Vitrine solidária

Outra economia já acontece, as iniciativas cooperadas crescem com o FSM, chocolates que não derretem, amizade por um fio, comunitário e empreendedor Por Juliana di Thomazo  ...

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Outra economia já acontece, as iniciativas cooperadas crescem com o FSM, chocolates que não derretem, amizade por um fio, comunitário e empreendedor

Por Juliana di Thomazo

 

Outra economia já acontece Desde o nascimento do FSM, em 2001, as iniciativas de economia solidária vem ganhando força e organização com uma rapidez impressionante
”Gostou dessa blusa? Foi feita pela Maria, que também trabalha na cooperativa com a gente. Dessa vez ela não pôde vir. Olha, tem outras cores… Aquela verde, de manga mais comprida, com um ponto diferente, foi feita pela minha nora. Ela está ensinando a gente, mas, por enquanto, é só ela quem faz. Você é de São Paulo? O pessoal daquele estande da frente também.”

Comprar em uma feira de comércio solidário é assim. O objeto comercializado não é o único valorizado… A forma com que foi feito, quem o fez e a relação de trabalho das pessoas que o comercializam tudo deve ser levado em conta, sem que se esqueça, no entanto, da qualidade do produto.

E não foi diferente no Fórum Social Mundial. O chamado Espaço da Letra I, destinado a “Economias soberanas pelos e para os povos: contra o capitalismo neoliberal”, transformou-se em um verdadeiro território da solidariedade. Na Feira Solidária, que foi montada também em outros locais do Fórum, era possível encontrar e comer de tudo e até beber uma cachaça de graça; tudo, é lógico, produzido e comercializado a partir da economia solidária.

E como o FSM é o grande espaço de alternativas possíveis, uma moe¬da social, a txai, foi especialmente criada para circular nesses dias. Para adquiri-la era necessário fazer uma troca. Deixar um objeto e levar o txai, uma nota decorada com figuras rupestres de inspiração indígena e nome também de origem indígena. As notas de txai eram trocadas e aceitas nos dois Mercados de Troca Solidária e em vários estabelecimentos do espaço do FSM.

As iniciativas cooperadas crescem com o FSM Foi também no Espaço I que ocorreu a maior parte dos debates em torno de temas ligados à economia e ao comércio solidário. Não era raro encontrar aquela pessoa que acabara de lhe vender um produto, em algum debate em uma das muitas tendas espalhadas por ali. Importante para quem foi entender e imprescindível para quem já participa. Seu depoimento nos mostram que, graças ao FSM, foi possível continuar existindo. Muitas iniciativas saem fortalecidas do evento, por conta do contato com outras organizações e apoio de entidades de todo o mundo, principalmente as européias. A formação de redes de economia solidária e a sua crescente articulação estão absolutamente vinculadas à agenda do FSM.

Já em 2001, na sua primeira edição, foi constituído o Grupo de Trabalho Brasileiro, que reuniu representantes de importantes organizações e entidades que, em dezembro de 2002, organizaria a 1ª Plenária de Economia Solidária do Brasil e sistematizou o documento que ficou famoso como a “carta ao governo Lula”, que acabava de ser eleito.

Depois disso, uma grande conquista: a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, que atua na estrutura do Ministério do Trabalho e é coordenada pelo professor Paul Singer. O seu nome foi proposto pelo GT e aceito pelo atual governo.
No FSM de 2003 aconteceu a 2ª Plenária e, logo depois, em junho daquele ano, a terceira, na qual foi aprovada a criação do Fórum Brasileiro de Economia Solidária — entidade máxima da economia solidária no Brasil — e a sua carta de princípios.

Em resumo, quando as pessoas perguntarem para que serve o FSM responda, sem crise de consciência, até agora ele já foi suficiente para ampliar em muito a organização da economia solidária no Brasil. E, com certeza, irá ampliar ainda mais o seu raio de ação. Há muitas outras iniciativas que ganharam força no FSM, mas, se ele só foi importante para isso, será que já não é muito?

Chocolates que não derretem O programa era o da Ana Maria Braga e a receita era a de como fazer chocolate, ditada entre as piadinhas da loira e do louro, o José. A irmã anotou como fazer, mas nunca poderia imaginar que esse seria o primeiro passo para que a garota Frankely, de 16 anos, começasse a brincar de fazer chocolate. Desde aquele dia até hoje a receita já mudou muito e a vida de Frankely também. Por alguns anos, ela e a família venderam chocolate na escola e para os vizinhos do bairro Tapanã, em Belém do Pará. O negócio deu certo, e depois de ter obtido apoio do Banco do Povo, por intermédio do Fórum de empreendedores, o grupo conseguiu uma loja no Shopping Popular da cidade. Hoje, com 22 anos, Frankely é uma das integrantes da cooperativa de produtos regionais e alimentares do estado do Pará, a Coopmjes, que, além de bombom, produz cocadas e biscoitos.

No recente FSM, a garota oferecia, para os que passavam no estreito corredor da Feira Solidária, bombons feitos de cupuaçu com castanha, açaí e bacuri. Todos cobertos com chocolate. O aperfeiçoamento da técnica para a produção do chocolate foi tamanho que os bombons não derretem, mesmo se expostos a um intenso calor, como o de Porto Alegre nos meses de janeiro e fevereiro. Isso já permite que o grupo sonhe em ampliar as suas vendas para outros estados e paí­ses. Para quem quiser saborear essas delícias regionais, o telefone da loja é (91) 230-0751 e o de Frankely (91) 258-3195.

Amizade por um fio Toninho, Idalina, Mael e Márcia. Foi pela amizade e a necessidade de sobrevivência que esse grupo de amigos teve a idéia de montar, em 1994, a Fio Nobre: empresa autogestionária, localizada em Santa Catarina, que produz fios para tricô e crochê, fitas e redes para proteção e esportes. Hoje o grupo já é maior. Além de Rute e Jackson, que foram contratados depois, os filhos também participam de todas as atividades. As decisões são tomadas em conjunto. Como nem todos pensam da mesma forma, às vezes a votação é necessária. Os integrantes garantem que isso, até o momento, não causou problemas. Entre os pontos fortes da organização, seus participantes destacam o companheirismo, a honestidade e a solidariedade. Tudo isso dentro e fora dos muros da empresa. O grupo participa de atividades que visam a implantação da economia solidária no Brasil e apóia associações e cooperativas, entre outras formas, com a assessoria e a venda de produtos mais baratos. Preservar a vida e os recursos naturais também é uma preocupação da Fio Nobre, que já busca uma forma de adquirir algodão orgânico para a produção dos fios. Para adquirir os seus produtos e apoiá-los, ligue para (47) 246-4134.

Comunitário e empreendedor
Os desenhos que ilustram as agendas acima foram elaborados nas oficinas educativas desenvolvidas pela organização social Ação Comunitária do Brasil, nos bairros de Vila São João, Complexo da Maré e no Conjunto Habitacional de Cidade Alta, em Cordovil, no Rio de Janeiro. Nesse programa, a inserção social responsável e a geração de renda têm como base a disseminação da cultura do empreendedorismo e do trabalho comunitário. Além da agenda, bolsas em fuxico, cerâmica étnica, cestaria com reaproveitamento de papel e bonecas banto – tudo elaborado coletivamente. Metade da renda obtida é destinada às oficinas. O restante é dividido entre os integrantes do grupo. Para saber mais sobre o projeto e adquirir os seus produtos, acesse o site
www.acaocomunitaria.org.br ou ligue para (21) 2253-6443.



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