Receita para condôminios

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Síndico de prédio é função ingrata. Só tem encheção. Eu nem imaginava como alguém podia querer ocupar esse posto,...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Síndico de prédio é função ingrata. Só tem encheção. Eu nem imaginava como alguém podia querer ocupar esse posto, até que ouvi o motivo de um deles: síndico não paga condomínio. Em certos prédios, com condomínio caro, tem um certo sentido.
Mas em muitos prédios que morei, principalmente durante a ditadura, vi uma característica comum a quase todos eles: gostar de ter um certo poder sobre os demais moradores. E outra característica – que acho que tem a ver com essa primeira – é que muitos eram policiais aposentados ou militares da reserva.
Hoje em dia chego a ver um ou outro que não é assim. Mas são raros. E quase sempre o síndico autoritário consegue uma certa cumplicidade de porteiros e zeladores, talvez porque se não forem subservientes ao dito cujo eles podem perder o emprego. Só que tem porteiro ou zelador que gosta de mostrar serviço, fazem mais do que o síndico manda, em termos de sacanear certos moradores e principalmente empregadas. Antes da lei que proíbe a discriminação de pessoas no uso de elevadores, muitos porteiros de prédios mostravam sua “otoridade” impedindo que empregadas domésticas e negros usassem o elevador social. O sujeito fazia um ar de poderoso e mostrava o elevador de serviço para os discriminados.
Ainda bem que de vez em quando aparece algum Zé Alencar pra quebrar o barato deles, quer dizer, dos síndicos, porteiros e zeladores metidos a besta. Se digo “algum” Zé Alencar é porque o próprio existe. Ou melhor, existia. Infelizmente é mais um lutador que se foi, morreu em junho. E esta crônica é uma homenagem a ele, um grande jornalista mineiro chamado José Roberto Alencar, que andava afastado da imprensa, não por culpa dele nem porque ele quisesse. Cabe cada vez menos gente como ele na imprensa atual.
Nunca fugiu de uma boa encrenca, quando era preciso. E isso não só como jornalista, mas em tudo. Um exemplo é da época em que foi morar em Niterói. Num sábado de manhã, lá pelas 8 horas, acordou com uma música brega no último volume no apartamento ao lado. Ligou para o porteiro, reclamando que isso não era hora de tocar música naquela altura. O porteiro, puxa-saco do síndico, o tratou com desdém: a música vinha do apartamento do síndico e ele seguia todas as normas do prédio:
– Entre sete horas da manhã e dez da noite, ele faz o barulho que quiser no apartamento dele que ninguém tem nada com isso.
Esta era a norma: das sete da manhã às dez da noite, cada um faz o que quer no seu apartamento. Depois valia a lei do silêncio. Alencar se calou. Não adiantava tentar dormir. Saiu pra dar uma volta e comprou um alto-falante bem potente. No dia seguinte, domingo, levantou-se cedo, instalou o alto-falante na janela, acoplado a um rádio chamou a Guida, sua mulher. Ligou o aparelho na Rádio Relógio, no último volume e foi com a Guida, sua mulher (ou namorada, como dizia), para a praia. Pra quem não sabe, a Rádio Relógio dava a hora certa de um em um minuto. Ficava um tic-tac de relógio no fundo e o locutor fazendo propaganda e falando curiosidades, do tipo “A Groenlândia é a maior ilha do mundo. Você sabia?”. E “ao terceiro sinal, serão exatamente 8 horas e 13 minutos…”
Foi assim o dia inteiro no apartamento do Zé Alencar. Quando voltou, um pouco antes das dez da noite, para desligar o rádio em respeito ao horário de silêncio, havia um bando de gente enlouquecida no prédio. O porteiro e o síndico o olhavam com ódio. Mas ninguém teve coragem de falar nada.
Pois é, há um Zé Alencar a menos no mundo. Vale aí uma máxima do Barão de Itararé: “O mundo é redondo, mas está ficando cada vez mais chato”.



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1 comment

  1. Douglas Responder

    Condomínios precisam de muito zelo. Outra opção agora seria verificar elevadores como no site http://www.soelevadores.com.br obrigado


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