Rumo à barbárie

O filósofo alemão Robert Kurz defende uma radicalização crítica da esquerda Por Anselmo Massad Aos 61 anos, o filósofo alemão Robert Kurz é co-fundador e redator...

175 0

O filósofo alemão Robert Kurz defende uma radicalização crítica da esquerda

Por Anselmo Massad

Aos 61 anos, o filósofo alemão Robert Kurz é co-fundador e redator da revista teórica alemã Exit. Seguindo uma das linhas da escola de Frankfurt, leva ao extremo a crítica à sociedade produtora de mercadorias, apontando uma crise estrutural relacionada aos resultados da Terceira Revolução Industrial. A tendência é a racionalização que torna o trabalho cada vez mais supérfluo, até a sua extinção.

Kurz participou, nos dias 23 e 27 de janeiro, de conferências do Fórum de Migrações e do Fórum Social Mundial. Foi sua primeira participação no evento, mas garante que não esteve presente anteriormente apenas por falta de convite. Mesmo assim, não poupa as entidades participantes de críticas, mostrando-se descrente quanto às alternativas propostas. Segundo o alemão, elas não se preocupam em superar o capitalismo, mas garantir uma inserção melhor, o que prefere chamar de “gerenciamento da crise”.

O senhor veio a Porto Alegre para participar de atividades relacionadas à migração. Como o senhor vê esse fenômeno? 

Os fluxos migratórios não são uma novidade na história da modernização. Mas, em geral, eram fluxos de áreas rurais para centros urbanos, em um processo coercitivo de expropriação da terra. Os camponeses ingleses foram desapropriados de sua razão de ser, em uma mobilidade à força durante o século XVIII. É o caso típico. Os pobres eram livres para vender sua mão-de-obra por não terem controle de sua existência. Hoje, a migração tem um caráter universal, causada pela crise do sistema capitalista de produção de mercadorias, que emerge com a terceira revolução industrial: a introdução da eletrônica. É a transformação da sociedade por meio de uma globalização negativa, cujo resultado é a exclusão social em escala cada vez maior. A microeletrônica traz uma intensa racionalização da produção, tornando o trabalho supérfluo. Na periferia mundial, o processo é ainda pior porque a base social de reprodução capitalista não pode ser turbinada com a microeletrônica, por falta de capital suficiente. Não há condições de o capital absorver mão-de-obra. Isso representa um novo conceito cínico de desenvolvimento. O antigo sempre se relacionava a um país inteiro, a uma economia nacional. Hoje, o novo conceito se baseia nas áreas pequenas. É a produção desse oásis que garante a economia. Para o resto, há apenas o gerenciamento de crises.

Mas nem todos emigram… 

Sim. Como observei anteriormente, os territórios nacionais não existem mais: permanecem apenas os oásis de produtividade. Não há ciclos de desenvolvimento capazes de absorver toda a mão-de-obra. Além de novos fluxos migratórios de refugiados que fogem de estupros e assassinatos para a Europa e EUA, a grande conseqüência são as guerras globais de manutenção da ordem, promovidas pela Casa Branca. Sua função é demonstrar força para garantir a manutenção dos mercados. Diferente das teorias sobre o imperialismo tradicional, o objetivo das ocupações não é conquistar os recursos dos países, talvez com a exceção do petróleo, mas ele não é mais fator decisivo. A função é econômica. A última superpotência do mundo tem uma superforça bélica. Os EUA tornam-se a garantia de que o capitalismo possa funcionar. O capital perdeu capacidade de investimento produtivo e se dirige ao mercado financeiro, mais rentável. É com esse dinheiro que se financia a máquina bélica e o déficit na balança comercial. Os oásis de prosperidade espalhados no mundo, que encolhem cada vez mais, se concentraram na exportação para o país nos últimos dez ou mais anos. Toda a zona de economia para a exportação da China existe por causa do déficit norte-americano. O controle se dá pela guerra, o que tem implicações econômicas diretas. Se os EUA perderem alguma das guerras, todo o setor financeiro perde a sua confiança, o que levaria a economia global ao colapso. Os EUA permanecem sob grande pressão para demonstrar controle constantemente. Mesmo os países da União Européia têm muito interesse na manutenção dessa ordem. Temo que, na medida em que o colapso se aproximar, os EUA e seus aliados acentuem as ações bélicas a um nível de agressividade além da conta. Temo até o uso de armas nucleares nessa tentativa de demonstrar controle.

Se a situação do capitalismo coloca essa realidade, o que vem a partir daí: a barbárie total? 

É a barbárie. E não é preciso esperar, ela já está aí. O capital não é mais capaz de utilizar a força de trabalho. Isso continua até que se leve às últimas conseqüências a crítica dessa sociedade, desse modelo. O caminho é a radicalização e a interiorização da crítica. Até que se faça isso, o caminho é na e para a barbárie.

Quais alternativas podem ser construídas? 

É preciso construir algo novo, uma crítica mais profunda. O marxismo tradicional e os movimentos de libertação nacional ficam presos aos paradigmas antigos, sempre em relação ao desenvolvimento. O movimento operário sempre lutou com o objetivo de ter o trabalhador como sujeito reconhecido no capitalismo, ou seja: ficando eternamente dentro do sistema. O mesmo ocorre com os movimentos de libertação nacional, que queriam ser reconhecidos como sujeitos no mercado mundial. Essas duas condições desapareceram porque o trabalho torna-se supérfluo devido ao avanço da eletrônica, o mercado mundial internacional em termos de importação e exportação não faz mais sentido dessa forma.

O senhor costuma falar da necessidade de movimentos sociais transnacionais para lutar contra o capitalismo. Essa seria a forma? 

Todos os movimentos nacionais de resistência da forma tradicional anterior não permitem superar o capitalismo. Se os movimentos anticapitalistas quiserem ficar no mesmo nível, precisam ser transnacionais. Isso é diferente da simples soma de movimentos internacionais que ainda pressupõem a nação como elemento. Eles teriam de ser transnacionais e de baixo para cima.

O Fórum Social Mundial e os movimentos que dele participam têm alguns desses elementos. Eles contribuem para esse aprofundamento da crítica? 

Não tenho informação suficiente sobre todos os participantes do Fórum, já que é a minha primeira participação. Minha impressão é de que ele se desenvolve a partir de movimentos sociais e não de partidos, o que é bom. São movimentos que já têm essa percepção da necessidade de atuar de modo transnacional, como os movimentos antiglobalização que conheço na Europa. Minha crítica ao Fórum está em seu conteúdo. A forma parece adequada, mas continua com os conteúdos tradicionais e antigos, querendo relacionar-se com a política, não busca superar o capitalismo. A Attac (Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos), por exemplo, em todas as propostas, mantém-se nas regras da economia política, tentando influenciar na política.

Nas edições anteriores, o senhor não foi convidado ou não tinha interesse em participar?

Não tenho nenhum problema com o Fórum, simplesmente não fui convidado. Vejo o Fórum como uma mistura muito colorida, diversa. O caminho dessa mistura precisa ser revisto, na minha visão.

O senhor vê, na prática, algo que esteja acontecendo para a superação dessa ordem? 

No mundo inteiro temos ainda a mistura de conceitos antigos com algumas observações críticas mais adequadas. Mas o novo ainda não apareceu, está sendo germinado. O problema é que parte dos movimentos sociais parece temer esse novo. Acontece que não se pode dar pequenos passos para a frente sem pensar nos grandes processos de emancipação como um todo.

Com “pequenos passos para a frente” o senhor aponta, hoje, algum tipo de ação?

Não vejo tanto os pequenos passos no sentido da superação do capitalismo, mas na resistência quanto à administração da crise. Uma ofensiva de transformação social só pode realizar-se concentrando esforços: menos no combate à forma como os governos administram a crise e mais em como a superar. O grande problema é saber qual o poder de intervenção dos movimentos sociais. A forma tradicional era a greve, mas hoje a grande fraqueza dos movimentos é que suas ações são exclusivamente simbólicas. Um exemplo foram as grandes passea¬tas ocorridas recentemente contra a reforma da previdência social na Alemanha. As “manifestações de segunda-feira” (como ficaram conhecidos os protestos semanais em várias cidades do país a partir do mês de agosto de 2004) chegaram a ter 100 mil pessoas, um número muito grande. Rapidamente, o governo percebeu que eram apenas ações simbólicas, sem impacto real. Por isso, não hesitou em ignorar o movimento.

E não há propostas mesmo? É sentar e fazer a crítica?

Sim. Mesmo os ainda empregados nos oásis de produtividade precisam preocupar-se com isso, porque permanecem em uma situação precária. É o que chamamos, na Alemanha, de mortos em viagem de férias. Eles estão bem agora, mas o destino iminente é terrível.

Mas, se existem situações de emergência, como grupos passando fome ou em extrema pobreza, como é possível pedir que eles desenvolvam apenas a crítica?

A arte é fazer essa mediação entre o imediato e o teórico. O exemplo é complicado. É claro que se pode organizar ações para acabar com a fome desse grupo de desempregados, o que não impede que se desenvolva uma crítica radical e não uma crítica ao modo de administração da crise. A crise dos movimentos marxistas é a da formulação teórica. Para novos fenômenos, é preciso novos conceitos, repensar a teoria. O conceito de revolução é muito preso ao conceito de nação, o que já não funciona. Para nós, a revolução é muito importante, quase um sinônimo de mudança radical, mas hoje essa transformação radical é outra coisa, diferente do que era no passado.

Seria o que pensadores, como John Holloway, falam sobre mudar o mundo sem tomar o poder?

Talvez a reflexão de Holloway seja mais um sinal de não se saber o que fazer.



No artigo

x