Veneza não quer ser New Orleans

Uma gigantesca obra de engenharia, que deverá estar pronta em 2010, pretende salvar a mítica cidade italiana da ferocidade do mar. Grupos ecologistas alertam sobre seu potencial impacto ambiental Por Francesca Colombo/Terramérica  ...

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Uma gigantesca obra de engenharia, que deverá estar pronta em 2010, pretende salvar a mítica cidade italiana da ferocidade do mar. Grupos ecologistas alertam sobre seu potencial impacto ambiental

Por Francesca Colombo/Terramérica

 

A trágica inundação da cidade norte-americana de New Orleans reavivou, na italiana Veneza, a discussão sobre o projeto Moisés, um sistema de diques móveis para evitar que a cidade seja tragada pelas águas do Mar Adriático. A gigantesca obra de engenharia, a cargo do Consórcio Veneza Nova, que agrupa 40 empresas, começou a ser executada há três anos e deverá estar concluída em 2010, ao custo de 4,8 bilhões de euros. O projeto é, segundo seus criadores, um sinal de que na Itália existem políticas de previsão diante de possíveis catástrofes, ao contrário de New Orleans, cujo sistema de diques entrou em colapso pelo impacto do devastador furacão Katrina, no dia 29 de agosto.

Entretanto, o Moisés tem muitos críticos e opositores locais por seu potencial impacto ambiental. “É um projeto inútil, não serve para evitar que as águas subam até Veneza e as ilhas (sobre as quais se assenta). É perigoso, porque as lagoas estão contaminadas por produtos químicos usados na agricultura. E é irreversível, não poderá ser modificado, apesar de destruir o meio ambiente”, disse ao Terramérica o ativista Cristiano Gasparetto, do Comitê para Salvar Veneza. O Comitê é formado por organizações não-governamentais ambientalistas e representantes do Partido Verde.

Veneza, uma das mais belas cidades do mundo, que atrai dez milhões de turistas por ano, não está ameaçada por furacões mas pela elevação do nível do mar que a rodeia, devido ao derretimento das geleiras, provocado pelo aquecimento global. A cidade foi construída a partir do século V sobre milhares de estacas de madeira, em terrenos pantanosos e ilhas da lagoa de mesmo nome, que tem forma de meia lua e está separada do Adriático por um cordão de ilhotas e faixas de terra. Desde 1900, Veneza já afundou quase 13 centímetros, e pode submergir outros 20 nos próximos cinco anos, dizem os especialistas. A cada ano, entre outubro e março, os ventos que chegam do sudeste e as marés levam até a lagoa a chamada “água alta”, cheias de mais de 80 centímetros acima do nível do mar, provocando cerca de cem inundações.

A água alta chega a cobrir mais de um metro de edifícios e monumentos e altera a vida cotidiana dos venezianos. Em 2003, a tradicional Praça São Marcos foi inundada 87 vezes. A pior inundação da história aconteceu no dia 4 de novembro de 1966, quando ruas, praças e casas ficaram mais de um metro debaixo da água. O projeto Moisés (Mose, em italiano), planejado durante 20 anos, consiste em diques para isolar a lagoa de Veneza do Adriático. O termo corresponde à sigla, em italiano, de Módulo Experimental Eletromecânico.

“O projeto Moisés não elimina as causas da água alta e se limita a evitar cheias excepcionais, que podem chegar a 110 centímetros. Isso significa que seria útil somente três ou quatro vezes por ano, enquanto no restante as águas altas invadiriam Veneza”, disse ao Terramérica o ativista Federico Antinori, da Liga Italiana de Aves, filiada à Bird Watch International, e que integra o Comitê para Salvar Veneza. O sistema de comportas móveis (grandes caixões de 20 metros de largura, 30 de altura e cinco de profundidade) do Moisés será instalado nas três bocas de Veneza: Lido, Chioggia e Malamocco. Quando a maré não superar a altura de um metro, os caixões repousarão cheios de água no fundo da lagoa. Já quando a maré for superior a um metro, um sistema hidráulico os encherá de ar para elevá-los até a superfície.

“Sem o Moisés, poderia ocorrer o mesmo que em 1966. Os diques móveis protegerão Veneza dos perigos das marés altas e das inundações. New Orleans é um exemplo de pouca capacidade de previsão e investimento”, disse ao Terramérica a porta-voz do Consórcio Veneza Nova, Flavia Faccioli. A lagoa de Veneza contém bancos de lodo que servem de alimento a gaviões e patos, e bancos de areia que várias espécies de aves marinhas usam para sua reprodução e descanso. Anualmente, chegam 110 mil aves aquáticas para descansar nesse local, e centenas de espécies migram da África para a Europa seguindo esse trajeto.

“Segundo as pesquisas, a maioria dos venezianos não está a favor do projeto Moisés, que não respeita o meio ambiente, abarca duas áreas protegidas por sua biodiversidade e só fecha as bocas do porto. No fundo, existe um problema político deste governo, que quer ser o executor de grandes obras”, disse ao Terramérica o ex-vereador pelo Partido Verde em Veneza, Flavio del Corso. A riqueza natural da lagoa de Veneza também sofre o impacto do transporte marítimo. Pela região passam 25 milhões de toneladas anuais de mercadorias em grandes navios de carga e petroleiros, além das embarcações turísticas.

“As dúvidas foram expressas muitas vezes durante o processo de aprovação do projeto. Sempre fizemos controles e verificações. Cinco especialistas internacionais realizaram estudos aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente”, acrescentou Faccioli. O Comitê para Salvar Veneza levará o caso à Comissão Européia, pois garante que existem projetos mais simples e menos caros. Um porto a meio caminho do Lido, para deixar de fora os navios de cruzeiro, reduziria a pressão e a entrada da água. Segundo o estatal Conselho Nacional de Pesquisa (CNR, sigla em italiano), que promove a pesquisa nas áreas social, econômica, tecnológica e científica, essa alternativa reduziria o nível da água em 20 centímetros e devolveria a Veneza o “rosto” que tinha em 1800.

Outro projeto, da prefeitura veneziana, contrária ao Moisés, é um sistema semelhante ao usado na Holanda e Noruega para evitar a invasão da água do mar em terras baixas e alagadiças. Essas obras alternativas custam um quarto do valor do Moisés, os trabalhos duram quatro anos e se não servirem podem ser cancelados, afirmam seus defensores. “O Moisés tem custos altíssimos de manutenção. Os recursos serão absorvidos por esta obra faraônica, que deixará o cofre vazio para outros trabalhos”, afirmam. Em torno do Moisés “há interesses econômicos das grandes empresas italianas�, disse ao Terramérica Paolo Perlazza, do Fundo Mundial para a Natureza.

* A autora é colaboradora do Terramérica

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.



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