Prosa e poesia

Nesta edição, Viva Letra traz o gênero poesia pela primeira vez: os versos dos poemas Velório e Rosa, de Luís Alberto Cinquarole Bellíssimo, professor de literatura em escola pública na cidade de Catanduva, interior...

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Nesta edição, Viva Letra traz o gênero poesia pela primeira vez: os versos dos poemas Velório e Rosa, de Luís Alberto Cinquarole Bellíssimo, professor de literatura em escola pública na cidade de Catanduva, interior de São Paulo; a prosa poética do jovem músico Gabriel Machado, Escuridão, inquietante fusão de existencialismo e cinema, e o conto Cidade, do professor de idiomas e agricultor Joel Albus, que se constrói como prosa valendo-se da linguagem poética.

Por Edição Eduardo Maretti

 

Etcétera

Livros versus crime 
Deu no jornal britânico The Guardian: o prefeito da cidade de Nezahualcoyotl, subúrbio da Cidade do México, Luís Sanchez, decretou que os 1.100 policiais municipais serão obrigados a ler pelo menos um livro por mês. “Nós acreditamos que a leitura vai aperfeiçoar seu vocabulário e sua escrita, vai ajudá-los a se expressar melhor, a ordenar suas idéias e a se comunicar com o público. A leitura os fará melhores policiais e melhores pessoas”, justificou o prefeito Sanchez. Entre os livros recomendados, estão O Labirinto da Solidão, de Octávio Paz (publicado no Brasil pela Paz e Terra), Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez (Record), o clássico Dom Quixote (de Miguel de Cervantes), o Pequeno Príncipe, além de vários romances e contos policiais, sobretudo de Edgar Allan Poe, Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Se virasse moda, seria uma revolução mundial.

Filosofia para iniciantes 
A Jorge Zahar lança este mês ABC da Relatividade (176 páginas, R$ 33,00), do filósofo Bertrand Russell. O livro foi concebido pelo autor para dar corpo à idéia de popularizar o conhecimento. A editora divulga a obra como “um guia, para leitores não-iniciados em matemática e física, das teorias da relatividade especial e geral de Albert Einstein”. Russel publicou mais de 40 livros sobre temas variados: educação, política, história, religião, ética, ciência e outros. É considerado grande mestre em lógica, matemática e filosofia analítica. O autor ganhou o Nobel de Literatura em 1950. Pacificista, fundou em 1958 a Campanha pelo Desarmamento Nuclear.

Susan Sontag Mais de 40 textos escritos nos últimos 20 anos pela escritora norte-americana Susan Sontag estão reunidos em Questão de Ênfase (Cia. das Letras, 448 páginas, R$ 52,00). Atenta à literatura e à produção cultural dos quatro cantos do mundo, a autora diz o seguinte de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “um dos livros mais divertidamente não-provincianos jamais escritos”. O argentino Jorge Luis Borges, o francês Roland Barthes, o russo Joseph Brodski são alguns dos outros escritores analisados no livro. Sontag morreu em dezembro passado de leucemia. A Doença como Metáfora (1984), escrito quando a ensaísta lutava contra um câncer de mama, e Notes on Camp (1964) são dois de seus principais livros.

A história continua
“Sempre se aprende muito mais com o adversário do que com o aliado”. Assim o jornalista Enrique Gil Calvo, do jornal El Clarín, de Buenos Aires, justifica a importância de se ler o novo livro de Francis Fukuyama, Construção de Estados (172 páginas, R$ 26,00, ed. Rocco), aquele mesmo pensador aliado do Consenso de Washington que escreveu em 1989 que a História havia acabado. No lançamento da Rocco, Fukuyama discorre sobre a importância de se fortalecerem as instituições dos estados “débeis”. Claro, sob a ótica norte-americana.
A Escuridão
Gabriel Machado

Supõe algo escuro
Trata da visão
Ausenta-se a luz
Sugere ambigüidade
Come dúvidas e não digere
Fala do Obscuro
O horror do irrompimento ao inconcebível
Ingenuidade
A Escuridão não se vê
Ela existe

Algo escuro
Nos bastidores da Escuridão nada se percebe por querer sem antes imaginar. Quando se percebe sem querer… é tarde.
Ninguém entra sem antes convidar-se. Ninguém entende sem participar. Ninguém está seguro sem entender.

Visão
A mente escura é aquela que percebe ou aquela que não percebe a Escuridão?

Ausenta-se a luz
A luminosidade extrema da Escuridão escurece a luz.

Sugere ambigüidade
A mente escura é aquela que percebe ou aquela que não percebe a Escuridão?

Come dúvidas e não digere
Nos bastidores da Escuridão nada se percebe por querer sem antes imaginar. Imaginação causa dúvida. Na Escuridão o concreto é possível, mas não palpável.

Fala do Obscuro
O Obscuro aterroriza as mentes leigas à Escuridão.

O horror do irrompimento ao inconcebível
O inconcebível, quando concebido, horroriza e atordoa a direção do ingênuo.

Ingenuidade
O ingênuo é horrorizado e atordoado quando percebe o escuro inconcebível.

A Escuridão não se vê
Durante o caminho iluminado pela luz da rua, ele passa pelo escuro e não o vê… mas sabe que tudo o que não pode ser visto é possível estar ali.

Ela existe Durante o caminho ele imagina que no ponto escuro pode haver um ladrão. Sente-se perseguido por olhos escuros. Há muitos destes pontos escuros, e ele entra em um pânico interior, indiferente na atitude física e perturbado mentalmente. Imagina a facilidade que qualquer coisa tem em surpreendê-lo ali, no ponto escuro.
Pode haver ali, pensa ele, tudo o que não pode ser visto. Pode haver atrocidades, pode haver a morte, dele ou de outro.

Tomado por este pensamento ele está absorto, e surpreende-se ao avistar, ao longe, um outro, caminhando em sua direção. Sua surpresa é maior quando percebe que, preocupado com o intruso em igualdade de condições, encaminha-se para as entranhas do próprio pânico. Ele encosta à margem da iluminação, dentro de uma sombra donde tudo poderia ter saído. Leva todo o seu pânico e imaginações para dentro da Escuridão. E lá está o homem, pensando e tornando-se tudo o que pensa, esperando o outro passar, na segurança da escuridão.

No entanto, o outro encosta à mesma lateral da rua, à margem da luz.

Agora ele não sabe se espera que o outro surpreenda-o em sua própria sombra ou se sai para ser surpreendido sob a luz.

Gabriel Machado é músico.

Cidade
Joel Albus

Caminhando pelas ruas da cidade, observo o movimento contínuo que cada um de seus componentes perfaz, fragmentando o tempo, compartilhando um espaço superaquecido.

A música diurna são os roncos e buzinas das máquinas que deambulam, os resíduos de conversas e monólogos absorvidos ao longo das calçadas. Embora esquecido, o céu se abre em azul sobre as cabeças e, silencioso, recebe gases, alegrias e sofreres da cidade. Nestas paragens, a pedra compõe enquanto utilitária, assim como os corpos que vão e vêm em ritmo de faina.

Os números da lista telefônica se reproduzem entre as paredes. O mapa urbano é uma pintura na parede da caverna. Cada traço sobre a pedra constitui um mundo de representações humanas, de interações e atividades que flutuam no asfalto, como se este fosse um mar de humanidade. Uma humanidade de bem e mal intermutáveis a cada passo. A alegria de um caldo de cana na esquina. O desespero abafado pelo sinal vermelho.

Quase tropeçando num mendigo, ganho da urbe como esmola uma falsa alegria de coletividade, de não estar só. Mas o pulsar de cada peito me escapa no ritmo ligeiro dos caminhares. Todas as possibilidades engaioladas num
engarrafamento.

Como uma flor, eis a bodega que se abre entre as fachadas da avenida. Cheiro de pão. Uma parada para o cafezinho, fruindo o dia que acelera como um ônibus pendendo na curva. Cidade, a máquina viva cujo combustível são nossos nervos e sonhos. Engrenagens que se lubrificam com suor, esperma e esperança. Máquina que se desdobra, multiplicando olhos e braços, pernas que a percorram, bocas que a consumam para que maior se torne. Como a antiga lenda do Golem, um monstro de barro que não parava de crescer. A forma é humana, a fome é titânica.

Joel Albus é professor de idiomas e agricultor

Rosa

Fêmea
morte e vida
teu seio abriga
e há sempre uma haste
a fazer-te a graça
Taça
sangras há milênios

Velorio 
O morto está
A face vazia não fossem as reminiscências
em nossos lábios
Somos recordações do morto

O ataúde preenche a sala
Procuramos os vazios
mas só cabemos no morto

O morto nos constrange
Saímos de sua vista
para as irreverências
Esvaziamos

As luzes circunspectam o presente
O morto fecha o cerco
Vasos estamos
O morto é

Luis Alberto Cinquarole Bellissimo é professor de literatura e mora em Catanduva, interior de São Paulo.



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