Um outro MST

A grande imprensa trata o movimento social mais reconhecido em todo o mundo de forma simplista e preconceituosa, ignorando a sua forma de organzação e aevolução vivida ao longo de seus 21 anos Por Glauco...

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A grande imprensa trata o movimento social mais reconhecido em todo o mundo de forma simplista e preconceituosa, ignorando a sua forma de organzação e aevolução vivida ao longo de seus 21 anos

Por Glauco Faria e Nicolau Soares

 

O ano era 1984 e o cenário a cidade de Cascavel, interior do Paraná. Durante três dias, trabalhadores rurais de 12 estados brasileiros, juntamente com operários, indígenas e intelectuais, participaram do 1º Encontro Nacional dos Sem-Terra, que daria origem a um dos movimentos sociais mais importantes da história do país. A mensagem de Dom José Gomes, arcebispo de Chapecó e presidente da Comissão Pastoral da Terra, sacramentava o apoio à fundação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. No ano seguinte, em seu 1º Congresso Nacional, os militantes já estavam espalhados por todas as regiões do país, com representantes nos 23 estados brasileiros.
Desde a sua fundação até a histórica marcha que reuniu 12 mil pessoas neste ano, o movimento encontrou uma série de obstáculos e aos poucos foi alterando o perfil de sua atuação. Os opositores mudaram, assim como os aliados, e a nova conjuntura do país aponta para mais transformações dentro do movimento.
Para se ter uma idéia de quais eram os dilemas da organização à época, durante o 1º Congresso Nacional, o MST teve de optar se aderia ou não ao governo que acabara de vencer as eleições no colégio eleitoral, algo impensável hoje, mesmo com a ascensão de Lula à presidência. Com a decisão de manter-se independente, as ocupações começaram a tomar vulto em todo o Brasil. Em Santa Catarina, por exemplo, 5 mil famílias tomaram 18 fazendas improdutivas.
A reação ao nascente movimento também não tardou. Em 1986, com representantes no governo (Íris Resende, por exemplo, grande proprietário de terras em Goiás), os ruralistas também resolveram se organizar. No mês de junho daquele ano, era inaugurada em Brasília a sede nacional da União Democrática dos Ruralistas (UDR), pregando abertamente o direito de se “defender” com o uso de armas e violência. Até o fim dos anos 80, a organização tentou fazer o contraponto às reivindicações dos sem-terra e em 1987 conseguiu levar até Brasília 40 mil grandes proprietários rurais para pressionar os deputados constituintes a votar contra as propostas de reforma agrária presentes no Congresso. Com a derrota fragorosa do líder Ronaldo Caiado nas eleições de 1989 para presidente, o poder da entidade foi diminuindo, embora ainda tenha influência em diversas partes do país.
“Naquela época, as coisas eram feitas com muito sigilo, pois a repressão era muito forte. Na primeira ocupação em Pernambuco, a polícia mandou até helicópteros”, lembra Gildo Aguiar, da Secretaria Geral de Articulação Política em Brasília. Filho de uma família de classe média alta de Caruaru, saiu de casa aos treze anos e foi membro-fundador do PT na cidade. Ele pôde acompanhar de perto a atuação do MST na década de 90, quando houve um crescimento vertiginoso tanto de militantes como de ocupações. “Em 1993, estava na Pastoral da Juventude Rural e o movimento começava a chegar na região. Na época, havia apenas dois assentamentos. Em 2001, eram 91”, recorda.
Aos 35 anos, Gildo é um dos muitos que tem contato com o MST desde criança. Outros como ele praticamente nasceram dentro do movimento, caso de Miguel Stédile, primogênito de João Pedro Stédile. “Desde criança eu acompanhava o meu pai nas reuniões em acampamentos do Rio Grande do Sul”, relembra. Como poucos, ele pôde acompanhar como o MST evoluiu desde sua fundação. “Ocorreu uma mudança estrutural no sentido de ampliar a participação de todos nas decisões. Politicamente, crescemos ao perceber que a tarefa principal é a reforma agrária, mas ela deve ser feita junto com um projeto popular de desenvolvimento para o país”, esclarece.
E essa ampliação das áreas de atuação do movimento tem contado com a participação fundamental dos militantes mais novos. Setores como educação, cultura e comunicação não recebiam uma grande atenção há vinte anos. “Os jovens trazem outro tipo de demanda. A cultura, por exemplo, é uma forma de trabalhar com a juventude, assim como a comunicação que facilita o diálogo com a sociedade”, explica Miguel Stédile.
Durante marcha dos sem-terra a Brasília, podia-se ver um bom exemplo das iniciativas do MST na área cultural. De repente, em meio à multidão que caminhava, surgiam atores que encenavam peças-surpresa simultaneamente em vários pontos do acampamento. Uma espécie de “guerrilha teatral”, segundo Rafael Litvin Villas Boas, de 26 anos, coordenador da Brigada Nacional de Teatro Patativa do Assaré, coletivo responsável pelas apresentações teatrais da Marcha. “A brigada surgiu em 2001, quando o dramaturgo Augusto Boal fez uma parceria com o MST para uma série de oficinas de teatro”, conta Rafael. “Depois disso, acabamos buscando uma forma de ampliar o processo e, alguns meses depois, criamos a brigada. Nossa preocupação era a de ensinar outros locais que não tiveram contato com a oficina e trocar experiências”, completa.
Além da tática de “guerrilha”, houve também a representação de uma “via sacra política”. Para Rafael, essas manifestações são uma demonstração de que hoje o MST de fato encara a cultura como prioridade. “Há uma evolução clara nesse sentido”, acredita, constatando que o grau de sofisticação dos trabalhos desenvolvidos na área é um dado animador. “Antes as peças antes tinham enredos frágeis. Hoje, temos textos elaborados, fazemos leituras críticas para melhorar, discutimos. Isso é bom porque optamos por qualificar e não só quantificar”, atesta.
Outro ponto que ganha cada vez mais relevância no MST é a educação. No início, os professores eram trazidos de fora do movimento para dar aulas nos acampamentos. Hoje são os militantes que ministram os cursos. “Nos anos 90, nas escolas dos assentamentos, os professores vinham da cidade, não sabiam onde estavam e não se preocupavam com o que iam ensinar para as crianças. Muitos eram preconceituosos”, conta Cláudia Praxedes integrante da direção estadual de São Paulo.
“O grande desafio é estruturar a dinâmica do movimento. As questões são geradas a partir da base, mas sempre haverá a necessidade de pessoas com uma visão mais ampla, com o olhar mais à frente”, explica Guiomar Inez Germani,
professora de Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenadora do GeografAR (Geografia em áreas de Assentamento Rural). “Isso só faz sentido se essa reflexão chegar até a base e for internalizada, o que só pode ocorrer por meio da educação”, completa.
Para Guiomar, dentro dos assentamentos podem ser desenvolvidos conteúdos e práticas pedagógicas que fogem da linha tradicional de ensino, o que é positivo tanto para os assentados quanto para as pessoas que moram nos arredores – é comum os cursos terem alunos que vêm das cidades próximas. “Hoje, há uma preocupação maior no MST com questão da formação e isso se reflete no apoio dado ao professor e na atenção às dificuldades pedagógicas cotidianas do movimento, qualificando a escola”, aponta. “Existe também um grande esforço para realizar cursos de especialização em áreas técnicas, como o firmado com a Universidade Federal do Sergipe e que deverá ser reproduzido na Estadual da Bahia, já que na UFBA o processo foi brecado pela burocracia e pelo corporativismo dos agrônomos que resistiram à idéia de criar um curso específico, voltado para a agricultura familiar, e não para o agro-negócio monocultor”, conta.
“Nossa idéia é trazer o conhecimento para a vida do aluno. É muito baseado no método de Paulo Freire”, relata Cláudia Praxedes. “Não queremos educar para que a pessoa seja tratada como uma mercadoria, nem que os alunos na classe se enxerguem como adversários porque concorrem a uma vaga no mercado de trabalho. Queremos que eles adquiram conhecimentos, se tornem pessoas críticas”, assegura.

Novos ares

João Pedro Stédile, um dos fundadores e o nome público mais conhecido dentro do movimento, declarou certa vez que, se fosse assassinado, tinha a certeza de que o MST não seria desmantelado por isso. A afirmação ilustra não apenas uma organização que, de fato, vem da base, mas põe à mostra uma das maiores falhas na cobertura feita pela grande mídia. Stédile é tratado pela imprensa como uma espécie de presidente do movimento. No entanto, a estrutura hierárquica do movimento não comporta algo assim. Como toda organização, principalmente no início o MST precisou de líderes que traçassem um rumo para os militantes, mas com o passar do tempo não só o número de lideranças foi aumentando como o processo de descentralização das decisões se aprofundou cada vez mais.
Hoje, nas várias instâncias, a coordenação é feita por grupos, ou coletivos, termo utilizado pelos sem-terra. Cada assentamento escolhe representantes para as regionais, que enviam delegados para o nível estadual e posteriormente garantem sua representação na coordenação nacional. Essa estrutura capilarizada garante uma grande rotatividade de lideranças, o que explica o grande número de jovens presentes em cargos-chave do MST. Hoje, o caso mais evidente é o de João Paulo Rodrigues (ver entrevista à pág. 12), que pertence ao setor de articulação política do movimento em Brasília, além de ser membro da coordenação nacional. Mas há outras inúmeras lideranças cuja idade é pouco maior do que a do próprio movimento.
“O surgimento de novas lideranças é fundamental, é isso que garante a continuidade do movimento, embora as antigas continuem atuando”, aponta Guiomar Inez Germani, que faz uma ressalva em seguida. “Muitos dos jovens líderes alçados ao nível nacional estão em fase de formação. Isso exige atenção dos mais antigos, porque os novos podem não ter maturidade para dar conta da complexidade e amplitude do movimento”, pontua. “Mas isso é reflexo da pedagogia proposta pelo próprio MST, em suas várias frentes, de formar os líderes na própria luta”.
A história de Jadison Cavalcante, 24 anos, que faz parte do coletivo de militantes da regional de Andradina, ilustra essa idéia de formação prática. Ele estava com a família em Praia Grande, litoral de São Paulo, quando o pai recebeu a visita de um grupo do setor de frente de massas do MST, responsável pela propagação e organização do movimento na base. “Eles nos chamaram para uma ocupação que seria feita em Matão e, em 18 de dezembro de 99, entramos na fazenda”, recorda.
Vivendo no acampamento, Jadison começou a colaborar com o setor de segurança. Pouco tempo depois, após a transformação da ocupação em assentamento, Jadison foi indicado para coordenar um acampamento em Barretos. “Eu fui, mas fiquei preocupado”, conta ele. “O coordenador me falou das minhas tarefas e disse um monte de coisas que eu não entendi direito, que eu ia cuidar da ‘organicidade’ do acampamento. Eu nem sabia o que era isso”, brinca.
Depois de dois anos de militância, Jadison participou de um dos cursos de formação do movimento na escola nacional Florestan Fernandes. Ele considera a oportunidade muito importante em sua vida. “O curso ampliou a minha visão de mundo. Entrei em contato com pessoas de todo o Brasil, conheci a cultura desses lugares”, afirma. “Além disso, aprendi sobre os valores do ser humano. Dentro do curso, você vive um mundo socialista”, conclui.
Jadison, que parou de estudar na quarta série do ensino fundamental, conta que teve contato com vários filósofos, como Hegel, Aristóteles, Platão, Kant e Karl Marx. Hoje, pretende cursar a faculdade de Filosofia, mas precisa completar o ensino médio. “Quero participar dos cursos de escolarização, que tem lições de filosofia, pedagogia e outros temas casados com as matérias da escola, mas preciso me fixar em um assentamento primeiro”, diz.
Para Guiomar, o MST oferece perspectivas para os mais novos e o fato da ação do movimento não se esgotar na conquista da própria terra é um importante fator de motivação. “Uma vez assentados, fixados na terra conquistada por meio do movimento, eles têm a possibilidade de dar continuidade às ações, seja buscando a própria permanência ou ajudando os que ainda não foram assentados. Fica muito claro nos assentamentos que conheço que a juventude tem uma energia maior”, garante. “Como há a necessidade de lideranças de base, os jovens encontram espaço para carregar a bandeira, se envolver mais para construir um mundo melhor, construir uma utopia”, resume a professora, que acrescenta em seguida. “Para um jovem, participar de uma marcha como a que esteve em Brasília tem um peso para a vida. É uma experiência que marca”.
Camila Bonassa, 27 anos, é um exemplo de alguém que enxergou no movimento uma causa para se dedicar. Ela ingressou no MST aos 18 anos e hoje trabalha no setor de comunicação em São Paulo. “Minha mãe é advogada e trabalha no escritório do Luiz Eduardo Greenhalgh, que tinha muito contato com o MST. Eles precisavam de alguém que contribuísse na comunicação da secretaria nacional e eu me dispus a ir”, lembra. Camila não consegue mais imaginar como seria a sua vida fora do movimento. “Tinha uma vida muito diferente. Decidi abrir mão de muita coisa para poder participar”, conta. “No MST, passei por uma mudança radical, ainda que gradual. Digo radical porque mudei na raiz mesmo. Cresci na cidade, nunca tinha tido contato com coisas do campo e participar me fez entender que as coisas são ligadas umas às outras”.
No campo da comunicação, o MST tem buscado formas de esclarecer à sociedade as intenções e a importância do movimento. “Há um grande desconhecimento sobe o que é e o que propõe o MST. As pessoas têm uma visão reduzida. Mas para mudar essa situação hoje, dependemos da grande mídia que tem essa preocupação”, explica Camila.
Nesse trabalho, cultura e educação estão entre os principais instrumentos. “O MST tem seus cursos de formação massivos onde inicialmente só participavam jovens da base. Hoje, em alguns estados, os cursos são abertos para gente de fora do movimento”, conta Miguel Stédile. “Há uma preocupação em conseguir se comunicar com a juventude urbana”, completa.
“O público da reforma agrária mudou dos anos 90 para cá. Hoje, a maioria dos assentados vêm da cidade. Com a urbanização desordenada do país, os expulsos do campo acabaram nas cidades”, analisa Cláudia Praxedes. Dessa forma, parcerias como a realizada por ela em Campinas com o grupo de hip-hop A Família se tornam muito importantes. Integrantes dos dois lados participaram de debates em escolas da região. “O hip-hop fala com a juventude na periferia das cidades”, explica.
São pessoas como Camila, João Paulo, Cláudia, Jadison e tantos outros que garantem não só o prosseguimento da luta pela terra como também facilitam a renovação contínua do movimento. Ainda que a grande mídia ou os latifundiários (que não se escondem mais na UDR e adotam agora a tática dos “assassinatos seletivos”) não queiram ver, o MST mudou. E também provocou mudanças importantes na agenda dos governos e na sociedade. Ao contrário da visão transmitida pela grande imprensa, esses jovens participantes do MST não são manipulados por líderes tiranos e doutrinadores. São pessoas conscientes que escolheram um caminho difícil de luta pelo bem coletivo. Acreditar não é crime, é opção.



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