Provocação, ironia e política

Nesta edição, Viva Letra traz o provocante texto Os pentelhos podados nos lados, abundantes, com um traço em declive no meio, capítulo do romance Marx e Ogum no Alto da Sé, do jornalista Marco...

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Nesta edição, Viva Letra traz o provocante texto Os pentelhos podados nos lados, abundantes, com um traço em declive no meio, capítulo do romance Marx e Ogum no Alto da Sé, do jornalista Marco Albertim. O enredo é ponteado pela ironia e perpassado pela discussão política. O autor é colaborador do site La Insignia (www.lainsignia.org), no qual tem publicado seus textos literários.

Por Edição Eduardo Maretti

 

Etcétera
Semi-Árido e Cordel
A cultura da região do semi-árido brasileiro é tema do livro didático Conhecendo o semi-árido, fruto de parceria entre Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) e Rede de Educação do Semi-árido Brasileiro (Resab), formada por educadores e por instituições governamentais e ONGs ligadas à educação na região.O problema é que o volume está pronto para ir à gráfica, mas não dispõe de verba para a impressão. O objetivo do livro, dirigido às 3ª e 4ª séries do ensino fundamental, é apoiar os professores nas aulas sobre a região do semi-árido sem os estereótipos dos didáticos do Sul e Sudeste do país, que ignoram a multiplicidade cultural do povo e da cultura da região e reproduzem o sertanejo “como uma pessoa magra, faminta, pedinte e atrasada”, diz Josemar da Silva Martins, professor da Uneb, consultor do livro e membro da Resab. Para os organizadores, o livro é importante principalmente considerando que há cerca de 11 milhões de crianças em idade escolar na região. Mais informações com Josemar da Silva Martins, pelo telefone (74) 3611-2808.

Gramática e cordel
Por falar em Nordeste e livros didáticos, o poeta e cordelista paraibano Janduhi Dantas é autor de um volume bastante interessante: Gramática no Cordel, edição do autor. A obra é valioso instrumento para o ensino da gramática, matéria árida para muitos, mas que, no livro, pode-se aprender brincando. Inovador, o autor se vale da linguagem do cordel enquanto poesia e cultura popular para o ensino da língua. O próprio Dantas explica nos versos: “Balançando-me na rede/ Comecei a explicar/ A gramática pros meninos/ Em métrica/ Os versos a rimar…/ Esforcei-me pra que eles/ Um dez pudessem tirar”. Um exemplo das muitas lições de gramática de Janduhi Dantas: “Pronome oblíquo no início/ Da frase não pode haver:/ ‘Me dê um cigarro, moço’/ É possível se dizer/ Contudo ‘Dê-me um cigarro’ é o correto se escrever”. O autor diz estar procurando editores interessados. Para os professores, o interesse é óbvio. O telefone de Janduhi Dantas é (83) 421-9877.

Os pentelhos podados nos lados, abundantes, com um traço em declive no meio
Marco Albertim
Dançaram sob a luz brumosa
do Maconhão. Mesas vazias. Dois casais urdiam a continuação do
delírio noutro retiro, em alcova multicor, como os olhos chispando liamba. Maújo e Francis, unidos desde o começo pelo desvario da rumba, afrouxavam, atenuando
indivisas culpas.

Gertrude sugerira uma reunião com base em que artigo dos estatutos? Desarticulada há muito do Partido, queixava-se da ausência de guia, para não cair no desatino pequeno-burguês. Dizia-se amputada; longe da direção, com o exercício da autocrítica garantia a manutenção do perfil de esquerda.
Nada de sugestão! Tirara proveito da deixa de Maújo para convocar a reunião, retomando com orgulho, vaidosa, o antigo pragmatismo que lhe dera fama de militante cricri. Queria travar a luta de classes no relacionamento pós-amoroso, não dar trégua a simulações de amor. “Camarada Maújo, eu o acuso de manipulação de sentimentos!” Gertrude não podia convocar um júri, formalizar acusação. Podia juntar um arrazoado classista, duro, dramaticamente rubro, para opor o comportamento anárquico dele ao código proletário engendrado por sua lógica relâmpago. “Une petite réunion!”; o francês inesperado à luz proscênica do farol, incensando desconfianças. Ah, Gertrude… Na cama, insurrecional; na luta de classes, animosa.
Maújo usou todo o estoque de fichas e comprou mais; mudava de música e, via de regra, voltava à primeira. Francis, coquete, sabia que sua silhueta passeava na manipulação que ele fazia da letra. Deixou-se conduzir por síncope, na inflexão do cantor, nos volteios do corpo, no rum amargo, na lambujem dos beijos. Logo o sol filtraria luz nas telhas, mostrando o chão poento, um verso fescenino rabiscado na parede, a porta de saída. A luz indesejada podia significar ou trazer a possibilidade de ruptura do contrato que tivera como único aval o bastão do maestro.
– Mais duas doses
Quis dizer: não desçam a cortina. O garçom trouxe os dois runs. Maújo não era de dar gorjetas, mas deixaria o troco na mesa como parte da celebração; dupla celebração porque não teria que sentir remorsos depois que fodesse com Gertrude; e sentiria o gozo do macho na fêmea nunca vista, só espreitada, ali, disposta a emprenhar com a fecundidade de sua sintaxe, de seu caralho. O dia os flagrou com os cotovelos sobre o frio mármore da mesa. A umidade dos copos, fragmentos de gelo no reboliço dos dedos no rum, um prato com azeitonas e palitos, inundados. A mesa era um repositório de bactérias, de crenças jorradas; um altar recém-venerado, sem toalhas. A despesa veio em nota com cabeçalho ocupado por lilases roxas; o papel recendia a patchuli, como o fino gargalo de Francis.
– Ningún passaron!
O garçom embolsou a gorjeta, deu com a mão e não homenageou La Passionaria.
Na pousada à beira-mar os gritos de banhistas abafavam os gemidos de Francis. Toda a praia fora tomada pela arraia-miúda do arrabalde.
– Um dia isso aqui será um balneário sem sífilis.
Maújo fazia do costume de dar chances à rafaméia um ofício. Três temas o comoviam em particular: cultura, lazer e saúde. Entretinha-se nas carnes de Francis sorvendo a viração marinha, purgando-se sentenciosamente sobre o devir. O corpo branco dela, estremecendo sob a lixação de sua língua, servia de embalo às convicções políticas.
– Você já teve sífilis?
Sabia que ele não tinha. Mas quis provocá-lo, conhecer pormenores da carnação. Ele falou do mal-de-coito para familiarizá-la com as intimidades do sexo. Ouviu-o sem repulsa. Era a primeira vez. Queria sugar cada pingo de sua luxúria.
– Nem sífilis, nem gota. Tenho uma papa muito grossa nos escrotos.
Francis riu, pressentindo a luxúria de Maújo nos limites, riu feliz com a possibilidade de se apropriar da fervente luxúria. Ele, celebrante, manteve o decúbito com o tórax sobre o ventre dela; sentiu nas escamas do rosto mal barbeado, a coifa escura dos pentelhos podados nas laterais, com um traço em declive no meio. A felação mútua levou-a ao estupor. Maújo estremeceu, inda que interruptivo, ao cravar as unhas no colchão de onde veio a lembrança dos recontros com Gertrude. A ruptura proposta por ela, desobrigara-o de reparos. Gertrude se fora, devolvera-lhe o anel cuja safira refletira as primeiras fodas dos dois. Sentiu-se, pois, único legatário sem encargos de foro. Julgou-se usurário, não viu diferença entre os remorsos e o pesar pelo esbulho cometido. Sopesou o anel enquanto Francis se deixava amumiar. A safira não refletia os espasmos da boca de Francis. Trouxe-a para perto do tórax. A pedra há muito embaçara, era um saponáceo; como seu coração em relação a Gertrude, vago e desculto. Francis imaginou que a oscilação das águas irrompera na janela mourada, e regurgitou sem fôlego sob o jato do esporro.
Dormiram nus sobre o lençol úmido de suor e de plasmas; dormiram para restaurar as forças. Acordaram com o calor, com o ruído dos banhistas. A janela fora aberta. Abraçados, julgaram-se acima das ondas.
Depois do banho de mar, voltaram para o Maconhão. Na mesma mesa, o mesmo garçom. Ovos com presunto, pães fatiados, margarina, suco de laranja. A celebração não fora interrompida. A Wurlitzer arrotava com fastio o mesmo acorde sensual da noite.
Francis penteara os cabelos. O rosto sardento dava-lhe a aparência de um leãozinho. A encolhida alegria da boca, com movimentos circulares no queixo, realçando a sonoridade dos acordes. Quis voltar para a pousada. Maújo deu-lhe a chave do aposento, disse que queria andar, juntar idéias. Foi assuntar o juízo na quietude do Alto da Sé, numa pedra de cantaria à sombra de um fícus de copa fechada.

Capítulo do romance Marx e Ogum no Alto da Sé.
Marco Albertim é jornalista.



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