Poncho e gravata na presidência da Bolívia

É assim que o MAS de Evo Morales quer acabar com sua imagem de extremista e garantir a governabilidade na sua gestão. O nome do sociólogo e intelectual Álvaro García Linera, como vice na...

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É assim que o MAS de Evo Morales quer acabar com sua imagem de extremista e garantir a governabilidade na sua gestão. O nome do sociólogo e intelectual Álvaro García Linera, como vice na chapa, faz parte dessa estratégia

Por Pedro Dantas

 

Há pelo menos dois anos a Bolívia vive uma situação de completa instabilidade econômica e social que detonou uma série de manifestações populares que derrubaram dois presidentes (Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro de 2003 e Carlos Mesa em junho de 2005). Agora, o país vive a expectativa em relação às eleições gerais de dezembro e o ambiente continua conturbado. De um lado, uma parte das lideranças sociais articula uma espécie de trégua nos protestos e bloqueios de estradas para garantir um mínimo de estabilidade até a definição dos rumos políticos do país. Em direção contrária, o Congresso ameaça postergar o pleito alegando impossibilidade técnica por falta de tempo. O favorito nas pesquisas, o líder cocaleiro Evo Morales do Movimiento al Socialismo (MAS), refuta a idéia dizendo tratar-se de uma manobra política para dar tempo a seu adversário “Tuto” Quiroga, do Poder Democratico Social (Podemos) , ganhe fôlego para sua campanha.
Embora esteja fortemente identificado com os cocaleiros e setores mais populares da população, Evo procura romper a imagem de liderança extremista e radical vinculada aos enfrentamentos sociais que geraram mais de uma centena de mortos. Faz isso não apenas em busca de novos votos, mas para evitar dificuldades no diálogo político, tanto no âmbito nacional como em suas relações com outros países, caso sua vitória se confirme. Por isso o MAS trouxe para a sua chapa o sociólogo Álvaro García Linera, de 44 anos, candidato a vice-presidente. Dono de expressiva popularidade midiática, o professor universitário, ex-analista político de televisão e ex-guerrilheiro do Exército Guerrilheiro Túpac Katari, é a principal referência das articulações e da elaboração do plano de governo do partido. Afinal, nas palavras do próprio Evo Morales “A Bolívia necessita de um governo de ponchos e gravatas”. Confira abaixo trechos da entrevista com o candidato a vice-presidente da Bolívia.

O que o convenceu a aceitar essa candidatura junto ao MAS?

A compreensão intelectual de que vivemos um momento de inflexão histórica, que pode tanto nos levar ao despenhadeiro como a um novo ciclo político e econômico pós-neoliberal. Pela primeira vez podemos ter um indígena como presidente da Bolívia. Nunca mais à Bolívia sem índios.

Observa-se na América Latina, nos últimos 20 anos pelo menos, uma forte ingerência de políticas econômicas ditadas pelo Banco Mundial e o FMI. Como o senhor pretende lidar com essa questão?

Está muito claro que as políticas de livre mercado e privatizações no país tiveram um resultado catastrófico. Temos uma economia com um crescimento medíocre, os índices chegam a 3,5% nos melhores momentos e a média é de 2% ao ano. Temos taxas de desemprego crescentes e um mercado interno que não conseguiu consolidar-se. As exportações cresceram, mas isso não gerou bem-estar nem diversificação na economia do país. Sabemos que foi um erro catastrófico apostar no livre mercado quando o país nem sequer tinha um mercado interno. Não mudaremos as regras do jogo, respeitaremos os investimentos estrangeiros e os contratos, mas não delegaremos mais aos investidores externos a condução da economia como acontece hoje. Para o futuro, vislumbramos sim políticas de abertura de mercado. O mundo está globalizado desde o século XVI e isso vem se intensificando, mas precisamos nos vincular à globalização de forma inteligente. Que chance tem um camponês indígena boliviano que cultiva sua terra da mesma forma como fazia no século XVI de competir com um agricultor munido de tecnologia agrícola e transgênica? Um economista inteligente, com um mínimo de bom senso, sabe que há áreas que precisam de proteção. Não podemos mais nos jogar aos braços do livre comércio, já fizemos isso nos 80 e 90 e os resultados são catastróficos. Não faremos mais isso.

Na política exterior boliviana há uma questão recorrente, o Chile. Como vocês se posicionam em relação a isso?

Essa é uma questão irrenunciável, precisamos de uma saída direta para o mar. Mas também temos consciência de que se pode chegar a pontos de vista mais abrangentes a partir do próprio tema do comércio, para que vejamos isso como um problema continental, e não apenas boliviano. O Chile é um mercado importante para o país e nossas relações comerciais têm crescido nos últimos anos. As oportunidades e facilidades para exportar por portos chilenos são valiosas e há uma enorme possibilidade de converter o Chile em consumidor de energia e gás boliviano. Mas todas essas questões estarão subordinadas e trabalhadas de forma paralela àquele ponto maior: nossa saída ao mar. Esperamos que a nova presidenta, que acreditamos que será Michelle Bachelet, dê um enfoque distinto à questão. Para nós, em primeiro lugar, a soberania; em segundo relações comerciais e em terceiro a integração energética. São três questões que temos com o Chile, com essa ordem de importância. Essa ordem não será mudada.

Em que consiste o projeto de nacionalização dos recursos naturais do país que o MAS propõe?

A nacionalização que o MAS propõe é a recuperação do controle por parte do Estado e da nação do conjunto dos recursos naturais. Para isso há vários caminhos. Com a nova lei já demos um importante passo, o passo seguinte é garantir que o Estado possa regular os preços tanto interna quanto externamente. A possibilidade de usar o gás para a indústria no próprio país tanto em projetos de GTL (que prevê a produção de 10.000 barris de diesel por dia na Bolívia) como em projetos de metanol precisa ser definida pelo estado e não pelos investidores estrangeiro. Outro ponto da nacionalização é que o Estado assume a iniciativa de ser sócio majoritário de projetos de industrialização do gás. Um dos grandes compromissos do MAS é industrializar o gás e quem fará isso é a Companhia Petroleira Nacional. Por fim, é importante que o Estado assuma o controle, dentro das regras do jogo, de duas grandes empresas que são Chaco e Andina. Nesse momento somos proprietários, respectivamente, de 45% a 48% de cada uma delas. Existe a possibilidade, sempre respeitando as regras do jogo do comércio internacional, de nos convertermos em sócios majoritários delas comprando ações para alcançar o controle acionário.

As empresas petrolíferar dizem não ter mais recursos para investimentos. O que vocês farão a respeito?

Estamos muito preocupados com as atitudes dessas empresas. Primeiro, elas nos ameaçam com julgamentos. Depois, ameaçam com a não construção do tal gasoduto e isso afeta todo o país. Somos produtores de petróleo e observamos o mesmo racionamento que existe no Chile, que é importador. Essas coisas não nos agradam, sabemos que são mecanismos de negociação, mas as empresas petrolíferas terão, por nossa parte, um posicionamento mais duro. Não aceitamos chantagens nem bravatas. Respeitamos seus investimentos, queremos que invistam, mas que deixem também uma boa parcela de seus lucros aqui.

Fala-se muito de uma possível aproximação com a Venezuela, que estaria auxiliando a candidatura do MAS com o intuito de criar uma força aliada na América do Sul? O que há de verdade nisso?

Evo Morales tem enorme respeito e simpatia pela administração de Hugo Chávez, justamente por ela proporcionar crescimento aos setores mais desfavorecidos da sociedade, o que é um fato inquestionável. Quanto à unidade latino-americana, acredito que isso seja, sim, uma importante referência. Mas é um assunto muito menos importante do que a questão da inclusão social, que é, na verdade, condição importante para se pensar em uma união latino-americana a longo prazo. Garanto, porém, que, apesar dessa simpatia, teremos aqui a mais absoluta independência e autonomia política. Assim como não chegarão leis redigidas em inglês, também não chegarão instruções políticas de Caracas.

Como vocês vão lidar com a questão dos cocaleiros?

A produção da folha de coca na Bolívia, desde 1988, se reduziu de 50 mil a 27 mil hectares. E, à medida que a produção diminuía na Bolívia, crescia na Colômbia e no Peru. Então, amanhã podemos erradicar 40 mil hectares na Colômbia e então teremos outro país que as produzirá. Enquanto houver demanda, haverá oferta, é a própria lei do livre mercado. Por outro lado, exigimos que, na Bolívia, se faça uma distinção daquilo que é cultivo legal e tradicional de sua potencial utilização como matéria-prima da fabricação de drogas. São duas coisas distintas. Nos últimos 15 anos tem se tentado relacionar essas coisas e isso é o mesmo que culpar o fabricante de estanho na Malásia de ser o culpado pelas balas usadas em Bagdá para matar soldados norte-americanos. Isso é irracional e é o que se faz no caso da folha de coca. Os cultivos de coca geram aos produtores cerca de 1500 a 2000 dólares por ano por hectare. A substituição pagava 2000 dólares, muito bem. No primeiro ano o produtor recebia 2000 dólares, mas nos anos seguintes já não recebia nada. Então, três, quatro anos depois, ele volta a produzir a folha de coca. Queremos substituir os cultivos, mas a longo prazo.

Pedro Dantas é jornalista e documentarista. Diretor da série documental ¿Onde Está América Latina?
www.ondeestaamericalatina.com



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