Toques Musicais

Coluna Por Julinho Bittencourt   Existem vários mundos entre Paulo Moura e Yamandú Costa. Variações de tempo e espaço, onde cabe quase toda a cultura urbana brasileira,...

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Coluna

Por Julinho Bittencourt

 

Existem vários mundos entre Paulo Moura e Yamandú Costa. Variações de tempo e espaço, onde cabe quase toda a cultura urbana brasileira, proveniente de e também insinuada por várias fronteiras. Os dois, de idades, tendências e instrumentos diferentes, se encontram em um local indefinido, onde a linguagem e forma predominante é a da música, acima do verbo.
Se encontram pela primeira vez em El Negro del Blanco, um disco onde os dois instrumentistas rasgam o Brasil ao meio de forma magistral, alegre e sóbria. Yamandú, com seu violão de sete cordas, traz de lá dos pampas uma saborosa mistura de ritmos latino-americanos, enquanto Paulo Moura, com seu clarinete transparente, traz o jeito e suingue das ruas, vielas e becos de um Rio que, contra tudo e todos, insiste em existir.
É difícil dar um destaque a tudo o que acontece nos discos. A temperatura fica elevada do começo ao fim. Os ritmos e a boa música se alternam. Melodias conhecidas e consagradas, como Duerme Negrito, de Ataualpa Yupanchi, Sons de Carrilhões, de João Pernambuco e Turíbio Santos, um pot pourri com sambas de Baden, Gracias a La Vida, clássico de Violeta Parra e o achado para o formato, a canção de Ibrahim Ferrer, De Camino a La Vereda, celebrizada no filme “Buena Vista Social Club”, de Wim Wenders. Existem de fato vários mundos entre Paulo Moura e Yamandú Costa. Mundos feitos de som, talento e muita competência, desprovidos de qualquer rótulo ou preconceito.

T
om Zé acaba de lançar Estudando o Pagode – Na Opereta Segrega Mulher e Amor, outra das suas provocações, desta vez produzida por Jairzinho Oliveira. É um projeto ambicioso, conceitual. Uma opereta inacabada, conforme o próprio autor, dividida em três atos, que tem como tema principal a segregação da mulher, o seu uso pelo homem como escrava do trabalho doméstico e do prazer.
No libreto, o compositor descarrega todo o escárnio e a agressividade de forma pouco usual até para ele mesmo. Abraça a questão por todos os ângulos e não parece sobrar nada de masculino em pé, com o perdão do trocadilho.
Com o auxílio de jovens cantores, entre eles Suzana Salles, o próprio Jairzinho, Patrícia Marx e Zélia Duncan, Tom Zé parece mais uma vez o menos velho, que há mais de 40 anos inventa a canção que ainda não foi feita. A garotada agradece e se renova com ele.
Desta vez, com Estudando o Pagode – Na Opereta Segrega Mulher e Amor, além do novo, Tom Zé procura o liberto perdido em cada um. Procura o feminino como metáfora para o óbvio. E consegue ser tão lindo quanto.

V
ictor Assis Brasil morreu no começo da década de 1980 e deixou uma pilha de temas inéditos dentro de uma mala. Por respeito, medo, reverência ou tudo ao mesmo tempo, a mala só foi aberta por seu irmão, João Carlos Assis Brasil, muitos anos depois. Estarrecido, percebeu que havia uma centena de obras-primas. Depois de muito revirar, ouvir, tocar e se emocionar resolve, enfim, compartilhar com o público o legado.
O disco acaba de chegar às lojas com o insinuante nome de Self Portrait (auto-retrato) – Assis Brasil por Assis Brasil, já que os protagonistas são gêmeos.
A gravação carrega uma forte dose de melancolia e também beleza incomum, ingredientes que sempre marcaram a música de Victor Assis Brasil. O saxofonista tinha de fato um algo mais que o diferenciava do resto. Fez alguns discos memoráveis, nos quais vinham juntos um grande apuro técnico e muita, mas muita, beleza mesmo.
Seu irmão, João Carlos Assis Brasil, por sua vez, é um dos grandes pianistas do Brasil. Juntou um quarteto básico, claro, no qual a sonoridade fez prevalecer as lindas melodias do irmão.
Dentro do baú de Victor Assis Brasil tem mais de 400 composições. O disco só tem 12, sendo todas ótimas. Deve vir muito mais por aí, de acordo com João Carlos. É quase como se houvessem arrancado o músico de lá de dentro por mais alguns muitos anos. Que assim seja.

O
historiador egípcio, naturalizado inglês, Eric Hobsbawn, diz em seu livro A História Social do Jazz que, entre as décadas de 1920 e 1950, a música popular americana teve a sua maior aproximação com a música culta. Nunca, segundo o autor, a música feita nas ruas da América havia sido tão elaborada quanto naquele precioso momento. Tratava-se do jazz, que tinha como grandes nomes de época Louis Armstrong, Duke Elington, Miles Davis e Gil Evans.
Se Hobsbawn se estendesse ao Brasil, muito provavelmente diria a mesma coisa com relação ao choro carioca do mesmo período. Pelas ruas do Rio, nomes como Pixinguinha, João Pernambuco, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, entre tantos outros, dignificaram a música do povo.
A música brasileira deve muito, pra não dizer quase tudo, ao choro e suas vertentes. E assim como o encontro entre Miles Davis e Gil Evans, que gerou o imprescindível Birth of the Cool, do final da década de 1940, foi o grande marco de excelência do jazz americano, Chorando Baixinho, encontro histórico entre o pianista erudito Arthur Moreira Lima, o conjunto Época de Ouro, Abel Ferreira no sax e clarinete e ainda Copinha na flauta, Joel Nascimento no bandolim e Zé da Velha no trombone foi, talvez, a nossa grande obra. O nosso encontro definitivo entre a técnica e o sabor, a quintessência e o gingado. A grande quebra da fronteira entre o que explodia das pessoas e o que se estudava nas escolas e institutos da Europa.
Chorando Baixinho foi gravado em outubro de 1978 no Teatro Nacional do Rio de Janeiro. O disco foi feito para marcar o aniversário de 30 anos de uma construtora. Mas tratava-se de fato de um velho sonho de Arthur Moreira Lima. Apaixonado pelo choro (chegou até a gravar as obras de Ernesto Nazareth para o selo Marcus Pereira), queria porque queria tocar com os grandes chorões. O encontro histórico, que durou apenas aquela noite, foi gravado e é um disco maravilhoso, para dizer pouco, de um registro emocionado e único. Arthur consegue como poucos eruditos irradiar o espírito do choro. A sua forma de executar é prenhe de ritmo e sabedoria. Chorando Baixinho é um disco lindo, de música popular com construção erudita.

 



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