Toques Musicais

Toques Musicais Por Julinho Bittencourt   Jards Macalé volta ao disco e só isso já seria motivo para comemorações. No entanto, no caso do recém lançado, Real...

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Toques Musicais

Por Julinho Bittencourt

 

Jards Macalé volta ao disco e só isso já seria motivo para comemorações. No entanto, no caso do recém lançado, Real Grandeza, os aplausos são mais intensos. O disco é todo de canções que Macalé compôs com o poeta Waly Salomão, um dos mais inquietos, instigantes e talentosos artistas brasileiros deste século, morto em maio de 2003. O repertório, para dizer o mínimo, é um apanhado de uma época sem precedentes, uma coleção de signos de um tempo. Mas, apesar disso e, o que é melhor ainda, está longe de ser datado, obsoleto ou anacrônico. Um disco, enfim, repleto de canções que se estendem para além da década de 60 até os dias de hoje, mas feito na medida para o futuro.
A importância da parceria dos dois pode ser percebida no sem fim de artistas de primeira grandeza da nossa música que gravaram, regravaram e recriaram estas canções. Uma das mais ilustres é Maria Bethânia, que canta a curiosa e bela “Berceuse Criolle”, uma das inéditas. Mas o disco de Macalé é uma soma de eras, na teoria e na prática. Além de Bethânia, participam Luís Melodia e, invadindo os novos ventos, Adriana Calcanhoto, Frejat e Vulgue Tolstoi. Conta ainda com vários músicos de várias gerações como Cristóvão Bastos, Jorge Hélder, Marcelo H, Rodrigo Campelo, Kassin, Domênico Lancelotti entre outros.
Real Grandeza é um grande disco. Muito além de resgatar as parcerias excelentes da dupla Macalé/Waly, ele tem o mérito de provar que várias diferenças não só podem conviver como produzir grandes obras, a despeito do tempo. O ponto em comum de todos os participantes é a ousadia. E isso era rotina na vida de quem se arvorou a compor essas canções.

Chega ao Brasil, depois de rodar pela Europa, Cru, o segundo disco solo do Seu Jorge. Isso sem levar em conta o primeiro, Moro no Brasil, com a ótima banda Farofa Carioca. Cru foi gravado na França no ano passado e, como diz o nome, diferente de tudo o que já havia feito antes, o disco traz quase que só o Seu Jorge mesmo e mais ninguém. Um pandeiro aqui, um cavaco acolá e o que temos pra ouvir é o artista e sua canção, sem grandes maquiagens e nenhum truque.
O que parece ser um teste é vencido com folga pelo talento e suíngue do cantor e compositor. Algumas canções inéditas, outras novas e regravações inusitadas, pelo menos para nós brasileiros, fazem de Cru um disco diferente e corajoso que, apesar de toda a badalação em torno do seu autor, é feito por poucos e para poucos. Se antecipando à onda do ano do Brasil na França, Seu Jorge inverte a lógica do exótico brasileiro e aposta no cool.
O resultado aparentemente simples esbarra em uma sonoridade que, aos incautos, pode parecer desleixo. Em alguns momentos canta com a voz na garganta ou sussurrado, em outros grita e em outros parece distraído. No final tudo faz sentido e, o que podia ser confundido com falta de capricho, é assumido como estilo. O disco teima em ser orgânico mesmo. O artista, sua canção, a emoção e mais nada.
A fórmula agradou em cheio ao público europeu. O disco vai muito bem, tanto em vendas quanto em elogios. O clima Henry Salvador dos trópicos se encaixa perfeitamente ao gosto do Velho Mundo. Ao tentar o Brasil, a impressão que fica é que temos a nossa identidade adulterada às avessas. Cru soa como a música que temos a coragem de fazer nas ruas, mas que nunca nos arvoramos a lançar, ao menos desse jeito. O sucesso de Seu Jorge neste projeto pode dar uma boa e saudável guinada na nossa música. Além de apresentar uma boa saída para a crise da indústria fonográfica que já não se sustenta em grandes produções.
Ao todo são apenas dez canções e, o mínimo que se pode dizer, é que não há nada óbvio em Cru. Tudo são tentativas, às vezes bem sucedidas e noutras nem tanto, de fazer as coisas do seu jeito, sempre partindo do samba e suas matizes. O resultado é um belo e divertido disco.
Nota do Rapin Hood
(Erramos: republicamos esta nota divulgada na edição passada em função do texto ter sido publicado cortado)



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