Sede no paraíso

A pior seca na Amazônia em 50 anos provocou o isolamento de povoados inteiros, a morte de toneladas de peixes e incêndios sem controle. A tragédia será irreversível se o desmatamento prosseguir, alertam especialistas Por...

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A pior seca na Amazônia em 50 anos provocou o isolamento de povoados inteiros, a morte de toneladas de peixes e incêndios sem controle. A tragédia será irreversível se o desmatamento prosseguir, alertam especialistas

Por Mario Osava

 

A pior seca na Amazônia em 50 anos provocou o isolamento de povoados inteiros, a morte de toneladas de peixes e incêndios sem controle. A tragédia será irreversível se o desmatamento prosseguir, alertam especialistas

A escassez de água no coração da Amazônia brasileira, um paraíso de água doce, parece um absurdo, mas é real e deveria servir de alerta máximo para a tragédia irreversível que o desmatamento provocará se continuar no ritmo atual, alertam especialistas consultados pelo Terramérica. Rios e lagos praticamente secos, centenas de toneladas de peixes mortos, povoados isolados que recebem alimentos por helicópteros, embarcações presas na lama e gente que precisa caminhar quilômetros para encontrar água formam a paisagem atual de muitas regiões do sudoeste da Amazônia.

Considerada a pior das últimas cinco décadas, a seca afeta sobretudo os Estados do Acre e do Amazonas, cuja população espera pela ajuda de emergência prometida pelo governo, que liberou US$ 14 milhões para essa finalidade. No Acre, a falta de chuvas por quatro meses “deu medo”, secou rios importantes e favoreceu os incêndios, que “avançavam sobre a floresta” que não tem umidade para contê-los, contou ao Terramérica o especialista Paulo Moutinho, pouco depois de regressar dessa região. A fumaça reduzia a visibilidade e forçou algumas pessoas a usarem equipamentos de respiração nas ruas, acrescentou o especialista que coordena o não-governamental Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Os efeitos vão perdurar por muito tempo. A recuperação da população de peixes exigirá anos, e o pescado é a base alimentar de quem mora às margens dos rios. A ajuda para esse setor da população deverá ser prolongada, pois a vida não voltará à normalidade depois que as chuvas voltarem, alerta Moutinho. Longe do Acre, no município de Caapiranga, a 200 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas, desapareceu o Grande Lago de Manacapuru, formado pelo rio de mesmo nome. A redução das águas isolou uma dezena de aldeias ribeirinhas. Os rios são as estradas da Amazônia, cuja população se move principalmente em embarcações de diferentes tamanhos.

Em Caapiranga, que no ano passado tinha 9.736 habitantes, dois terços na área rural, o funcionário da prefeitura local, Raimundo da Silva, cuida de um poço que fornece água para 17 famílias. “Três poços da cidade já secaram, o meu está mais ou menos, mas ainda tem água suficiente”, disse. Tudo que a cidade precisa chega pelo rio Manacapuru, por onde agora só navegam barcos pequenos. Depois, o transporte é feito por veículos terrestres através dos 32,5 quilômetros de leito seco do Lago.

“Há, pelo menos, dez barcos maiores presos”, disse Silva ao Terramérica, de um telefone público. Em seus 29 anos de vida jamais imaginou viver algo semelhante. “A ajuda do governo já está chegando”, informou, referindo-se às cestas de alimentos e medicamentos distribuídos pelo Plano de Emergência SOS Interior, promovido desde a semana passada pelo governo do Amazonas com a ajuda das Forças Armadas. Pelo menos 32 mil famílias serão beneficiadas.

Os 62 municípios do Amazonas estão em estado de calamidade pública, principalmente por falta de transporte e água potável. As autoridades estimam que aproximadamente 197 mil pessoas, em 914 comunidades, foram afetadas e estudam planos de evacuação. Segundo alguns pesquisadores, a seca se deve ao fato de “a zona de convergência intertropical”, onde se encontram os ventos do norte e do sul que trazem muitas chuvas, ter se deslocado para o norte por causa do grande aquecimento das águas do Atlântico Norte. Trata-se do mesmo fator que determinou a intensidade de furacões como o Katrina que atingiu as costas norte-americanas em setembro, acrescentam.

A incomum estiagem dos rios amazônicos alerta para a vulnerabilidade desse ecossistema diante de fenômenos que reduzem as chuvas na região e podem estar ganhando maior freqüência e mais intensidade, disse Moutinho. Por sua vez, o cientista norte-americano Thomas Lovejoy, que estuda a Amazônia há quatro décadas, teme que o desmatamento chegue a tal ponto que ponha fim ao equilíbrio que garante a sobrevivência da floresta e vice-versa. Ao desaparecer determinada extensão de florestas, diminuem as precipitações, provocando perdas florestais e assim sucessivamente.

“Muitos de nós (pesquisadores) acredita que isso pode ocorrer se o desmatamento superar os 30%” da Amazônia, disse Lovejoy. Manter o ritmo atual de desmatamento é “um jogo muito perigoso”, pois podem ocorrer “sinergias negativas”, com outros fatores, como o fenômeno oceânico El Niño (que provoca secas), os incêndios florestais e as mudanças climáticas, alertou o cientista, que preside o Centro Heinz para a Ciência, a Economia e o Meio Ambiente, com sede em Washington. Seria melhor interromper o processo de desmatamento bem antes do ponto de desequilíbrio, por exemplo em 20%, também para não perder mais biodiversidade, acrescentou.

A Amazônia já perdeu 17% de suas matas, mas a “área perturbada”, incluindo pequenos desmatamentos não captados pelos satélites, é muito maior, disse à Terramérica o ex-diretor do governamental Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Enéas Salati. Devido à alteração climática, as massas de ar se elevam sobre a Amazônia, perdem a umidade e baixam quentes e secas, um fenômeno que cria desertos quando é permanente, explicou Salati, recordando que isso “não ocorreu nos últimos 40 anos que estou estudando a região” e não há registros de que tenha ocorrido antes. A dúvida é se a água do Atlântico aqueceu “naturalmente ou devido às mudanças climáticas em razão da atividade humana”, acrescentou.

No clima amazônico atuam três forças de alteração, duas de origem antrópica (ação humana) — desmatamento e mudança climática global — e uma natural — os ciclos, as manchas solares e a oscilação do eixo da Terra, observou Salati, que agora dirige a não-governamental Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável. Esse conjunto de forças aponta para uma direção, e o aquecimento do planeta pode tornar mais freqüentes fenômenos naturais como o El Niño. Essa corrente, que aquece as águas do Oceano Pacífico, provocou, em 1998, uma seca na parte norte da Amazônia brasileira. Os incêndios conseqüentes destruíram 1,3 milhão de hectares de florestas em Roraima, extremo-norte do país, na fronteira com Venezuela e Guiana.

* O autor é correspondente da IPS.

Legenda: Menina brasileira no leito seco de um rio no município de Manaquiri, no Amazonas.
Crédito/Imagem: Ricardo Oliveira

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
(Terramérica)



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