Toques Musicais

Toques Musicais Por Julinho Bittencourt   Antes de tudo, gostaria de deixar claro que não fui um dos trinta jornalistas que recebeu do pessoal da divulgação da...

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Toques Musicais

Por Julinho Bittencourt

 

Antes de tudo, gostaria de deixar claro que não fui um dos trinta jornalistas que recebeu do pessoal da divulgação da Maria Rita um Ipod com o disco dentro. Esse arroubo de modernidade (no disco anterior o comprador ganhava o direito de baixar mais duas canções pela rede) pegou mal e ganhou várias críticas pelo país afora. O que é importante, de fato, nessa história toda, e o mais curioso, é o conceito que quiseram dar e o que realmente há no som da cantora. Essa sintonia com signos jovens não combina com o seu som. No caso de uma cantora que cada vez mais se identifica com um formato tradicional, esses brinquedinhos acabam virando piada.
É injusto dizer que o som de Maria Rita é um arremedo da mãe. Ela é herdeira de um trono irrecusável e vai, se quiser, governar ao seu modo. O repertório de Segundo, não é tão vibrante quanto o do seu primeiro disco. No entanto, o disco é excelente sobre vários outros aspectos. Foi gravado ao vivo no estúdio e tem um som de conjunto irresistível. Além disso, ela canta de uma forma mais despojada, muito mais relaxada e tranqüila. A se ressaltar a gravação de “Sobre Todas as Coisas”, obra-prima de Edu Lobo e Chico Buarque. Maria Rita conseguiu uma excelência artística tal que a imensa maioria das cantoras brasileiras jamais sonhou chegar. Só isso já valeu por ser cantora, filha de Elis e César e tudo o que possam falar. Mas ela tem fôlego pra muito mais e o mundo inteiro pela frente.

Já a grande novidade de Hoje, disco novo de Gal Costa, é que ele traz um repertório quase todo produzido por compositores novos, estreantes. O melhor disso é que não são compositores, nem de longe, comprometidos com fórmulas de sucesso. Outra das boas novidades é que o disco é produzido por César Camargo Mariano. Juntam-se dois dos principais elementos que fizeram de Elis Regina a cantora mais cultuada do Brasil: o arranjador e um repertório garimpado e distante das fórmulas do mercado.
Mas as comparações páram por aí. Gal Costa tem personalidade e história de sobra para não sobreviver nem tirar casquinhas na sombra de ninguém. E o disco, além de bem cuidado, gravado e cantado, é realmente muito bom. Traz novos ventos à carreira da cantora. Sob o manto de César, a voz de Gal reaparece também como há tempos não soava. Firme e delicada, afinação e interpretação em equilíbrio, beleza em profusão.
Um fato relevante que envolve a produção de Hoje ruma na direção dos novos ventos do mercado fonográfico. Assim como vários de seus colegas, Gal está em uma gravadora independente — a Trama. Isso vem contribuindo para o desemboloramento da nossa música. Resta torcer para o movimento ir além e lamentar tanto tempo perdido com bobagens.

E sem tempo a perder, a dupla Renato Teixeira e Rolando Boldrin acabou de lançar em parceria um lindo disco. Fruto de larga experiência e profunda paixão, o disco, muito mais do que honrar os cabelos brancos desses dois senhores da viola, parece um sonho, mais do que óbvio, que finalmente se realiza. O resultado é tão bom que é inevitável não torcer pra que eles virem uma dupla mesmo.
O disco, intitulado Rolando Boldrin Renato Teixeira, é desconcertante de simples, com um repertório brejeiro, onde se alternam cantigas inéditas dos dois e clássicos de várias partes do país. O espectro onde eles atuam passa por vários gêneros, épocas, estilos e lugares, sem nunca se deslocar de um eixo central. Um disco que tem cheiro de gente. De gente brasileira. Vale ressaltar também o excelente time de músicos presente na gravação, além de participações ilustres como Dominguinhos, Almir Sater, Heraldo do Monte e Paulo Sérgio Santos.

E por falar em grandes músicos, “A bênção maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos, como o meu Brasil de todos os Santos”. Com esse pequeno verso, Vinicius de Moraes encerra todas as bênçãos do seu “Samba da Benção”, feito em parceria com o violonista Baden Powell. O aval de Vinicius é só um dos indícios da importância da vida e obra do maestro Moacir Santos. Recentemente aconteceram três lançamentos de discos seus: Ouro Negro, de 2001; Coisas, gravado originalmente em 1965 e relançado em 2004; e agora Choros e Alegria — Mário Adnet e Zé Nogueira apresentam Moacir Santos. É muito pouco diante da grandeza e admiração que suscita sua obra entre os colegas. Mas, ao mesmo tempo, é muita intensidade e qualidade musical para pouco tempo de gravação.
O álbum Choros e Alegria — Mário Adnet e Zé Nogueira apresentam Moacir Santos, recém-lançado pelo selo Biscoito Fino, é um momento único, tanto dentro da obra de Moacir quanto para a nossa música. Nele estão as primeiras composições do maestro. O projeto surgiu a partir do encontro de Mário Adnet e Zé Nogueira, em 2001, durante as gravações de Ouro Negro. Os dois músicos foram os produtores do disco de então, que traz as obras mais modernas de Moacir. A distância que se percebe nesses dois álbuns não fica clara quando nos deparamos com a modernidade das obras ditas antigas. Tudo já estava ali e neste Choros e Alegria fica bem evidente. Os arranjos foram reescritos por Mário Adnet a partir dos originais. Um sem fim de músicos excelentes participam do disco e a maior surpresa fica por conta da canja do trompetista americano Wynton Marsalis, que toca na bela valsa “Rota”. Marsalis considera Moacir Santos um gênio comparável a Thelonius Monk, Beethoven e Duke Ellington. Um elogio desses vindo de quem vem não é pouca coisa. O trompetista, além de um dos maiores músicos do mundo, é também um grande conhecedor de jazz.
E, pra encerrar, apesar de suposições não valerem de muito, fica uma perguntinha no ar: como seria o cenário musical brasileiro se a parceria de Moacir Santos com Vinicius tivesse durado mais do que as três ou quatro canções que fizeram, entre elas “Triste de Quem” e “Se Você Disser que Sim”? Creio que, em vez de ser o samba de um gênio só, a bossa nova teria mais um pra contar história.



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