Poesia viva

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Em São Paulo, tem gente que, quando quer falar de um fim de mundo, um lugar distante e inacessível,...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Em São Paulo, tem gente que, quando quer falar de um fim de mundo, um lugar distante e inacessível, diz “lá em Xiririca da Serra”. A maior parte das pessoas que falam isso pensa que esse é um lugar imaginário. Mas Xiririca da Serra existe, fica no Alto Vale do Ribeira, só que mudou de nome: passou a se chamar Eldorado Paulista.
A cidade, terra de Francisca Júlia, grande poeta parnasiana, fica na entrada de uma região que tem a maior quantidade de grutas do Brasil, talvez do mundo. Entre elas, a Caverna do Diabo, que virou ponto turístico numa época e fez algumas pessoas da cidade pensarem que Eldorado passaria a receber muita gente, muitos turistas. Um morador chegou a abrir um hotel grande para os padrões da região, esperando a chegada desses turistas. Mas eles passavam reto, iam à Caverna do Diabo e voltavam sem parar em Eldorado. A cidade continuou parada, sem “progresso”, e por isso mesmo um lugar do qual eu gostava muito.
Numa das vezes em que fui lá, em 1976, vi um monte de gente entrando num antigo prédio, que parecia ser de um cinema que não funcionava mais, e parei num boteco ao lado. Um rapaz, com aparência muito nervosa, tomava uma cachaça e perguntei a ele o que estava acontecendo. Era um concurso de declamação de poesia que começaria dali a pouco. Ele era professor de uma escola rural e iria participar, declamando um poema da própria Francisca Júlia. Estava nervoso por isso. Muito nervoso. Gostei. Paguei mais uma cachaça pra ele, depois outra, e tomei algumas também. Conversamos até um pouco antes de chegar a vez dele declamar, já bem mais calmo, mas um pouco chumbado pelo álcool.
Em outra viagem, pesquisando a nossa cultura popular, estive lá novamente. Além de artesãos que faziam belos covos de taquara, havia nas redondezas os que trabalhavam com cipó ou barro, outros que faziam rabecas e violas. Estava com um colega de trabalho e ficamos sabendo de uma comunidade parada no tempo, na margem esquerda do rio Ribeira, e fomos lá. Saímos de Eldorado rumo a Iporanga, por uma estradinha de terra, e chegamos a um lugar que dava acesso a essa comunidade, chamada Barra do Braço. A chegada era de canoa, depois de deixar o carro na beira da estrada e atravessar o rio com um menino de cerca de dez anos remando, enfrentando a correnteza forte, carregando alguns marmanjos, inclusive eu.
Na Barra do Braço, fiquei muito surpreso com o “atraso” de um pedaço do estado mais rico do Brasil, a menos de 200 quilômetros da maior e mais rica cidade do país. Lá, muita gente não conhecia luz elétrica. Não havia um povoado, mas casas esparsas, em que as pessoas só andavam a pé, por trilhas que subiam e desciam morros, e o único meio de transporte de carga era burro. Nem carro de boi passava pelas trilhas, muitas vezes cercadas pela mata.
Uma velhinha nascida naquele lugar, e que sempre morou lá, estava admirada fazia alguns dias. Ela havia conhecido poucos dias antes uma cidade! Nos mais de 70 anos que antecederam aqueles dias, ela nunca tinha visto uma área urbana, mas enfim, já podia morrer sossegada: conhecia uma cidade, Iporanga, que na época tinha cerca de 900 habitantes. E estava admirada demais, não parava de falar:
— Nunca imaginei que existia tanta gente no mundo!



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