Toques musicais

Dicas culturais Por Julinho Bittencourt   E o que, em projetos parecidos, nas vozes de outros, costuma virar um amontoado de clichês e oportunismo puro, com Maria...

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Dicas culturais

Por Julinho Bittencourt

 

E o que, em projetos parecidos, nas vozes de outros, costuma virar um amontoado de clichês e oportunismo puro, com Maria Bethânia virou uma obra prima. Trata-se do recém lançado Que Falta Você me Faz, todo com canções que trazem letras de Vinícius de Moraes. O disco é, acima de tudo, uma homenagem. O que parece ter norteado a escolha do repertório é a alma do poeta, sua obra e a importância que teve na vida da cantora e do público de forma geral. Um disco que veio, acima de tudo, pra mostrar que Vinícius está presente em toda a parte, em tudo o que ainda se faz de bom na nossa música.

Bethânia conta que recolheu mais de duzentas canções do poeta e selecionou as 14 do disco com dor no coração. A versão final ficou com 15, pois foi acrescida de Nature Boy, de Eden Ahben, que Vinícius adorava e costumava cantar. Aos fãs sempre vai parecer que faltou esta ou aquela. Mas o fato é que a cantora conseguiu traduzir com o disco o que é, significou e significa até hoje a obra de Vinícius dentro da música popular brasileira.

Tudo é lindo e elegante em Que Falta Você me Faz. Canções e formas de um tempo que vive escondido dentro do nosso. A voz do poeta comparece em Poética I, que precede O Astronauta: “De manhã escureço, de dia tardo, de tarde anoiteço, de noite ardo… Nasço amanhã, aonde há espaço: – Meu tempo é quando”. E ponto final.

 

Heraldo do Monte sem gravar desde a década de 80, quando fez três excelentes discos, um pelo selo Eldorado e dois pelo Som da Gente, além de outro com participação no grupo Medusa. Em 2000 gravou, ao lado do violonista e filho Luis do Monte e do percussionista Déo Araújo, o lindo Viola Nordestina. Mais alguns anos de silêncio e Heraldo volta, agora com seu instrumento de fato e origem, a guitarra elétrica, no também excelente Guitarra Brasileira. Trata-se de um mapa musical brasileiro, executado com destreza desconcertante, bom gosto e, acima de tudo, belíssimas composições.

As composições, todas de Heraldo, se reportam à regiões do Brasil. Os próprios nomes entregam as origens em alguns, como Caminho do Mar, sobre o sudeste, Passeio da Chalana, sobre o centro e por ai afora. O músico conhece como poucos os ritmos brasileiros. Além disso, tem talento suficiente para não folclorizar a história. O disco soa todo o tempo moderno, vivo, repleto de inovações harmônicas, ao mesmo tempo em que se identifica de pronto com as nossas mais autênticas tradições.

Guitarra Brasileira vale muito a pena por diversas razões incontáveis. Poucas obras e artistas dão a conta certa do que é o Brasil e sua música quanto Heraldo do Monte. Este ano o músico completa 70 anos e continua sendo um dos mais modernos e inovadores dos nossos músicos de fato. Seu jeito de tocar guitarra e sua música foram recolhidos das nossa coisas mais íntimas. No som de Heraldo habita o violeiro nordestino ou o do Goiás. Vive o frevo pernambucano, o samba de São Paulo e a Bossa do Rio. Na guitarra brasileira de Heraldo do Monte nosso pais se reconhece. E agradece.

 

Alberto Rosemblit é um dos compositores mais ouvidos do Brasil. Você pode até não saber, mas escuta a sua música todos os dias. Pelo menos se o leitor costuma assistir televisão e, mais especificamente a Rede Globo. Há mais de dez anos o pianista, compositor e arranjador faz trilhas para a emissora. Gravou seu primeiro e único disco, Trilhas Brasileiras, em 2001, e agora o selo Biscoito Fino o reedita.

Trilhas Brasileiras não é um disco com trilhas da Globo. São composições de Rosemblit, feitas pelo puro e simples prazer de compor, de dizer coisas, mostrar enfim a sua voz musical independentemente das imagens. Tudo parte do seu imaginário e suas influências, mais claras de Tom Jobim, Villa-Lobos e George Gerswhin, mas também da canção popular brasileira, o choro, samba, a bossa nova e a música de concerto.
O disco conduz o ouvinte de primeira. De muito bom gosto e leveza, é ao mesmo tempo simples, anguloso, relaxado. Suas melodias são bonitas, tocantes, bem construídas, quase épicas.

Com poucos instrumentos, cordas discretas e vários solistas do primeiro time como Jacques Morelembaum, Paulo Jobim, Marcelo Martins entre outros e dividindo as regências com Vittor Santos, que também toca trombone, o resultado sonoro é impecável. Rosemblit toca seu piano durante todo o disco, de forma suave e comedida, mas o suficiente para alinhavar toda a sonoridade de maneira bastante homogênea.

Trilhas Brasileiras é um disco raro, incomum. Bonito e sensível, não faz parte de um projeto maior, de nenhuma linha evolutiva nem nada do gênero. Não tem a pretensão de ser meio de vida, mas é feito por profissionais do mais alto nível. Por isso tudo e mais um monte de razões inexplicáveis é um sopro de felicidade e bom gosto.

 

E por falar em relançamentos, acaba de voltar às prateleiras os dois discos do compositor, arranjador e violonista Mário Adnet, imprescindíveis para quem gosta de bossa nova. Gravados com 5 anos de intervalo, Pedra Bonita e Para Gershwin e Jobim têm uma grande identidade e expõe, dentro de um formato antigo e imaginário moderno, muito boa música e excelente execução.

O colaborador e adorador confesso de Tom Jobim, em momentos, lugares e situações diferentes fez dois discos que se ligam por um fio condutor único e muita variedade de ritmos e estilos de execução. Nos dois casos está cercado por excelentes músicos, arranjos bem cuidados e belíssimas composições, algumas dele mesmo e outras velhos clássicos.

Pedra Bonita, de 92, é mais brejeiro do que Para Gershwin e Jobim, feito em 97, em forma de homenagem, mas principalmente como brincadeira musical. Ao contrário do que o nome sugere, não é um disco de releituras. Nele Adnet faz com que sua música pareça com os dois compositores ao mesmo tempo, soe como eles.

Tudo vale a pena nos dois relançamentos de Mário Adnet. Um compositor e instrumentista discreto, que faz uma música poderosa e inventiva, mas que precisa ser redescoberta a cada audição. Quanto mais entramos no universo de Adnet mais percebemos o quanto ele tem de belo e incomum.



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