Viva letra

O conto Mau, do jornalista Pedro Biondi, tem “claras influências rosianas”, segundo ele próprio, referindo-se a João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas. É uma inquietante narrativa que gira em torno de um...

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O conto Mau, do jornalista Pedro Biondi, tem “claras influências rosianas”, segundo ele próprio, referindo-se a João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas. É uma inquietante narrativa que gira em torno de um tema imemorial, arquetípico: a coexistência dialética entre a luz e a sombra no espírito humano.

Por Edição de Eduardo Maretti

 

Etcétera
Televisão
Mercado Brasileiro de Televisão (2ª edição revista e ampliada, 292 páginas, R$ 39,00), de César Ricardo Siqueira Bolaño, obra considerada por especialistas como um clássico sobre televisão, é relançado em co-edição da editora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e editora da PUC (Educ). O livro – fruto de trabalho de dissertação de mestrado do autor pela Unicamp – apareceu pela primeira vez em 1988 e analisa a evolução da televisão brasileira. De modo pioneiro, trata de um tema que, à época de sua primeira edição, não passava de objeto de estudos: a televisão segmentada. Aborda também o então e ainda intocável monopólio da Rede Globo.

Lembranças amargas
A reconstituição dos anos obscuros da ditadura militar no país, a repressão na Bahia e a prisão, depoimentos dramáticos de personagens reais que lutaram contra o autoritarismo estão no recém-lançado Galeria F – lembranças do mar cinzento, de Emiliano José (Editora Casa Amarela, 152 páginas, R$ 25,00). Esta é a segunda parte da série de textos. A primeira foi publicada em 2000. As narrativas, reais e densas, saíram inicialmente em capítulos no jornal A Tarde, de Salvador, entre agosto de 1999 e julho de 2000. O livro pode ser comprado diretamente na editora. Telefone (11) 3819-0130.

Feira em Cuba
O Brasil foi convidado de honra da Feira Internacional do Livro de Cuba. O país foi representado por 85 editoras, além do ministro da Cultura, Gilberto Gil, e escritores que participaram de conferências sobre cultura no país. Fernando Morais, autor de A Ilha, e o poeta Thiago de Mello estão entre os autores que viajaram na comitiva brasileira. Cerca de 500 editoras de 20 países foram à feira, realizada de
3 a 13 de fevereiro na Fortaleza de San Carlo de la Cabaña, em Havana.

Biografia
O gênero é muito procurado por leitores e cada vez mais ganha títulos publicados. Uma interessante é Rajadas da História (Jorge Zahar, 176 páginas, R$ 35,00), que conta a vida de Mikhail Kalachnikov a partir de depoimentos coletados pela jornalista francesa Elena Joly. Kalachnikov é o inventor do fuzil AK-47. Segundo a obra, ele continua acreditando no comunismo e considera Stalin um grande estadista, apesar de reconhecer sua truculência. Aos 83 anos, vive nos Urais com as filhas e é praticamente surdo devido aos muitos anos testando armas.

Sujeito mau, rapaz.
Mau…
Mau reto – mau noventa graus. Quarenta graus de maldade. Nove na escala Hitler. Sangue de doninha! Torcer o pescoço da galinha só pra ver estrebuchar aérea, feito foguete que atravessava o corredor e dava com a parede e com o chão. Descalço, nesses domingos, era mau útil. Onça pintada, vinho tinto; onça parda, vinho branco. A da preta também vai com tinto, ensinou pra ninhada, porque ela é só uma pintada que o breu montou por cima. Deixou um escapar vivo só pro pobre engordar medo. Encontrava na rua, Bu!, o outro se cagava. Virou zumbi em mangas de olheira, o branco amarelo da lua grudou, desconfiava do outro lado de esquinas, árvores e prateleiras de supermercado. Virou um fulano, um menos. Trezentos e sessenta graus de maldade, para que até onde a vista alcance. Mau difuso, parafernal, indeciso de qual maldeza. Ali com o Inominável deve dar coluna do meio. Pai quero ser parasito. Olhos cinzentos e coração com eles rimando. Predileção é moça-donzela, dizendo-lhes as todas flores desperta-as iaras, supliquem como suplicarem a desonra só bota a cabecinha, a mais recente erra por aí despida de branco rezando em língua noturna bolinando o desvario noiva da madrugada. Durissus, terrificus, horrendus – qualificavam-no, teremendo, os tupis de nossa costa. O padre romanizou – anhangüeté, panemeté, depadredefílidespíritissántiááámém. Siris. Tão bom vê-los na panela, morrendo vivos. Dar nome a todos antes de riscar o fogo. Chupt com as casquinhas e patinhas dos cozidos na frente dos candidatos no balde, os olhos crustáceos arregalados em seus pedúnculos já adivinhando macabra dança na janta. Escolhe uns dessortudos pra sobreviver e a estes dá de volta o mar, avisados de recaptura em incerta data garantida. No reencontro, salmos sobre a gula, que você se vendeu por uma cara de sardinha, o arrependimento artrópodo de nada vai sensibilizar o justiceiro: a natureza é sempre alguma justiça, justiças diversas, de praxe as mais surdas ou mais curtas: balde e panela de novo, pra mim não tem música que as patas e pinças aprendendo as paredes de alumínio. Mau e repassando a tradição pros seus juniores. Vírus. Talking bout a baaaaad guy, if you know what i mean – a homenagem enunciada na voz de lobo velho do bluesman, ai, vargas, só você mesmo pra inventar de contratar o bigode torto pra animar o casamento, as crianças apanharam na letra pela primeira vez a concreta e vaga maldade, os ouvidos grudando no que querem e não querem ouvir, os pais apertam o uísque e adivinham longa noite. Há quem garanta que já vivia em Cananéia, branco feito um ovo e os cabelos vermelhos estufando e encolhendo conforme subiam as picadas, branco a ponto de didático, pois se podia estudar a maldade ali interna, no trato todo. A lenda completa: com o sol inclemente destas terras brasilis, virava uma enorme lagosta, a mais magra, a mais cruel e mais silvestre. Feitor não tinha igual pra cima dos gentios e, depois, das peças negras. O bruto. Mau seco e límpido, mau vulto recortado contra um fundo-sol de África, mortes estratégicas por entre a poeira, em seco som. Mau amazônico: como o desconhecido, que domina a gente por dentro, lodos que borbulham equadores, barulhos abafados pela água e pela umidade, a maleita pode já estar, plantas que de repente tipo vivem, o silêncio puxa a gente pra dentro e é uma vertigem, morte pressuposta e atrasada por entre os neotrópicos. Mau com sal. Com torresmo. Com limão. Completo – e a branquinha pra acompanhar. Sabe o crocodilo-do-nilo?, coitado. De roupa cáqui, lutou com o bicho dentro d’água, amarrou a boca do bicho e brincou de upa-upa no bicho – diante do gavial, do aligátor e do jacaré-de-papo-amarelo. Pior: diante do cinegrafista. Já mais velho, as pernas de cegonha, pai quando crescer quero ser candiru. Quando criança, amarrar lata na cauda do gato. Ih, menina, isso só se não era São João. Com a data, algum estourável no medo enrugado do chanim. Sujeito mau tá pra nascer. Mau com gosto. Huuuum… as velhinhas. Não me fale delas. Não posso com carne seca, o médico. Os escoteiros querem perigo? Feito técnico de futebol, noites de estudo, desenhando com giz esqueminhas de como o futuro vai jogar. Touché: não resistem a uma casa abandonada de madeira que range. O susto não é ruim e bom? A alma do suspense não é o bom-ruim? O princípio joão e maria, infalível e juridicamente incontestável: Tava na minha, meritíssimo, só dou o que pedem. E quem apronta, queque acontece? ’os mais veeeelho, menino. Mau com trema, retinto. E os dagobés dançando nele, miniatura nos sangues, feito atavismos, dianhos. Amigos, amigos. Pedi a palavra em cada aniversário. Saboreei o murmurinho e o silêncio, com discurso brindei a como eram perfeitos e como os admirava e emoldurei com como diante deles me encolhia de minha vileza e pequenez. Sua generosidade e coragem. Estradas, tijolinhos, flores na sacada, homens largos, mulheres de altos saltos: crianças encardidas de choro, como as que se borram na própria festa de dez anos, esmilingüidas. Ah, nem preciso ver, que é batata, rendidos ao azulejo, à louça e à límpida poça, o que resta de honrado puxando o vômito. O desmoronar. O desertar. O prometer-se não olhar pro âmago nunca mais nessa vida, nunca mais. Pegou as mães da turma toda, o cabelinho sempre repartido pela vó. Ganhou muito primeiro pedaço de bolo e tabefes alguns. Não bastasse roubar namoradas, rouba os namorados. Mas não tem que ser mesmo muintorruim pra fazer quem é bondoso se sentir ruim? Ruim de nascença, ele. Sabe mau ruim? “Ele” não: um coiso, um isso. E isso lá nasceu? Foi é tramado, urdido. Veio foi de pesadelo, bate na madeira. E os irmãos tão bons, a mãe uma santa. Diz que tem perna de pato e um rabão de leopardo, que cobreia e quase fala quando ele vai aprontar ruindade. Ah! Então tá explicado por que nunca vi ele de bermuda… Não toque nessa geladeira, que não tem nada que te interesse. Parece que não se molha de chuva. Morasse no interior e a molecada passava de bicicleta, jogava merda de tísico na porta dele. Como mora num subúrbio com jeito de interior, isso acontece mesmo. Mas se vinga matando a dentadas os cachorros da vizinhança. E urina tudo que é árvore e pneu de carro, um mijo que não tem cânfora pra tirar. Por que nóis num justiça? Guardemo as criança e as mulher, juntemo pau, pedra, chicote, mai nóis num tinha prova… Ademais, é um cristão como qualquer um de nós, só Deus é que é nosso juiz, de quem é a primeira pedra, o senhor é santo, essa figura que tá aí lendo aí fora é santa? Uma maldade feminina, não essa nossa maldade de braço peludo, essa nossa maldade pinguça, essa nossa maldade territorial, essa nossa maldade que é mais bruteza, ingenuidade, sangue estúpido, esta nossa maldade canina, precisa ver. Maldade que desliza a mão, que troca os martínis, que geme ãin, que veste zíper nas costas, que instiga e deixa a maldade da gente aflorar, tomar conta, se denunciar. Maldade-cetim… Mau classudo, clássico, corleone. O Mal no terno medido riscado. Mas fuleiro, viu. Diz que rouba dinheiro de cego, nem liga que dá azar. E covardia: imunidade, ou pinote. Chacal, trombadinha. Um lambari mau.
[Sem tirar os olhos da cebola] Ninguém é perfeito, e ver mesmo nunca vi. Só sei que é bom pra mim e outro nunca me teve.
Comeu todo o refogado e parece um imenso anjinho de sofá, nhonho da vida, grunhindo corpórea saciedade, o bom rinoceronte.
O investigador apóia os polegares nos bolsos e espera com o beiço a intuição bater – as luzes da sirene misturam a tarde, como num filme americano.

Pedro Biondi é jornalista



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