Sartre resiste ao século

O escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre está fora de moda, dizem. Mas continua sendo essencial Por Eduardo Maretti   Alguns dizem que o século XX foi...

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O escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre está fora de moda, dizem. Mas continua sendo essencial

Por Eduardo Maretti

 

Alguns dizem que o século XX foi “o século de Sartre”, que nasceu há cem anos (21 de junho de 1905) e morreu há 25 (15 de abril de 1980). Outros pensam diferente: nos anos de dissipação moral, política e social em que vivemos neste início de século XXI, é natural que o filósofo, escritor e dramaturgo Jean-Paul Sartre esteja fora de moda. A avaliação de um pensador fundamental como este segundo um conceito tão simplista (estar ou não na moda) é bem própria de um tempo em que tanto os objetos nas prateleiras como a mente, os corpos e as paixões humanas são descartáveis. Sartre continua sendo essencial.
Parafraseando a fala de Paulo Francis sobre Regis Debray e Bernard Henri-Lévy: quando se considera que gente como Jean Baudrillard é levada a sério, “dá saudades de Camus e Sartre, com todas as suas incoerências e contradições”. De fato, o pensador francês Baudrillard é o protótipo do modismo intelectual, apesar de, nascido em 1929, ser apenas 24 anos mais velho do que o autor de A idade da razão. Em entrevista à revista Época em 2003, o filósofo da moda dizia, pernóstico: “Sou um dissidente da verdade. Não creio na idéia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável (…). Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa (…) Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo”.
Ora, é bastante coerente a opção pela dissidência da verdade num mundo comandado pelo mercado, pela fragmentação e pelo individualismo; nesse contexto, é cômoda e cínica a dissimulação, e a reflexão “por caminhos oblíquos”. É confortável a escolha pela fragmentação num momento histórico que se constrói em nome mesmo do fragmento. A premissa por trás do discurso de Baudrillard é o não-comprometimento, a falta de fé (entendida como conceito filosófico, e não religioso). Pode-se, segundo essa premissa, mudar de idéia sem culpa como se troca de carro ou camiseta, pode-se fazer orações fervorosas no altar do deus Fragmento sem medo das contradições, pois o que se diz hoje se desdiz amanhã: não há verdade. Se não há verdade, todas são admissíveis. Pode-se, para usar um termo do existencialismo francês, não escolher.
Diga-se: Jean-Paul Sartre defendeu sua Idéia, mesmo admitindo-se suas contradições. Seduziu e influenciou intelectualmente muitos daqueles que buscavam o conhecimento a partir dos anos 40 e ao longo de toda a segunda metade do século XX, passando pelos anos 60, por maio de 68, e deixando marcas indeléveis em movimentos como o Tropicalismo, como reconheceu Caetano Veloso e Tom Zé. Uma das mais conhecidas canções tropicalistas, Alegria, Alegria, diz no célebre verso: “Sem lenço sem documento/nada no bolso ou nas mãos”. É uma citação. Em As Palavras, Sartre escreve: “O que eu amo em minha loucura é que ela me protegeu, desde o primeiro dia, contra as seduções da elite: nunca me julguei feliz proprietário de um talento: minha única preocupação era salvar-me – nada nas mãos, nada nos bolsos – pelo trabalho e pela fé”. Claro: fé, aqui, não é a fé religiosa.
É muito conhecida a máxima sartreana segundo a qual “o homem está condenado à liberdade”. Ao justificar filosoficamente que a existência precede a essência, ele esclarece o que seria essa condenação a ser livre: “O existencialismo ateu (…) Declara (…) que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana (…) Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsablidade da sua existência. E (…) não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens.”
Principal expoente do Existencialismo francês juntamente com Albert Camus, e influenciado por Martin Heidegger e Husserl, Sartre chegou ao cume de seus escritos propriamente filosóficos com O Ser e o Nada (1943). No campo do embate filosófico, atacou (em Questão de Método) e foi violentamente atacado pelo marxista Georg Lukács (em Existencialismo ou marxismo?), para quem o existencialismo francês era uma filosofia niilista pequeno-burguesa.
Porém, humanista e ateu, valendo-se da verdade existencialista segundo a qual “o homem está condenado à liberdade” (o que pressupõe a escolha), Sartre posicionou-se, como militante, ao lado de causas que julgou corretas em nome desse humanismo, o que, para ele, e segundo muitos equivocadamente, justificava sua simpatia pelo regime de Fidel Castro ou por Mao Tsé Tung.
Mas é com sua obra literária de ficção e teatro – permeada, obviamente, pelos conceitos filosóficos – que Sartre atingiu o grande público e alastrou sua influência. Seu primeiro romance, A Náusea (1938), introduz no gênero romance alguns dos conceitos filosóficos do Existencialismo. O protagonista Antoine Roquentin é um historiador que escreve a biografia de um excêntrico personagem do século XVIII, o marquês de Rollebon, vive assolado pela melancolia e seu único interlocutor é um bizarro homem denominado Autodidata.
É na trilogia Os caminhos da liberdade que o autor consolida sua carreira de romancista. O primeiro volume, A idade da razão (1945), é concebido na tensa Europa pré-Segunda Guerra Mundial. Nesse ambiente em que a individualidade se esfumaçava, o romance traduz para a linguagem da ficção alguns preceitos da filosofia existencialista: o professor de filosofia Mathieu Delarue, protagnista principal (na trilogia, há vários protagonistas cujas consciências como que se fundem numa espécie de consciência da Europa), busca uma moral livre do modo de ser burguês e cristão. Com uma visão de mundo rigorosa e crítica, vive imerso na angústia e atormentado pela idéia de fracasso.
Se a trilogia é inteira uma obra-prima, o auge da concentração e da forma sartreanas se dá no segundo volume, Sursis (1945), cuja trama se desenvolve na Europa à beira da conflagração. Numa das mais belas páginas da literatura européia do século XX, lemos a seguinte reflexão sobre o engodo que havia sido a paz do entre-guerras, amarga constatação de um continente que outra vez já respira a morte: “Anos e anos de paz futura se haviam depositado previamente nas coisas (…) pegar o relógio, um trinco de porta, a mão de uma mulher, era tomar a paz nas mãos. O após guerra era um começo. O começo da paz (…) O jazz era um começo, e o cinema (…) E o surrealismo. E o comunismo. O tempo, a paz, eram a mesma coisa. Agora esse futuro está aqui, a meus pés, morto (…) Olhava os vinte anos que vivera serenos (…) e os via agora como tinham sido: um número finito de dias comprimidos entre dois altos muros sem esperança (…) que figuraria nos manuais de história sob a denominação de ‘Entre duas guerras`”.
Com A morte na alma (1949), título muito sintomático, encerra-se a trilogia Os caminhos da Liberdade. A vida de Sartre chega ao fim em 15 de abril de 1980. Em A cerimônia do adeus (1981), livro de memórias no qual descreve o fim do escritor, a companheira Simone de Beauvoir, no mais característico estilo existencialista, escreve ao mesmo tempo emocionada e implacável: “Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo”.



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