Toques musicais

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   O táxi saiu de Recife e entrou em Olinda. A passagem é rápida, quase imperceptível. As duas cidades se confundem em...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

O táxi saiu de Recife e entrou em Olinda. A passagem é rápida, quase imperceptível. As duas cidades se confundem em mixagem perfeita. O motorista era um senhor, bem humorado e muito falante. Em um determinado ponto ele muda o tom. Aponta um poste e diz: “Foi ali que morreu aquele tal de Chico Ciência, que vocês gostam tanto. Eu passei na hora e vi retirarem seu corpo”. O local fica demarcado na memória. Foi nesse poste ordinário, igual a todos os outros do Brasil, que se foi o Chico Science. Foi ali que tudo acabou. Será?

Pelas ruas do Recife sempre tem um garoto que leva consigo um tanto do criador do mangue beat. O cantor e compositor parece disseminado pela cidade. E a cidade sempre pareceu impregnada nele, com seus caboclos lançadores, balizas, reis e rainhas. No centro antigo, a garotada moderna dança e batuca com os velhos. O maracatu está na cidade. E a cidade é o folguedo que sobrevoa e enfeita suas misérias. Que glorifica sua sina galega de amante e libertadora dos seus algozes e senhores.

É o próprio Ciência quem explica, num 2 de fevereiro, exatos oito anos depois de sua morte. Ressuscitado na TV, conta o significado de Afrociberdelia, nome do segundo CD de sua banda, a Nação Zumbi. “Afro pela nossa descendência, Ciber pela nossa relação com as novas tecnologias e Delia pelas cores, pelo sonho, pela profunda intimidade cultural de nossa gente com a psicodelia”, decreta em triunfo.

Foram dois discos somente. O bastante para que o coro dos descontentes decretasse novos ventos na canção pop brasileira. Além de Afrociberdelia, de 1996, já havia gravado Da Lama ao Caos, em 1994.

Foi em 1991, em contato com o bloco afro Lamento Negro, de Peixinhos, subúrbio de Olinda, que inventou toda a história. Até então era um garoto da periferia que amava o funk e o hip hop. Dessa outra mixagem, assim como a das ruas de Recife e Olinda e mais o resto do mundo excluído de negros, galegos, cafuzos, blacks, cucarachas e afins, que cozinhou na lama o mangue beat.

Os discos de Chico Science e Nação Zumbi foram reeditados e andam por aí, quase a preço de caranguejo na beira da estrada. Existe mais um ainda, feito depois de sua morte, com gravações ao vivo e remixagens. São todos um soco na boca do estômago do servilismo que virou o mercado de discos no mundo.

A Fiat indenizou a família de Chico Science pelo rompimento do cinto de segurança do Uno que dirigia, emprestado pela irmã. Diante daquele poste, e por muitos anos depois, ainda pergunto o tanto que este país e o mundo perderam com aquela porrada.

 

Rosinha de Valença foi uma das maiores violonistas do Brasil, quiçá do mundo. Passou os últimos 12 anos de sua vida em coma, em decorrência de uma parada cardíaca, e faleceu em 2004, deixando uma grande e esquecida obra. Até agora pelo menos.
Maria Bethânia, cantora que viu seu estrelato acontecer no show Comigo me Desavim, de 1967, com direção musical da própria Rosinha, resolveu homenagear a amiga, violonista e compositora, com um disco inesquecível, batizado de Namorando a Rosa.
O CD traz várias canções que foram gravadas por ela e, principalmente, outras que compôs, com letras inclusive. Além disso, traz também um punhado de talentos, amigos e parceiros de Rosinha.

Participam Chico Buarque, Bebel Gilberto, Miúcha, que assina a produção em parceria com Bethânia, Dona Yvone Lara, Caetano Veloso, Hermeto Paschoal, Turíbio Santos, Yamandu Costa e por aí afora, numa constelação poucas vezes vista e ouvida dentro de um projeto tão pouco viá­vel comercialmente.

Bethânia, que aparece em cinco canções, disse que privilegiou o lado caipira de Rosinha que, apesar de ser um dos ícones da bossa nova, era nascida e criada no interior. Rosinha era de Valença, Rio de Janeiro, e ganhou o nome artístico do jornalista Sérgio Porto. Ele sempre dizia que ela tocava por uma cidade inteira.

No entanto, o que ainda causa mais impacto mesmo é a abertura onde Rosinha, razão de toda a história, interpreta o lindo choro de Waldir Azevedo, Pedacinho do Céu. Ali tudo se justifica e se move para outra dimensão. Muito mais do que a perda irreparável de uma grande artista que foi embora antes da hora, fica a sensação de gratidão pela imensidão do tanto que deixou.

 

Uma das melhores surpresas dos últimos anos vem direto de Sampa, mais precisamente de dentro do projeto Clube do Balanço. Trata-se da cantora Tereza Gama e seu primeiro disco solo, que leva o singelo nome de Aos Mestres com Carinho – Homenagem ao Partido Alto.

Além da coragem e bom gosto na escolha do repertório, Tereza tem também outra imensa virtude, que é o vozeirão afinado, cheio de ritmo e alegria. O disco transborda do começo ao fim da mais fina simplicidade e bom gosto. Vários partidos que nos acostumamos desde sempre a ouvir, em sua interpretação assumem riqueza e modernidade infinita, vindas de outros tempos e senzalas, prontas para cruzar o futuro.

E rolam sambas maravilhosos como Dedo na Viola (Gracia do Salgueiro), A Volta (Candeia), Coisa da Antiga (Wilson Moreira/Nei Lopes), Gamação (Candeia) e Roda de Partideiro (Wilson Moreira/Doutor). Outros representantes do embrião do gênero aparecem em Maria Madalena da Portela, composta por Aniceto do Império, e Barracão é Seu (domínio público), que foi gravada por Clementina de Jesus em 1966. Vale a pena destacar também outro sucesso de Clementina, Na Hora da Sede, parceria do santista Luiz Américo com Braguinha.

Um dos aspectos que garantem a perenidade do disco de Tereza é a escolha do tipo de instrumentação e seus respectivos músicos. Com a produção musical de Leonardo “Gringo” Pirrongelli, participação do lendário Oswaldinho da Cuíca, de integrantes dos Demônios da Garoa, além de arranjos de metais do Bocato, o Aos Mestres com Carinho – Homenagem ao Partido Alto conta com uma sonoridade digna dos sambas e da voz da cantora. A rapaziada embrulha o presente para a eternidade.

julinhobittencourt@hotmail.com



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