facinio e entusiasmo. Parabéns!!!! Zimar f. Silva – Unicamp