Quem são os comunistas no poder

Ao longo do tempo, o PCdoB saiu da clandestinidade, passou pela luta armada e hoje detém a presidência da Câmara. Mas qual é a idéia de socialismo que move o partido hoje? Por Renato Rovai  ...

1095 0

Ao longo do tempo, o PCdoB saiu da clandestinidade, passou pela luta armada e hoje detém a presidência da Câmara. Mas qual é a idéia de socialismo que move o partido hoje?

Por Renato Rovai

 

Nunca na história do Brasil os comunistas tiveram tanto poder institucional quanto passaram a ter com a vitória de Aldo Rebelo para a presidência da Câmara dos Deputados. É verdade que o comunismo dos dias de hoje sofre de um preconceito bem menor e não causa urticárias em tanta gente, como registra o historiador Jacob Gorender. “O fato de ser do PCdoB não tem nenhuma importância. A sigla não assusta mais ninguém. Não assusta a burguesia. Vai depender do que o Aldo vier a fazer e não do que a sigla significa.”
A história do comunismo no país já soma 83 anos. Em 1922, foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB). A palavra “do”, explica Altamiro Borges, editor da revista Debate Sindical e membro da direção do PCdoB, remetia a uma seção da terceira internacional comunista. “No Brasil, o partido nasceu com uma peculiaridade, formado por muitos militantes do movimento anarquista.”
Um episódio bastante revisitado, principalmente por conta da obra de Fernando de Morais, Olga, é o do levante comunista de 1935. Liderado por Luiz Carlos Prestes, aquele movimento acabou sendo sufocado pelo governo de Getúlio Vargas e desarticulou um partido que crescia com força. Em 1937, Vargas se apóia na ameaça comunista para decretar o Estado Novo e coloca o partido pela primeira vez na ilegalidade.
O PCdoB é criado em 1962, numa divisão que ganhou força no partido a partir de 1956 quando no 20º Congresso do PC da União Soviética, Nikita Kruschev apresenta um relatório condenando as orientações adotadas pelo movimento comunista no período de Stalin, morto em 1953. Kruschev defendia a coexistência pacífica entre capitalismo e socialismo e a transição de um sistema para o outro. A China vai se contrapor a essa idéia, a Albânia também. Por isso, por muito tempo a referência para os dissidentes daquela época, que formariam o PC do B, foi o regime albanês.
O Brasil passa por um período de grande crescimento do capitalismo com Juscelino Kubitschek e também se vivia uma relativa consolidação da democracia. Com isso, as idéias de transição pacífica encontravam um terreno fértil por aqui. Ficam de um lado Prestes e a maioria absoluta da militância. João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda, Sérgio Holmos e Pedro Pomar lideram a dissidência contra as teses reformistas. “O manifesto de 1962 foi assinado por cem militantes, mas na hora de entregar à direção do Comitê Central a carta anti-gradualista, um militante ainda retirou o nome, sobraram 99. “O PCB tinha muita força e o PCdoB nascia muito fraco”, lembra Altamiro Borges. Por esse motivo, o PCB ficou conhecido como partidão e o PCdoB, como partidinho.

O Araguaia e a casa da Lapa

Logo após o nascimento do PCdoB acontece o golpe militar e o partido decide ir à luta armada. Em final de 1967, Maurício Grabois desembarca no Porto da Faveira, no Sul do Pará, local escolhido para iniciar a revolução camponesa. Diferentemente dos partidos clandestinos da época, o PCdoB não se envolveu na guerrilha urbana, sua estratégia era organizar a luta no campo. Entre a noite de Natal de 1973 e o fim de 1974, porém, se dá uma investida sanguinária do Exército que extermina o mais organizado foco de combate a um governo desde Canudos.
Outro episódio também trágico e marcante na vida do PCdoB é o conhecido como o da casa da Lapa, que se deu em 16 de dezembro de 1976. Na rua Pio XI acontecia um encontro que caminhava para definir uma visão autocrítica da luta armada que ocorrera no Araguaia. Havia uma posição defendida por João Amazonas, que estava fora do país, de que não havia autocrítica a fazer. Tratava-se apenas de corrigir os erros militares eventualmente cometidos, mas persistir na mesma trilha. E uma outra, cuja sustentação principal era de Pomar, para quem a luta armada do Araguaia fora uma aventura e que contrariava a própria fundamentação do partido. Mas às 7 horas da manhã daquele dia os militares invadem a casa e boa parte da direção do partido cai. Pedro Pomar e Ângelo Arroyo são assassinados. João Batista Franco Drummond morrerá sob tortura no DOI-Codi de São Paulo. Elza Monerat, Joaquim Celso de Lima, Wladimir Pomar, Aldo Arantes e Haroldo Lima são presos e barbaramente torturados.

Os comunistas de hoje

“O que existe é um mandonismo, não comunismo”, reclama Cláudio Fonseca, eleito vereador pelo PCdoB de São Paulo, em 2000, e que acabou por sair do partido no final de 2004. Na ocasião, teve seu nome vetado para buscar a reeleição por conta de suas posições contrárias ao governo de Marta Suplicy (PT). “Hoje as pessoas vão sendo cooptadas se aparecem como liderança, eles vão sendo profissionalizados, se tornam assalariados”. Ele ainda vai mais longe em sua crítica, que diz ser somente política. “O partido não é mais comunista. Tenho maior respeito pelo Aldo. Não tenho nada contra as pessoas, mas o partido e ‘cãolulista’. Reflete uma adesão incondicional ao projeto do Lula e do Palocci. Eles se vergaram ao projeto estratégico da burguesia nacional”.
Evidente que a tese é rejeitada pelos membros do PCdoB. O presidente do partido, Renato Rebelo, diz em tom de ironia que “todas pessoas que saíram do partido em algum momento da história, sempre romperam pela esquerda. Foi assim com o Genoino, com o Tarso Genro… E nesse período continuamos nosso caminho, só temos crescido”.
O PCdoB de fato já não pode ser considerado um partidinho, como em tempos outros. “Temos uma estrutura de comunicação com site, revistas, jornal quinzenal, 70 mil militantes, 300 mil filiados e, dentro da CUT, somos a segunda força”, afirma Renato Rebelo, que não destacou que o partido também é força majoritária na União Nacional dos Estudantes desde sua reconstrução. Aliás, Aldo Rebelo é liderança forjada na UNE, como também o deputado federal Renildo Calheiros (PCdoB-PE) e o prefeito de Niterói Lindbergh Farias, que hoje está no PT.
Até 1985 o PCdoB atuava dentro do PMDB, aliás, alguns votos que Aldo Rebelo teve na eleição para a Câmara, garantem alguns, se deveu àquele tempo de sua militância. Quando o PT nasce na reforma política, com pluripartidarismo limitado onde couberam cinco legendas, o PCdoB ainda estava na ilegalidade. A campanha do PT naquela primeira eleição da semi-abertura, ainda sob a tutela de uma lei produzida pelo ministro da Justiça Armando Falcão, era “vote no 3 que o resto é burguês”. O PCdoB fazia uma avaliação de que se devia fazer uma frente anti-regime. Isso inclusive se estabelece no debate do colégio eleitoral.
“Sempre levamos em consideração a correlação de forças”, sustenta Walter Sorrentino, médico e secretário nacional de organização do partido. “Hoje estamos no governo porque levamos em conta a correlação de forças na sociedade”.

O centralismo democrático
“O PCdoB é um partido amplo e que tem uma ação política pluralista”, diz o deputado estadual Nivaldo Santana, para quem a vitória do Aldo também representa uma reaglutinação das forças políticas de esquerda, depois de quatro meses de profecias de fim do governo Lula. “Continuamos nossa luta. Nossos objetivos estratégicos permanecem de pé. É renovado com dimensão à brasileira. Um dos equívocos que a esquerda nacional muitas vezes cometeu foi o de tentar importar modelos. Cada país tem seu modelo”, entende.
O partido mantém em sua estrutura orgânica a lógica do centralismo democrático. “Nós não deixamos de proclamar princípios básicos do comunismo. Nossa base teórica é o marxismo-leninismo. O centralismo democrático sempre foi reafirmado por nós. Mas, ao mesmo tempo, compreendemos as condições atuais de acumulação de forças. Esse período de grandes transformações ficou para trás. Por isso, nossa tática é ampla e flexível ou podemos nos isolar e desaparecer”, afirma o presidente Renato Rebelo.

Box – A força institucional

A primeira vitória executiva do PCdoB aconteceu em Olinda, com Luciana Santos, em 2000. Em 2004, o partido já elegeu onze prefeitos e desde 2000 tem um vice-governador, Osmar Junior, do Piauí. Ele primeiro foi eleito na chapa de Mão Santa, PMDB, e depois se reelegeu com Wellington Dias, atual governador, PT.
Na última eleição municipal o PCdoB ainda fez
28 vice-prefeitos e 273 vereadores (30 mulheres e 243 homens) em 222 cidades. Agora, o partido passa a ter também seu primeiro senador, Leomar Quintanilha, de Tocantins. E conta com 10 deputados federais. O partido comemora duas filiações recentes, a do músico Martinho da Vila e do ex-prefeito de Diadema, Gilson Menezes.
Mas também houve dissidências. Recém-saído do partido, o deputado federal Sérgio Miranda, hoje no PDT, não quer tratar do assunto. “Estive durante 43 anos no PCdoB. Passei toda a ditadura militar militando no partido e não quero discutir publicamente minha saída, até porque para mim foi muito traumática.”



No artigo

x