Se um é bom o outro não pode ser

Uma falsa disputa entre Chávez e Lula parece agitar o pensamento daqueles que acreditam em um único líder para a esquerda latina Por Renato Rovai   No...

229 0

Uma falsa disputa entre Chávez e Lula parece agitar o pensamento daqueles que acreditam em um único líder para a esquerda latina

Por Renato Rovai

 

No intervalo da reunião, o respeitável intelectual (e aí não há nenhuma ponta de ironia, trata-se mesmo de um respeitável intelectual) se aproxima. Diz ter lido minha cobertura do golpe contra Hugo Chávez, faz o elogio de praxe e, na seqüência, alerta: só tome cuidado com algumas considerações, porque o homem não é lá de muita confiança. Andou tomando posições autoritárias e está completamente perdido.
Nunca tinha tido o prazer de conversar com o interlocutor. E, como o admirava (o que não mudou), aprofundei o papo, mesmo tendo visão diferente. No percurso, duas outras frases também incomodaram. O contexto da primeira era algo como: “Não fosse essa confusão criada pela burguesia venezuelana, com esse golpe estúpido e injustificável, em pouco tempo quem iria tirá-lo da presidência era o próprio povo”. E, na segunda: “Não tenha ilusão, o Chávez não é uma liderança importante, ele se elegeu no vácuo. Aliás, lembre-se, ele disputou a eleição com uma miss universo”.
O contexto e o nome da pessoa serão preservados, porque são irrelevantes. Mas a história é simbólica, já que o interlocutor daquele dia é hoje um entusiasmado defensor do governo Hugo Chávez. Não tem dúvida das convicções de esquerda do presidente venezuelano e não titubeia em defendê-lo. O que, aliás, é honesto e bom. Mas não foi apenas dele que ouvi restrições a respeito da sinceridade de propósitos de Chávez.

Ao retornar de Caracas, depois do golpe de 11 de abril de 2002, havia muita confusão a respeito do acontecido. A deturpada cobertura da mídia comercial, mesmo sendo derrotada pelos fatos, ainda tentava ajustar a versão. Agora, valia a historieta de que a oposição teria conseguido ser ainda mais incompetente do que Chávez; por isso, seu retorno ao poder. E anunciavam futuros problemas de governabilidade para ele.

Tinham tanta razão que, na 3ª edição do Fórum Social Mundial, nos últimos dias de janeiro de 2003, a Venezuela já vivia outro golpe. O primeiro foi midiático-militar. Seus articuladores foram os meios de comunicação, que coordenaram setores das Forças Armadas. O segundo, aquele que ocorria nos dias do terceiro FSM, foi midiático-econômico. Como nesse caso ambos os setores se completam e são quase o mesmo, o golpe durou mais tempo. Foram dois meses de agonia para o povo venezuelano, onde faltava tudo. Mas por que tratar novamente dessa história?

Foi justamente em meio a esse imbróglio que gente relacionada com o governo venezuelano chegava em Porto Alegre em busca de solidariedade. Desembarcaram buscando convencer o Conselho Internacional do FSM a fazer um convite oficial para que Chávez realizasse uma palestra, fizesse um depoimento ou estivesse em uma mesa. Qualquer participação. A questão dividiu o Conselho. Com base no documento de referência do evento, alguns se posicionavam contra e outros a favor. O argumento era de que a Carta de Princípios do FSM não previa o convite a chefes de Estado e de Governo. A ambigüidade do documento, porém, permitia a participação de Lula, que, recém-eleito, era presidente do país-sede do evento.

Lula discursou em um final de tarde, na Praça Pôr do Sol. Gente do mundo inteiro escutou o presidente relatar os seus planos e argumentar a respeito de sua ida a Davos (Suíça). Foi um longo discurso. Na ocasião, um pequeno grupo já se apresentava em protesto. Mas a enorme maioria sorria para Lula.

No final da apresentação de Lula, um grupo de venezuelanos não tinha a certeza da vinda de Chávez. Faltava o tal convite. Foi só no dia seguinte que Max Arvelaiz, um dos assessores do presidente venezuelano, obteve a confirmação. Com um sorriso de orelha a orelha, anunciou: Chávez viene! Chávez viene! Mas não era para participar do FSM.

Por incrível que pareça o que se construiu naquela ocasião foi uma terceira via. O presidente venezuelano foi convidado a ir para Porto Alegre por um “grupo de amigos da Venezuela” e falaria no auditório da Assembléia Legislativa do Estado, como acabou acontecendo. Aproveitaria o evento, mas participaria por fora. Mesmo com esse obstáculo, reuniu milhares de pessoas e contou em detalhes como vinha sendo orquestrado o movimento que deixava milhares de venezuelanos sem produtos básicos e o país na lona, já que estava sem conseguir exportar petróleo, que representa 80% da economia. Naqueles dias, a bem da verdade, o governo Lula foi criticado pela oposição venezuelana pela “ingerência externa” por atrapalhar o locaute ao oferecer técnicos da Petrobrás para ajudar Chávez a recuperar o controle das refinarias.

Lula e Bush são iguais Nessa edição do FSM, Hugo Chávez foi convidado especial. Lula também. A tal Carta de Princípios perdeu o rigor de antes. Até porque o venezuelano derrotou os seus adversários em um recente referendo de seu mandato e dissipou certas dúvidas. Na verdade, como no Brasil, a Venezuela tem intelectuais que partiram para cima do governo Chávez logo nos primeiros dias, tratando-o como inimigo. E, com o apoio da mídia local e internacional, tornaram-no algo que não é. Mesmo tendo comportamento político um tanto mais aguerrido do que o normal, ou como comparou Lula, sendo um pouco aquele centroavante trombador, Chávez está longe de ser um populista bufão, como costuma apresentá-lo, por exemplo Teodoro Petkov, que se proclama ex-guerrilheiro e de esquerda.

Nesta edição do FSM, Chávez não teve com o que se preocupar: foi Lula quem precisou refletir a respeito da conveniência ou não de ir ao FSM. Sua assessoria se dividiu a respeito do tema. Não por acaso, mas porque sabe que a política econômica do governo não agrada à quase totalidade dos que participam do FSM. Mas o núcleo que entendia que, do ponto de vista simbólico, Lula não poderia ir a Davos e faltar a Porto Alegre ganhou a parada. De qualquer forma, cogitou-se, em um primeiro momento, que ele participasse de um evento menor, em um auditório fechado, para alguns selecionados convidados. Lula teria refutado a idéia. Queria ir de verdade.

Para que sua participação não fosse algo com toque só oficial, articulou-se o convite realizado por oitenta entidades para discutir a Chamada Global de Combate Contra a Pobreza. O evento se daria no Gigantinho, com capacidade para 15 mil pessoas. E aconteceu sem lances mirabolantes. A maior parte dos que protestavam ficou do lado de fora. Como as filas eram enormes, perderam o time para entrar.

Mas, antes de Lula entrar no Gigantinho ou mesmo de chegar em Porto Alegre, a cidade já havia sido cuidadosamente pichada em diferentes pontos de acesso com a seguinte frase: Lula e Bush são iguais. Era uma minoria tanto do lado de dentro do Gigantinho como do lado de fora. Mas a gana por manifestar o horror ao governo atual era tamanha que um grupo encarou o desafio de organizar uma manifestação atípica. Como o ginásio estava lotado, muitos se concentraram diante de um telão instalado em seu principal portão de acesso. Dali acompanhavam o discurso de Lula. Um grupo de meia dúzia, aos berros de “traidor”, fazia de tudo para impedir que, pelo menos parte dos presentes, pudesse ouvir o que se falava. E justificavam o ato como “direito legítimo de manifestação”. Nos discursos dos anti-Lula, odes a Hugo Chávez, que era tratado como a grande liderança internacional da esquerda. Na noite de domingo, Chávez teve a honra de ser recebido oficialmente pela organização do FSM, com direito a representantes do Conselho Internacional em sua mesa. Merecida distinção para quem enfrentou a truculência de uma oposição golpista com grande coragem e ampliando os canais de participação popular em seu país.

Enfim, o FSM foi encerrado com Chávez sendo aclamado, por alguns, como grande líder da esquerda internacional, capaz de redimir os povos oprimidos. Até porque se Lula é igual a Bush, da esquerda é que ele não deve ser. Nada contra Chávez, muito a favor, mas deve ser muito engraçado pensar assim. E acreditar.

rovai@uol.com.br



No artigo

x