Tempinho bom, hein?

Coluna Por Fausto Wolff   É cada vez menos freqüente a expressão Bons Velhos Tempos! É que, para a maioria dos brasileiros – fiquemos no nosso próprio...

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Coluna

Por Fausto Wolff

 

É cada vez menos freqüente a expressão Bons Velhos Tempos! É que, para a maioria dos brasileiros – fiquemos no nosso próprio esgoto –, nunca houve velhos bons tempos. Quem nasceu depois de 1975, por exemplo, dificilmente terá presenciado um bom tempo. É claro que falo em termos coletivos, nacionais, culturais, políticos, econômicos. Quando foi que nos transformamos na lixeira dos ricos de todos os países e, principalmente, dos nossos ricos, dos nossos algozes, dos nossos homens de palha? Quando foi que perdemos a vergonha?

Uma concessão leva à outra. Concessão é que nem vampiro. Depois que abrimos a porta para ele, entra toda a vampirada, nos suga o sangue e bota o nosso bloco na rua cantando “A Marcha da Garrafinha” entre um intervalo e outro do Big Brother. Pobre Orwell, o Big Brother que ele criou virou filho do fascismo e apresenta-se como Neoliberal. Tudo vale a pena se você não for apanhado e não será apanhado se associar as pessoas de bem. E nós, que não entramos na boca, assistimos a isso tudo com cara de bunda, como se não fosse conosco. O famoso menefreguismo italiano é parte importante da cristalização do neoliberalismo. Menefreguismo traduzido literalmente seria estoumelixandismo, pois ainda não vieram bater na minha porta às 3 da manhã. O fenômeno é mundial, mas muito menos visível nos países escandinavos que mal ou bem preservam sua cultura do que nos países do terceiro mundo como o Brasil que perdeu sua incipiente cultura e recebeu um enorme nabo no lugar. Olha para o nabo como quem ainda não sabe bem o que fazer com ele.

A culpa terá sido do povo? Não, a culpa nunca é do povo. O povo se limita a votar nos candidatos que melhor se apresentam e os candidatos que melhor se apresentam são os candidatos da direita, que têm mais dinheiro e cargos para distribuir. Os da esquerda – quando havia esquerda – estavam brigando entre si. Sempre que convocaram o povo, ele compareceu e não fez feio. Passeata dos Cem Mil, Guerrilha no Araguaia, Diretas Já. Na campanha pelas diretas o povo empurrava os palanques de um lado para o outro das praças brasileiras sem ouvir o que os homens lá no alto diziam. Eles estavam planejando as indiretas. Poderia um povo depois de vinte e um anos de ditadura militar, cinco anos de corrupção sarneysta (que nem tentou eleger-se senador pelo estado de sua propriedade, o Maranhão) e vinte e um anos de lavagem cerebral televisiva, distinguir o certo do errado? Poderia saber que aquele moço que ia caçar marajás era um perigoso psicopata?

O povo não pode ser culpado porque foi emburrecido pela pilhagem da classe dominante e foi contaminado pelo mau caráter da classe média, cuja única filosofia consiste em não ser tragada pelo pântano estagnado da miséria. O espírito de um povo é a sua cultura e é ele que deve impor sua cultura aos meios de comunicação e não o contrário. Quando ele é roubado da sua cultura – aquilo que o diferencia de um argentino ou de um japonês – não tem mais como reagir; vira um saco vazio, querendo manter-se em pé através de ONGS que, na maioria dos casos, lucram muito mais com a desgraça do que os desgraçados que querem socorrer. A cultura é a arma de defesa pessoal de um povo. Sem essa arma só lhe resta a barbárie da ignorância.

Não sei o que lhes dizer. Fui chamado para uma guerra em 68 e perdi feio. Perdi tão feio que quase todos os meus companheiros de esquerda transformaram-se em pragmáticos. Pragmáticos, ricos e bem colocados na vida como Cesar Maia, por exemplo um homem que ama tanto a sua família que já elegeu o seu filho deputado federal duas vezes. Mas isso são apenas misdemeanours. Os crimes mesmo são o genocídio e os responsáveis pelo genocídio (gente que envia bilhões de dólares para fora do país anualmente) deveriam ser fuzilados em praça pública. Hoje não, é claro, pois ainda estamos em período carnavalesco e logo virá a Páscoa e o Dia das Mães.
Obrigado aos rapazes da Fórum pelo convite para ocupar esse espaço. O faço com prazer, mas sem grandes esperanças, pois só acreditarei em uma mudança realmente substancial quando o Marxismo for aplicado às condições brasileiras como uma filosofia. Para isso teria de ocorrer um processo de humanização do homem. Então, talvez, nossos jornais e meios de comunicação em geral deixem a mentira e a hipocrisia de lado e a classe dominante se regenere. Quando, como hoje, o despudor político chega a ponto de termos de escolher entre o antraz e o escorbuto, o voto nulo passa a ser uma opção.

fwolff@revistaforum.com.br



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