Veja e decida: foi Opportunity?

No início de 1999, a revista Veja publicou matéria contundente sobre o fundo de Daniel Dantas. Nas edições seguintes, não deu sequencia ao assunto e foi agraciada com uma publicidade do banco

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No início de 1999, a revista Veja publicou matéria contundente sobre o fundo de Daniel Dantas. Nas edições seguintes, não deu sequencia ao assunto e foi agraciada com uma publicidade do banco

Por Marcos Palhares

No meio jornalístico, é sempre suspeito quando um veículo de comunicação faz uma denúncia contundente e, logo em seguida, não toca mais no assunto. Cheira ainda mais mal e levanta todo tipo de suspeita quando o referido veículo, após fazer isso, estampa publicidades do “acusado” ou de empresas ligadas a ele nas edições subseqüentes. É quase impossível provar a ligação direta entre uma coisa ou outra. Mas, como todas as questões que não podem ser comprovadas, mas que geram dúvidas, a que se segue também merece explicações. E investigação.

Em 1999, a revista Veja, torna público em sua edição 1588, de 10 de março, na página 49, uma matéria intitulada “Que Opportunity!”, título que plagiamos sem a incisiva afirmação, mas deixando a pergunta ao leitor para que ele tire suas conclusões. Naquela ocasião, antes de o banco Oportunity estar envolvido em tantas disputas e acusações, a revista questionava a parceria feita pelo banco de investimentos carioca com a Previ, caixa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil.

A reportagem assinada pelo jornalista Felipe Patury apresentava carta de Arlindo de Oliveira, diretor da Previ, datada de fevereiro de 1999, e endereçada à presidência do banco, relatando uma série de incongruências na relação entre as duas instituições. A carta revelava, por exemplo, que, em julho de 1998, a diretoria da Previ teria se reunido e decidido não fazer parceria com o Opportunity no leilão das teles, por se recusar a pagar ao banco uma taxa de R$ 7 milhões por ano de “taxa de administração”.

Porém, a despeito de tal decisão, a parceria ocorreu. “A Previ associou-se ao banco na compra de três teles (Tele Centro Sul, Telemig Celular e Tele Norte Celular) e comprometeu-se a arcar com os 7 milhões de reais por ano”, ressaltava o texto de Veja, acrescentando que a caixa de previdência não tinha poder de decisão na administração das teles. Por isso, o diretor da Previ era taxativo em sua carta ao Opportunity: “Tais fatos vão flagrantemente de encontro ao decidido pela diretoria executiva!!!”.

Diante desses fatos, a matéria adiantava dois acontecimentos que provavelmente garantiriam desdobramento do assunto nas edições seguintes de Veja: quatro conselheiros da Previ fariam uma reunião do conselho deliberativo para mostrar a carta e pedir auditoria, e o então deputado Aloizio Mercadante (PT-SP) prometia levar o caso ao Ministério Público. Ou seja: a matéria terminava com aquele clima de “não perca as cenas do próximo capítulo”. Mas não foi o que aconteceu.

Na edição seguinte de Veja (1589), de 17 de março de 1999, não havia uma linha sequer sobre o assunto. Em lugar disso, a revista estampava em duas páginas uma propaganda do banco Opportunity. Aliás, o caso específico envolvendo o banco de investimento carioca e a Previ não voltaria a ser abordado por Veja naquele ano. Mas as duas páginas de propaganda do Opportunity apareceram novamente na edição 1591, de 31 de março. O mais inusitado é que o Oportunity é um banco de investimentos, que não atua no varejo e por isso não costuma fazer publicidades em veículos como Veja.

“O fato de Veja não ter prosseguido com a investigação não significa, em princípio, quebra de ética. Pode ser questionável a coincidência de não se falar mais no assunto e de, nas edições seguintes, a revista ter sido ‘agraciada’ com propaganda do banco”, pondera Luiz Spada, presidente da Comissão Nacional de Ética e Liberdade de Imprensa da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Ele admite, por outro lado, a existência de casos premeditados no meio jornalístico.

“Quem trabalha em redação está cansado de ver matérias deixarem se ser publicadas por interesses empresariais (ou seja, dos proprietários dos veículos), bem como de temas que julgamos importante serem noticiados e ficarem sem prosseguimento algum (também por interesses empresariais)”, afirma Spada. “Se houve algum favorecimento para que Veja parasse de falar no assunto, a investigação deveria partir do Ministério Público.”

Felipe Patury, que hoje ocupa cargo de editor em Veja, procurado pela reportagem da Fórum, se mostrou surpreso e um tanto indignado com os questionamentos. Preferiu não se pronunciar por causa de seu “compromisso profissional e fidelidade à linha editorial da revista” e desligou bruscamente o telefone. Mas indicou o editor Júlio César de Barros, responsável pela comunicação externa de Veja, para comentar o assunto. Fórum deixou recado na secretária eletrônica do ramal de Barros, mas não teve retorno até o fechamento desta edição.

A assessoria do grupo Opportunity, por sua vez, afirmou que mesmo após aquela época a Veja não deixou de criticar o banco. Porém, ao ser questionada especificamente sobre o caso Opportunity-Previ e a matéria sem seqüência de 1999, a assessoria prometeu fazer um levantamento detalhado e retornar, o que não ocorreu.

Bamerindus e Requião

Por coincidência, em setembro do mesmo ano de 1999, a revista Veja seria acusada formalmente, em pleno Senado Federal, de negociar matéria em troca de anúncio. O então senador e atual governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), subiu ao plenário para contar uma passagem envolvendo a revista da Abril e o Banco Bamerindus, ocorrida em 1991.

Requião contou que, ao assumir pela primeira vez o governo de seu estado, abriu processo contra o Bamerindus por danos causados ao patrimônio público, mas não levou a questão a público. Na época, o atual presidente do grupo Abril (que edita Veja), Roberto Civita, sabendo do processo, teria procurado o governador paranaense para saber mais detalhes. Mostrando-se interessado, teria enviado, posteriormente, quatro jornalistas para investigar o caso.

Mas, na edição seguinte de Veja, segundo Requião, não havia nenhuma matéria sobre o Bamerindus, apenas seis páginas de propaganda do banco. O que levou o político a acreditar que teria sido usado pelo grupo Abril em um caso de chantagem para garantia de anúncios.

Entre os 10 mais

Exatos cinco anos após a matéria sobre o Opportunity, em 10 de março de 2004, Carlos Graier, então editor da Veja, assinou uma resenha elogiosa sobre o livro O dia em que matei meu pai, de Mário Sabino, chefe de redação da revista. Escrever uma crítica sobre uma obra do próprio chefe não serve como exemplo de isenção — mesmo que o livro tenha obtido, na época, outras críticas favoráveis. Mas o curioso foi que, duas semanas depois, Graier foi promovido a editor executivo.

Essa história ainda renderia mais um capítulo interessante. Na primeira semana de abril de 2004, sem motivo aparente, Veja substituiu a pessoa responsável pela lista dos livros mais vendidos publicada pela revista — verdadeiro parâmetro no mercado editorial brasileiro. Para sua produção é feito um extenso levantamento em grandes livrarias do país. Por isso, qualquer obra mencionada na lista da Veja tem suas vendas impulsionadas ainda mais.

Após a definição do novo responsável pela lista, na edição de 7 de abril daquele ano, o décimo colocado entre os mais vendidos na categoria Ficção era nada menos que O dia em que matei meu pai. Para evitar surpresas ou mal-entendidos, a revista publicou, na parte inferior da página, uma nota ao leitor explicando que os critérios anteriores do ranking estavam errados.

Esse raro mea culpa por parte da revista explicava, entre outras coisas, que “da categoria de Não Ficção constarão ensaios e biografias, mas também livros de crônicas, cuja referência principal se encontra no noticiário e no registro de uma realidade imediata. Isso acontecerá ainda que o cronista lance mão de recursos ficcionais”. Tudo isso servia para explicar, em resumo, o motivo de os livros de Luiz Fernando Veríssimo (mais precisamente As mentiras que os homens contam, havia 156 semanas entre livros de Ficção) passarem para o ranking de Não Ficção. Detalhe: a própria editora do escritor, a Objetiva, classifica a produção do gaúcho como ficção.

O resultado da guinada nos parâmetros de Veja foi que quatro publicações foram tiradas do páreo na seção Ficção, abrindo espaço para o livro do chefe de redação. Mas não pareceu prudente deixá-lo ali. A obra de Sabino nunca mais apareceu entre os mais vendidos nem sua segunda obra, O antinarciso, edição de contos sobre a solidão humana. Que teria, na visão do autor, motivação no narcisismo.

 



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