Uma voz contra a corrente

Um dos maiores intelectuais do Brasil, o geógrafo Aziz Ab‘Saber confronta as conclusões sobre mudanças climáticas feitas pelo IPPC e critica a postura do governo federal na área do meio ambiente Por Glauco Faria, Anselmo...

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Um dos maiores intelectuais do Brasil, o geógrafo Aziz Ab‘Saber confronta as conclusões sobre mudanças climáticas feitas pelo IPPC e critica a postura do governo federal na área do meio ambiente

Por Glauco Faria, Anselmo Massad e Mouzar Benedito

 

Prestes a completar 83 anos, o geógrafo Aziz Ab�Saber exibe em seu discurso uma vitalidade invejável. Um dos maiores estudiosos de sua área no planeta, sua capacidade de análise o deixa bastante à vontade para, por exemplo, confrontar especialistas como os que fazem parte do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). “Não sabem nada, são pessoas da Física, engenheiros e outros. Não dá para confiar neles”, ataca.
Na entrevista abaixo, concedida em sua sala no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), o professor falou sobre meio ambiente, as soluções hídrícas para o sertão nordestino, e não poupou o presidente da República. “O Lula é um grande esperto. Para poder se reeleger, fez várias reuniões com intelectuais. Uma no Rio de Janeiro foi uma coisa séria, trouxe todos os intelectuais em um restaurante muito rico, todos favoráveis. Depois, �até logo�”. Confira um trecho do publicado na revista. A íntegra está na edição em bancas.

Fórum – Muito se discute hoje que, para frear o processo de  aquecimento global, a única alternativa que de fato resolveria seria optar por uma mudança de matriz energética. Nesse caso, pelas condições do país, a escolha seria a energia hidrelétrica
mesmo?
Aziz Ab’ Saber –
A mais limpa e saudável alternativa é a energia hidrelétrica, mas estamos em um dilema. Ou fazemos essas usinas, ou caminhamos de novo para a energia nuclear, como outros países do mundo vão ser obrigados a fazer. Nem todo país tem os recursos hídricos que o Brasil tem. Aqui, são 78% de drenagens
abertas para o mar e perenes. Nossa situação de usar primeiramente as barragens para geração elétrica é favorável do ponto de vista ambiental. Mas, do ponto de vista biológico, no caso da ictiofauna fluvial, vamos ter problemas, mas não dá para resolver tudo. Os ambientalistas que lutam contra essas usinas não estão fazendo o balanço
das vantagens da usina. Há desvantagens, mas não é com isso que eles trabalham, e sim com as dificuldades de preservação da fauna fluvial no trecho a montante da barragem.
Fórum – Outro problema para a população ocorre quando não retiram a madeira. Em Tucuruí, por exemplo, aconteceu isso…
Ab’Saber –
Mas são obrigados. São obrigados. No projeto, se não
houver a remoção lateral da madeira vai ser um problema infernal que você não pode imaginar. É preciso ter ido a um lugar como esse para saber o que é o mau cheiro. Se vai realmente construir a usina, tem que deixar um espaço limpo na floresta. Aí entra outra questão: a área desmatada é muito grande, não é simples. Além disso, é uma área que tem ainda alguns agrupamentos indígenas pequenos, mas extremamente bravios em termos de uso de seu espaço florestal por atividades inundadoras.
Mas ao observar o rio Madeira, entre os confins das terras ligeiramente mais acidentados e os grandes tabuleiros florestados, não é muito fácil encontrar lugares para fazer barragens com certeza de que vai haver sucesso. As empreiteiras não querem saber disso, já há algum tempo pensam fazer dinheiro com essas obras. E o governo faz de conta que não há problemas. É complicado, não sigo diretamente a
linhagem de argumentação dos ambientalistas rígidos, que se fixam um pouco demais na piracema do Madeira. Sabe-se que o rio está muito poluído por causa da exploração de ouro e o uso de uma série de produtos químicos perigosos. O rio já tem problemas, e a barragem vai se somar a eles. E, ao mesmo tempo, há outros processos que não serão atendidos no projeto de construção, como a questão da distância. A usina do
Madeira fica muito longe do Centro-Sul do país, o que exigiria obras grandes de transmissão, muito custosas. Acontece que o governo sempre quer fazer obras gigantescas, faraônicas. Quer transpor as águas do São Francisco, fazer barragens no Madeira, que nem conhece direito, nem sabe a distância, tem pouco conhecimento geográfico.
Fórum – O presidente Lula, que viajou tanto com o senhor, modificou
a visão que tinha a respeito do país?
Ab’Saber –
Nem quero falar nisso, o Lula está em um momento de vaidade tão grande que pensa apenas no currículo do político que ele é para o futuro. “Todo mundo falou em transpor as águas do São Francisco, mas eu fiz as obras.” É muito complexo.
Escrevi muito sobre o assunto na minha coluna na Scientific American. O governo fala que não é a transposição do rio, mas de águas, só que não diz que as águas do São Francisco estão poluídas devido à descarga de tudo à beira do rio – inclusive
ao que atende a região de Belo Horizonte [rio das Velhas], e os resíduos sídero-metalúrgicos. Tudo vai para o São Francisco. Descobriram isso tardiamente e decidiram “revitalizar” o rio. Vocês que conhecem a região de São Paulo sabem que tudo o que
foi feito para “revitalizar” o Tietê tem sido uma brincadeira de péssimo gosto e demosntra a incapacidade de entender a poluição hídrica. Lá, é pior ainda, são 2 mil quilômetros desde a serra da Canastra até o ponto onde vão se fazer as primeiras obras para a transposição de águas. E há mais uma coisa. O sistema climático
é o mesmo da área de cerrado. Quem vai a Brasília sabe: tem um inverno em que chove muito pouco e, depois, um verão em que chove muito. No Nordeste, durante o inverno astronômico, é muito quente, a água evapora, os rios ficam intermitentes. As
chuvas são muito poucas, um quinto das do Brasil central. Elas refrescam o conjunto cheio de calor do sertão, então a população local inverte o nome. O tempo seco é verão, e o de chuvas é inverno. Não é o primeiro lugar no mundo onde isso acontece, no Norte da África também é assim. Um dia desses, falei que o período em que se precisaria de mais água para além-Araripe é exatamente aquele em que o São Francisco está mais baixo. E é preciso manter um nível mínimo para fornecer água para as hidrelétricas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó. Sabe o que o Ciro Gomes disse? Que é exatamente o contrário do que eu disse, porque ele usou os nomes regionais [riso irônico]. Mas não é: astronomicamente, o período de inverno é de muito calor e evaporação e perda de perenidade dos rios. São rios de intermitência sazonária, seis meses para cada um dos períodos bem contrastados. Os outros rios, assim como o São Francisco, também estarão mais baixos, secos até, precisarão de mais água.
Fórum – A transposição tiraria água do São Francisco para levar a outras regiões, mas há projetos da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) que já retiram água do rio em volumes consideráveis para loteamentos, no modelo
de Petrolina e Juazeiro. Há uma série em funcionamento e outros em construção, mas…
Ab’Saber –
O de Petrolina é muito bom, é o único que deu
certo, mas não atende socialmente à população. Isso eles escondem.
Não dizem quem teve vantagens socioeconômicas com a irrigação de Petrolina. E, por outro lado, no caso do Jaguaribe, que conheço bem, há dois açudes. Vão levar a água para o alto para descer até o Jaguaribe, que é o principal do eixo Leste, o  resto é invenção para mostrar que se pode atender áreas mais remotas. E a água vai cair no açude de Orós, que está salinizado. Águas poluídas em um açude salinizado somente podem ser usadas para irrigação. O discurso de “água para todos”, usado para tapear a população sertaneja, é uma mentira.
Fórum – A estratégia mais correta seria a de pequenos açudes?
Ab’Saber –
Não sou eu quem deve estabelecer os pequenos e médios projetos para isso. O governo tinha que pensar na área como um todo. Não ia falar nisso, mas você perguntou. Quando o Lula assumiu, fiz uma carta muito grande, à mão – escrevo à mão, por causa dos olhos – e mandei para ele. Resposta zero. Alguém jogou fora. Nela, eu dizia como atender a regiões de um conjunto territorial muito grande. Para a Amazônia fiz esta proposta: quando o governo assumir, deve reunir em Brasília técnicos, cientistas e pesquisadores honestos e bem-preparados para discutir a floresta. A comissão tem que organizar um método de trabalho para conhecer
todas as partes da área. Tinha feito um mapinha no Instituto, com 23 células espaciais da floresta, esquecendo estados, com certa homogeneidade e dentro de um quadrante mais ou menos bem posicionado. Seria organizado um método de trabalho para as pessoas que formariam de quatro a seis equipes para visitar três células espaciais iferentes, para comparar as realidades. Não dá para dizer que a realidade do Alto Rio Negro e o rio Uaupés [noroeste do Amazonas] seja igual ao que está acontecendo na área dos fazendeiros, madeireiros para o Centro-Sul do Pará. Depois, se reuniriam, não em Brasília, nem em capital para não sofrer influências dos governadores, para discutir propostas variadas e diferenciadas para cada local, levando em conta as formuladas pela própria população, durante as enquetes. Gastando menos e fazendo mais. Trabalhei uma semana para escrever uma carta desse tipo [risos]. A gente que trabalha na universidade tem que contestar os cretinos. Dividi a carta em quatro partes e publiquei na minha coluna na Scientific American. Quando ele souber que a carta está publicada, vai ficar p. da vida [risos]. Azar dele.
Fórum – Outros intelectuais reclamam também por não serem ouvidos. O governo não oferece canais de diálogo?
Ab’Saber –
O Lula é um grande esperto. Para poder se reeleger, fez várias reuniões com intelectuais. Uma no Rio de Janeiro foi uma coisa séria. Trouxe todos os intelectuais a um restaurante muito rico, todos favoráveis. Depois, “até logo”. Só serviu para dar voto. Fez isso na primeira eleição. Na segunda reuniu também muitos intelectuais.

Fórum – Na questão do aquecimento global, o senhor deu entrevistas falando do Optimum Climático…
Ab’Saber –
Optimum Climático é o período há 6 ou 5 mil anos, em que o calor aumentou muito e degelou muita massa de gelo dos pólos, e o mar subiu até três metros. Isso está bem representado nas áreas praianasbrasileiras. Há uma costeira que não encosta no nível da água de hoje, formada quando o mar estava três metros acima.
Fórum – O senhor tem uma visão discordante do IPCC sobre o aquecimento global…
Ab’Saber –
É porque eles ficam dizendo que quando o mar subir vai derruir a Amazônia e entrar o cerrado etc. Não sabem nada, são pessoas da Física, engenheiros e outros. Não dá para confiar neles. Mesmo porque, quando o mar estava mais alto três metros, não destruiu a floresta, pelo contrário, houve mais evaporação, mais calor e mais umidade para a Amazônia e muito mais para o Brasil Tropical-Atlântico, sem o que, aqueles redutos de mata, que resistiam apesar do clima frio, não teriam se ampliado e se emendado. É a teoria dos redutos e refúgios. Tenho moral para falar isso, porque sou autor da teoria dos redutos e o [Paulo] Vanzolini da dos refúgios. As florestas estavam se reduzindo e as caatingas se estendendo muito, então a fauna foi se concentrando. E com excesso de fauna numa área pequena, houve processos evolutivos de formação de subespécies. Depois, durante a retropicalização, de 10
mil anos para cá, essas florestas se emendaram e constituíram as matas atlânticas. E as correntes quentes que estiveram a leste do Brasil desde há 11 mil anos favoreceram o ambiente da tropicalidade. Basta dizer que, quando estava o mar mais alto, a corrente quente foi até o Rio Grande do Sul e favoreceu a
implantação complexa da floresta da serra Gaúcha, de Taquara até Santa Maria da Boca do Monte.
Fórum – O principal ponto de sua crítica ao relatório do IPCC são as correntes marítimas?
Ab’Saber –
Correntes marítimas, periodicidades climáticas – falaram apenas, mas não levaram bem em conta, de fenômenos como o El Niño – nem os jogos das massas de ar – equatorialcontinental, tropical-atlântica, polar, polar-atlântica. Correntes marítimas, zero. Puseram nos jornais um mapinha de como iria ficar com o aquecimento global sem considerar dois fatos essenciais. Primeiro, em quanto tempo vai ficar assim? Em 50, 200, 300, mil anos? Não levaram em conta a temporização. Segundo, não levaram em conta a periodicidade climática atual. Estou muito contente com esses dias agora, de frio [em São Paulo]. As discussões todas foram feitas em dias muito quentes, no período do verão, até chamei a atenção para isso. Agora, como se vê, está frio [a entrevista foi concedida no dia 31 de maio]. É uma estupidez levar em conta um momento do clima ao longo do ano. Estou pouco ligando por ter criticado um físico da USP que, bobalhão, entrou nessa história de que os cerrados vão aumentar esquecendo as formas de devastação promovidas pelo homem. São 500 quilômetros quadrados somados de devastação da Amazônia. É equivalente a duas vezes o estado de São Paulo. Não tem sentido falar das mudanças climáticas e esquecer do que os homens estão fazendo “savanizando” tudo.
Fórum – Mas o relatório aponta o desmatamento como
um problema, em termos de emissão de gases do efeito
estufa.
Ab’Saber –
Sim, no caso brasileiro são dois fatores. O industrial do Sudeste, com Cubatão, Votorantim, Volta Redonda e outros lugares, juntamente com o excesso de veículos. O outro é a queimada na Amazônia.
Fórum – A pergunta é se o senhor, então, concorda com a premissa de que a emissão desses gases promove o aquecimento global.
Ab’Saber –
Claro, está havendo aquecimento global, não discordo
disso. Minhas razões são diferentes das deles. Eles nãoentendem bem o que é metabolismo urbano. É um conceito que
apareceu nos Estados Unidos na década de 1960, e que não foi usado como método nem lá. Estabeleceram que, no metabolismo urbano, há problemas de entradas, fluxos e saídas. Numa cidade grande como São Paulo, entram carros, ônibus, caminhões,
treminhões, passam pelo território e se reúnem com o que já está na atmosfera. A massa que vai para o ar é muito grande. Mas também levei em conta coisas mais amplas. Fui a Cubatão falar com o pessoal da Petrobras, conhecidos meus. Ficarammeio quietos, porque não querem que se diga que eles fazem poluição. Mas olhe bem, em Cubatão, a pluma vai a 1.500 metros de altitude. Isso registrado por eles; sem querer me contaram. O vento do leste e do sudeste empurra para dentro do planalto Paulista. Aí, o ABC tem uma emissão verticalizada para cima, que se reúne com a de Cubatão. Depois vem a do Centro Expandido de São Paulo, que é uma tragédia do ponto de vista de emissão de gases. Tudo isso vai bater na Cantareira. A Cantareira tem problemas muito sérios para resistir como ecossistema florestal serrano. Tudo o que subiu – os gases de Cubatão, ABC, cidade etc. – vai até a troposfera, não consegue passar para a estratosfera, e descai para os lados. Chama-se “domo de poluição”. Pois bem, no relatório do IPCC, não se fala nisso, não se entra em casos especiais desse fenômeno como é o de São Paulo e de outros locais, mais interiores. Buenos Aires tem menos esse problema, porque está numa posição perto do rio da Prata e do mar. O domo existe em São Paulo, muito violento, e menos no médio vale do Paraíba, onde as cidades estão se emendando. Na zona costeira,
as chuvas o os ventos eliminam. Mesmo em São Paulo, as chuvas violentas fazem baixar a poluição, o domo é desfeito, o que tampouco  é dito pelo IPCC. No começo do século XX, a temperatura média em São Paulo era de 18,6oC, correspondente ao centro expandido. Hoje, é 22,7oC dentro do domo. Levando em conta a área mais ampla, dá 21,8oC. O relatório do IPCC é feito por pessoas
das mais diferentes partes do mundo, vaidosas por terem ido a Paris e a outros lugares, e não grandes conhecedores. O maior climatologista dinâmico do Brasil é
o Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Ele não é chamado para discutir,
mas apenas físicos sem saber nada de efeito estufa nem metabolismo urbano
nem nada. A questão de periodicidade climática, vocês teriam de destacar…
Fórum – Um dos físicos a que o senhor se refere é o Paulo Artaxo…
Ab’Saber –
Não falei nomes, você que falou.
Fórum – Sim, mas ele, quando confrontado, diz que o modelo considerado pelo IPCC trabalhava de forma acoplada, tanto
com a área de oceano quanto de atmosfera.
Ab’Saber –
A tese do João Dias da Silveira parte do princípio de
que as baixadas litorâneas quentes e úmidas são as do leste; do outro lado da América do Sul, há a corrente fria de Humboldt, que determina os semidesertos detoda costa do Chile e do sul do Peru. Como pensar o oceano em conjunto? A corrente marítima quente vem do Atlântico e se divide em dois braços. Vem para o
sul, e até Santa Catarina tem influência grande. No Optimum Climático, ela ia até o Rio Grande do Sul e favoreceu o adensamento das florestas nas serras. Por que ficaram lá depois que as correntes deixaram de chegar? Porque ali tem o melhor solo de todo o Rio Grande do Sul, oriundos da decomposição dos basaltos. É uma mentira dizer que o pessoal do IPCC considera tudo ao mesmo tempo. Não considera nem as duas faces da América do Sul. E outra coisa, o perigo que criaram para as pessoas é muito
grande. Na véspera de uma reunião em Ribeirão Preto, o Carlos Nobre estava gritando na televisão que ia derruir a Amazônia e ia entrar o cerrado. Ele não tem capacidade para dizer isso, porque não conhece. A história do Optimum Climático é muito séria.
Porque o aquecimento para subir três metros o mar foi muito grande e não derruiu nada. Geleiras muito grandes e volumosas faziam crescer o nível do mar. Na hora em que o mar estava descendo, a corrente fria estava subindo da linha subtropical de hoje para o Nordeste. A maior prova disso é que encontrei, na Bahia, solos de clima tropical úmido, vermelhos, “de cobertura”, em cima de chão de pedra, formados em outro período. Descobri isso em três lugares. Ao lado de Campina Grande há a mesma coisa, uma das ilhas de umidade que mantiveram pequenas florestas. Foram essas ilhas que me fizeram pensar na teoria dos refúgios, que outras pessoas também apontaram. O que o Artaxo pode falar dessas coisas se não conhece? O esquema que
há no Nordeste foi o da fragmentação em redutos.
Fórum – Dá para prever em termos históricos as conseqüências
do aquecimento atual?
Ab’Saber –
É isso que eles não discutem. Alarmaram a população,
mas não falam sobre questões importantes. As coisas são tão feias no que está sendo transmitido para a imprensa, que os jornalistas escolhem os que acham que compreendem mais as coisas. Então, reproduzem coisas boas e muitas bobagens. Essa de que a Amazônia vai ser derruída e os cerrados vão entrar, note bem a gravidade. Os cretinos dos fazendeiros agropecuaristas da região, se alertados de que vai haver esse fenômeno pelo aquecimento global, vão dizer: “se é assim, vamos derrubar mais, a nosso favor!”. E saiu em um caderno agrícola de um jornal
paulista um produtor de milho que dizia que o aquecimento global tinha prejudicado a safra dele [risos]. É preciso dizer isso. As previsões de quanto o nível do mar subiria foram muito diferentes. Um falou de um milímetro por ano, outro falou de 34, outro de 64 milímetros. Um último, estupidamente, apontou um centímetro por ano. Em dez, 50 e 100 anos, a partir daí, é uma incógnita, porque não haveria continuidade plana, mas vamos imaginar mais, por curiosidade. Em 50 anos, muitos dos que vivem hoje continuarão vivos, e os prédios altos vão estar de pé, mesmo que haja inundações. Se os prefeitos de cidades litorâneas seguirem o que dizem esses técnicos, não aprovariam prédios altos e pesados na planície. Se fosse subir um milímetro por ano, 34 ou 64, não seria tão grave. Acontece hoje de o mar subir e entrar pelas ruas de cidades beira-mar, mas em média, não seria grave. Se fosse um centímetro por ano,
é um desastre completo, em 100 anos, é um metro. Se continuasse assim, no ritmo Bush, em 200 anos Ubatuba viraria Veneza, o que exigiria adaptações caríssimas.
Para mil, 10 mil ou 20 mil, se o aquecimento continuasse indefinidamente, sempre subindo, as geleiras iriam ser todas fundidas, entrar pelo mar e destruir todas as
costas do mundo. Eu era estudante quando vi isso em uma revista de literatura, meio fantástica, sobre a Guerra Fria. Dizia que os Estados Unidos descobriram
que os russos estariam subindo as cidades para lugares mais altos. Começaram a pensar, e descobriram que os russos poderiam bombardear o Pólo Norte e o Sul e fazer subir rapidamente o nível do mar [risos]. Nunca me esqueci disso. É uma coisa de ficção, mas na hora foi feito esse cálculo. E sabe quantos metros subiria o mar
se todas as geleiras se derretessem? Seriam 34 metros, o equivalente a um prédio de 11 andares, que seriam todos inundado

Fórum – E quanto ao biodiesel?
Ab�Saber –
Vamos falar do biodiesel. A questão depende de saber o que foi o Protocolo de Quioto. Os países pobres achavam que os ricos tinham de pagar alguma coisa por poluírem e incentivarem o aquecimento global. O resultado é que os Estados Unidos não quiseram assinar o documento por uma série de argumentos. Mas o Protocolo era uma coisa também errada. Porque eles pretendiam que os poluidores pagassem para os não-poluidores e que ficasse tudo a mesma coisa, emitindo dióxido de carbono e tudo. Aí os dirigentes vão, pegam um dinheirinho para fazer obras por vaidades.
O Bush quis inventar alguma coisa para diminuir essas críticas fantásticas que se fizeram aos Estados Unidos. Algumas pessoas do Banco Mundial falaram que uma mitigação tem que ser feita, seja país pequeno, seja médio, seja grande, industrializado ou não. Depois, falou-se em adaptações. O pessoal daqui ficou furioso com o termo. É que, na medida em que o aquecimento pudesse provocar problemas nas áreas costeiras, teria que se pensar, ao longo do tempo, em obras planejadas para evitar o pior. É obrigatório que se faça mitigação por todos os processos possíveis e, do outro lado, adaptações, em função de cada caso invadido pelo mar etc. O que faz o Bush? Percebeu que o Brasil está avançado há muito tempo em biocombustíveis, no caso, o álcool, e veio ao país. Mas não foi a Brasília, mas a São Paulo. Nas imagens de satélite, a área do interior onde só havia café, hoje, só tem cana. Fantástica a transformação da paisagem rural lá. Ele está visando a obter ampliações da produção de cana e etanol e outros subprodutos para justificar a estupidez dele de não querer nem discutir o Protocolo de Quioto e não ter assinado. Por isso ele veio a São Paulo, onde tem as maiores extensões contínuas de canaviais. Ribeirão Preto, Sertãozinho, São Carlos. O problema é mitigar, segundo a expressão do Banco Mundial. É uma crítica grande aos Estados Unidos, que fazem emissões muito grandes de dióxido de carbono. É isso que tenho para dizer, não quero falar mais sobre o assunto.

Fórum – No Sul do Maranhão, Sul do Piauí, Rondônia e Roraima, a soja avança com desmatamento. Além da exportação, há o biodiesel…
Ab�Saber –
Isso é em função do incentivo que o Lula está dando, que falou que os canavieiros são heróis. Acho que os heróis são os cortadores de cana, talvez um milhão de pessoas que saem de suas regiões só para cortar cana, num país que não tem emprego. Mas alguém vai dizer que os canavieiros são heróis por terem mantido o corte braçal. É verdade, em alguns locais, fazem uso de maquinário de cortes especiais, mas deixam um trecho grande para os cortadores, porque senão seria uma crise socioeconômica muito grande. Outra questão é que, se os usineiros são heróis, então o espaço principal é o da cana. Onde vão ficar o feijão, o milho, a mandioca e outras coisas? Eles são tão pretensiosos que dizem que se não houver áreas aqui, vão à Amazônia. Entra um fator a mais. Temos os agropecuaristas, fazendeiros, madeireiros, loteadores.
Não sei se vocês conhecem esse tema. Há várias estradas que cortam a selva Amazônica. Em pouco tempo, elas foram sendo dominadas, invadidas, com áreas depois registradas como propriedades deles etc. Eram espaços públicos. Depois, de cada rodovia, vêm os ramais, que cortam a floresta. Depois os sub-ramais, e a mesma coisa. Muitos dos que trabalham numa empresa na construção compram um terreno para si. Os loteadores são os homens mais perigosos do Brasil. Vão desenhando quarteirões, fazendo trilhas e vão vendendo para os incautos que não sabem nada da Amazônia. Não é só o pessoal do IPCC que é idiota. Vão vendendo os pedacinhos. As pessoas compram e pensam que vão instalar uma fazendinha, mas não conseguem chegar até lá, porque o preço para se chegar até lá é maior do que o pago pelo terreno. Forma-se o que os amazônicos chamam de espinguela de peixe. Se vocês vissem as imagens de satélite de áreas iniciais disso, onde o loteamento aconteceu há algum tempo, não há mais nada, apenas árvores isoladas.
Fora isso, os mais espertos fazem os linhões e cortam uma enorme área de floresta para instalar agropecuária, buscam gente na estrada para trabalhar. O sujeito se muda para a região e, dois meses depois, não tem mais onde trabalhar. Alguns têm aeroportos para chegar de São Paulo, Paraná e Minas Gerais até lá. E há os capatazes, independentes, para o controle geral. E vendem o espaço na hora de desmatar para os madeireiros. Há áreas que haviam sido reservadas para, um dia, favorecer a exploração auto-sustentável. Só que as áreas foram reservadas quando tudo era floresta, agora, é estupidez fazer concessões para uso. Uma pessoa inteligente vai dizer “o que se separou no passado deve ser transformado em áreas de proteção integradas”. E a Marina Silva manda, por meio do [João Paulo] Capobianco, um enviado à Suíça para oferecer concessões para as ONGs estrangeiras.
Devo dizer para vocês que são jornalistas que esse negócio de ONGs estrangeiras foi o maior bizarrio do mundo. Deram um jantar para a Marina Silva antes da eleição, na alameda Santos. Só ONGs. Eu e minha esposa não sabíamos. O [senador Eduardo] Suplicy, que gosta muito dela, também estava. Como respeito muito ele, achei que era sério. Ela passou um vídeo sobre sua trajetória no Senado. Pagamos mais pelo jantar para sustentar a campanha. Aí, foi reeleita, e nomeada ministra. Ela chamou todas as ONGs para Brasília e nenhum pesquisador, nenhum cientista, nenhum técnico. E o seu Lula, muito quieto. Nomeou-a dos Estados Unidos, onde ela estava. O pessoal gostou muito da fala dela, muito simplória, bonitinho, lá do Acre, com origem do sertanejo. Mas não entende de outras coisas.



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1 comment

  1. Tomaz Responder

    Excelente!


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