Um militante da al-Qaeda no Brasil

Pulverizada, a rede terrorista al-Quaeda hoje tem nos seus líderes apenas fontes inspiradoras. Assassinados, eles se tornariam mártires. Fórum conversou com Hassin Ali, que se diz um dos milhares de militantes no planeta conectados à rede. Nem todos participam de ações violentas, mas estão...

368 0

Pulverizada, a rede terrorista al-Quaeda hoje tem nos seus líderes apenas fontes inspiradoras. Assassinados, eles se tornariam mártires. Fórum conversou com Hassin Ali, que se diz um dos milhares de militantes no planeta conectados à rede. Nem todos participam de ações violentas, mas estão na luta

Por Anselmo Massad 

Membros da organização Jamaat Tabligh, ligada à rede terrorista al-Qaeda, aportaram nas cidades argentinas Bahía Blanca, Laprida e Balcarce, na província de Buenos Aires. O grupo é suspeito de ser o responsável pelos atentados de 11 de março de 2004 em Madri, Espanha, origem dos terroristas. A passagem pelo país teria por objetivo recrutar e treinar candidatos a homens-bomba. A informação vazou do serviço de inteligência argentino para o jornal La Nacíon. A repercussão foi grande porque no início de novembro Mar del Plata abrigará a Quarta Cúpula das Américas, com a presença de vários presidentes do continente, incluindo George W. Bush.

A existência de membros de grupos ligados à al-Qaeda nas proximidades da tríplice fronteira é motivo de rumores há algum tempo. Corre o boato de que até Osama bin Laden, o mais procurado do mundo, teria passado por Foz do Iguaçu, em meados dos anos 90. Em novembro de 2001, uma fotografia de cataratas encontrada numa célula do Taleban, em Cabul, no Afeganistão, foi apontada como sendo do ponto turístico brasileiro, o que reacendeu o debate. Em outubro de 2004, na reunião geral da inglesa Interpol, John Newton, oficial da divisão de investigação a violações de propriedade intelectual, indicou que havia indícios de envolvimento da rede com o contrabando de cigarros na região utilizada como forma de financiar as ações.

A presença de fundamentalistas muçulmanos na Argentina tampouco é fato inédito. Em 18 de julho de 1994, a sede da Associação Mutual Israelense-Argentina foi alvo de explosões que mataram 85 e feriram 300 pessoas, à época atribuídas ao Hezbollah e a agentes iranianos, que negaram a autoria. No Brasil, apesar das investigações contra muçulmanos e árabes no interior do Paraná, a presença sempre foi negada e encarada até como invenção norte-americana para implantar bases militares no país.

O fato de a rede estar espalhada pelos mais diversos cantos, da Ásia à América do Norte, incluindo África e Europa, torna a existência de células em regiões com relativa fragilidade de vigilância uma arma na luta sangrenta da organização. Fórum localizou um integrante da rede que mora numa cidade do estado de São Paulo. Hassin Ali, nome muçulmano de um jovem de 25 anos, diz ser da al-Qaeda. Descendente de imigrantes árabes, não teve criação religiosa, e só descobriu que tinha antepassados muçulmanos depois da conversão.

Hassin Ali diz discordar de atentados contra civis que não sabem por que estão morrendo, mesmo admitindo ter comemorado a queda das torres gêmeas em 11 de setembro. Simpatiza sem hesitar com a necessidade de se expulsar os norte-americanos do mundo islâmico, mas nega qualquer vínculo financeiro ou com ações violentas – seja no planejamento, seja na execução –, o que é o padrão do trabalho dos brasileiros ligados à rede, segundo ele.

Hassin, que se recusa a participar de treinamentos ou ações violentas – às quais se refere como “besteiras” balançando a cabeça negativamente – encontra-se no quarto e mais inferior nível da hierarquia. Por isso, fica distante de qualquer informação “quente” a respeito de quem são as pessoas-chave no país, detalhes de planos etc. Acima dele, no terceiro nível, os dados circulam mais facilmente, mas ainda com atraso, já que a principal atividade desses membros também é principalmente fazer ações beneficentes. Eventualmente, alguns deles podem ter recebido treinamento militar, mas não é a regra. No Brasil, segundo ele, os membros estão nesses níveis, espalhados, principalmente, por Foz do Iguaçu e pela região metropolitana de São Paulo.

Os dois primeiros níveis é que são os encarregados pelo planejamento e execução, chamados de Mujahedin, combatentes da guerra santa. Os militantes do segundo escalão aguardam apenas uma comunicação superior com instruções sobre o plano. São muçulmanos fundamentalistas, na maioria jovens, muitos com formação universitária, dispostos a se tornar homens-bomba a um toque de telefone.

Simpáticos à causa, mesmo os membros dos níveis inferiores têm eventualmente contato com lideranças dos níveis superiores, em alguns poucos congressos ou encontros religiosos. As estimativas de especialistas falam de 200 a 300 homens no primeiro nível e alguns milhares no segundo. Hassin revela já ter sido convidado a ascender na hierarquia para dar treinamento numa célula mantida no norte da Argentina, mas se negou por considerar as ações pecaminosas. No país vizinho, haveria gente dos níveis superiores, alguns foragidos da polícia de países europeus ou dos Estados Unidos.

Pelo mesmo motivo, diz não aceitar pagamentos disponíveis para o trabalho, que variam de 600 a 1,2 mil dólares mensais, em geral, feitos em notas da moeda americana. Um nível acima, a remuneração chegaria a 2,5 mil. Mesmo com os esforços e avanços propagandeados no combate à lavagem de dinheiro por autoridades norte-americanas, a circulação permanece e a existência de novos atentados sustenta que outros meios são criados.

Pulverização

Para entender o que esses quatro níveis representam é necessário recapitular a história da rede. Principalmente porque, desde a ocupação do Afeganistão, em outubro de 2001, seis semanas depois do ataque às torres gêmeas e ao Pentágono, uma série de prisões e assassinatos de líderes da al-Qaeda foram realizados pelos Estados Unidos, Arábia Saudita, Marrocos, Indonésia, entre outros, era de se esperar que a rede fosse minguando. Três quartos dos líderes iniciais estão fora de circulação, segundo estimativas do serviço de inteligência americano.

O que se viu em Madri e no Iraque desde o início de 2004 e em Londres em julho deste ano mostra que a organização continua viva. “A al-Qaeda hoje é menos uma organização e mais uma idéia”, defende o editor da revista inglesa The Observer Jason Burke. “O fato é que Bin Laden e outros não precisam organizar ataques diretamente. Eles nem precisam esperar que a mensagem espalhada pelo mundo inspire outros. É uma rede terrorista virtual, não-real”, provoca. O próprio nome al-Qaeda, que significa “a Base” é apontado como um exemplo dessa tendência, ainda que, inicialmente, houvesse uma centralização maior.

A origem remete à guerra contra os soviéticos na década de 80 no Afeganistão. Bin Laden e outros radicais religiosos dispostos a lutar contra a invasão comunista em defesa do país de maioria muçulmana começaram a organizar uma rede para expulsar os traços ocidentais do mundo islâmico, junto com a submissão e a degradação moral impostas pelo Ocidente. A expansão começou pelo Paquistão e pelos países do Oriente Médio, seguindo para o Norte da África, via Sudão (onde bin Laden viveu de 1991 a 1996) e Somália.

“Um objetivo secundário é estabelecer um Califado ou um Estado islâmico”, sustenta Burke. Ele admite que é vaga a noção de qual seria esse território, se correspondente ao califado dos primeiros séculos da religião ou se mais amplo, baseado no auge do império otomano, entre os séculos XV e XVI, que abrangia o norte da África e Península Ibérica, além de todo Oriente Médio. Na primeira hipótese, se estaria falando de um Estado compreendendo os países árabes fronteiriços a Arábia Saudita. Por esse motivo, a luta contra a dinastia Saud, que governa os sauditas com mão-de-ferro e subserviência à Casa Branca, é considerada prioritária desde o início das atividades terroristas. O país abriga as duas cidades mais sagradas para os religião.

Marc Sageman, ex-oficial da CIA, hoje consultor para assuntos de segurança e terrorismo, considera que a rede adquiriu novo aspecto, tendo sido entregue a free-lancers, organizações autônomas e pulverizadas que se comunicam via internet, eventualmente com troca de dinheiro e planos, mas que fazem o trabalho em nome da al-Qaeda. “Tivemos sucesso em acabar com os campos de treinamento e os meios de comunicação entre seus membros, mas o movimento social de violência cresceu”, sustenta. Partidário da política externa norte-americana, ele refere-se principalmente à mobilização iraquiana diante da ocupação, mas também a jovens no Marrocos, Tunísia, Indonésia, entre outros.

Para Sageman, a organização fica na posição de aceitar ou não a ação, de acordo com certos critérios, como o tipo alvo atingido e o tipo de vítimas. No Iraque, em 12 de julho, por exemplo, homem-bomba se explodiu perto de um grupo de crianças, matando 27 pessoas e ferindo 67, segundo o Ministério do Interior do país, incluindo crianças, motivo por que não teria sido aceito. Há que se fazer a ressalva de que em Madri e Londres, por exemplo, não havia garantias de se selecionar a faixa etária das vítimas.

Hassin Ali conta que não se sente impelido à luta armada, mas reconhece que os líderes são bastante respeitados por ele e outros membros, mesmo sem precisar estar próximos ao planejamento dos atentados. Isso faz com que avalie que, se bin Laden fosse morto ou preso, o fervor dos simpatizantes da causa poderia ser exacerbado abruptamente. “Muitos o consideram até um Deus, e sua morte faria detonar uma série de planos que só aguardam a autorização”, teme.

Essas organizações que “terceirizam” o terror em nome da al-Qaeda se consideram participantes da rede, e com ela se identificam como uma ideologia ou outro nome para Jihad, a guerra santa. Reproduzem, de certo modo, a divisão hierárquica geral e dialogam com outros grupos. Além do Jamaat Tabligh (Uzbequistão, Paquistão, Índia etc.), que quer dizer Sociedade dos Propagadores da Fé, identificado na Argentina, pode-se citar o Tawhid e Jihad (Iraque), comandado pelo jordaniano Abu Musab Zarqawi, e responsável pelos seqüestros de estrangeiros e ações contra xiitas do país, e a Organização Secreta da al-Qaeda na Europa, que assumiu a autoria dos atentados em Londres, antes do qual era desconhecida.

Rede virtual


A transmissão das linhas gerais de atuação e do estímulo, assim como eventuais trocas de planos, ocorrem via internet ou pelo uso de funcionários de cargueiros que repassam planos e projetos de explosivos para contatos em cidades portuárias. São engenheiros, químicos e físicos que mantém uma vida dupla a bordo das embarcações.

Mas é na rede mundial de computadores que a al-Qaeda encontrou seu canal. O avanço das técnicas de investigação de correios eletrônicos – com todas as implicações contra a privacidade – limita essas conversas a questões que possam ser tratadas de forma cifrada. São usadas contas de correio eletrônico de membros de níveis inferiores na hierarquia que “emprestam” suas senhas de e-mail para que outras pessoas acessem as mensagens. As mensagens não são enviadas, mas armazenadas na pasta Rascunhos, dificultando o acesso dos serviços de inteligência. Esse tipo de operação só funciona em serviços com suporte na internet, webmails, disponíveis aos montes gratuitamente em serviços como Yahoo!, Hotmail, Gmail etc.

Há ainda o recurso das páginas de internet, cujos domínios são trocados constantemente. Como a hospedagem é barata e sem controle dentro até dos Estados Unidos, a manobra é simples. O pesquisador americano Evan Kohlmann, da Universidade de Georgetown, criador da página Globalterroralert.net, cita um caso exemplar da eficiência com que os “ciberterroristas” conseguem atuar, envolvendo Abu Musab Zarqawi, líder das ações no Iraque.

Em 29 de julho deste ano, um vídeo chamado Toda religião será para Alá trazia 46 minutos de ações de guerra no Iraque, com cortes precisos e montagem profissional. O meio de distribuição do vídeo era uma página com dezenas de links em vários formatos de arquivo e tamanhos para baixar. “Se você tivesse banda larga, poderia baixar um com mais definição, ou menos se estivesse com linha discada. Podia até baixar para assistir no celular”, revela. Kohlmann é autor do livro Jihad da al-Qaeda na Europa, sem edição em português.

Quanto aos próximos atentados? Há diferentes apostas. Podem tanto tentar repetir a Inglaterra ou os Estados Unidos, quanto partir para a o Japão, Itália e Polônia. Os dois últimos países europeus seriam os prediletos por causarem mais impacto midiático, sendo a Polônia apontada como o menos preparado para prevenir ataques.

Meus contatos com Hassin Ali

Depois de voltar da Palestina, onde fiz uma das últimas entrevistas com Yasser Arafat para um veículo brasileiro, participei de diversas palestras sobre o tema, principalmente depois de sua morte.

Foi numa dessas conferências que um jovem muçulmano se aproximou para conversar. Expôs suas discordâncias sobre algumas das minhas opiniões e explicou que tinha ligações com gente que participava do Hamas no Brasil.

Fiquei intrigado e intensifiquei contatos com ele. Marcamos uma reunião. Nesse dia ele revelou, com a masbaha nas mãos, cordão com contas semelhante a um rosário católico, que é um militante da al-Qaeda. Mostrou fotografias de outros membros, deu informações sobre a rede e sobre suas trocas de mensagens eletrônicas com muçulmanos de outros países, principalmente do Paquistão.

Vale a pena destacar que ele não mistura dados ou fantasia histórias. Tem boas informações e conhece detalhes que não são públicos. Hassin Ali afirmou em todas as nossas conversas que não participa de ações violentas. Parece dizer a verdade.



No artigo

x