80 anos em verde e rosa

A tradição e o samba no pé estão lá nos painéis do museu do Palácio do Samba, mas a Mangueira enfrenta o convívio com a mercantilização e a necessidade de patrocínios para sobreviver e...

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A tradição e o samba no pé estão lá nos painéis do museu do Palácio do Samba, mas a Mangueira enfrenta o convívio com a mercantilização e a necessidade de patrocínios para sobreviver e fazer um “carnaval competitivo”

Por Frédi Vasconcelos

“Habitada por gente simples e tão pobre / Que só tem o sol que a todos cobre / Como podes, Mangueira, cantar?” A pergunta de um dos fundadores da escola, Cartola, no samba “Sala de Recepção”, é bem atual. No morro continua a morar a gente simples e pobre como a que estava lá no 28 de abril de 1928. Compositores que fizeram história na música brasileira, como Nelson Cavaquinho, Jamelão e Nelson Sargento, têm seus retratos na parede do museu, que fica no terceiro andar do Palácio do Samba, que substituiu a antiga quadra.

Pouco antes dos seus 80 anos, quando foi feita esta matéria, a escola se preparava para entrar na avenida (aliás, no sambódromo), com cerca de 4,5 mil integrantes, em lugar dos 60 a 70 que saíram pela primeira vez no carnaval. No ensaio, a menina do morro está lá, aprendendo com a mãe, com as irmãs, em um rito que talvez seja o verdadeiro significado de escola de samba. Os ritmistas mantêm a batida do surdo da Mangueira, que toca de modo diferente de todos os outros (veja explicação no quadro), os sambas de carnavais antigos são tocados para “esquentar”, isso tudo em meio às câmaras digitais dos turistas de todo o mundo, das imagens feitas pelas TVs e de um grande esquema de segurança. Chama a atenção também o grande número de “apoios” e propagandas de empresas, a venda de camarotes para as corporações.

Toda a tradição e a fama da escola são fáceis de explicar, já que os mangueirenses afirmam que, das grandes escolas que permaneceram, ela é a mais antiga. Foi a primeira campeã em um desfile oficial, em 1932, ganhou inúmeros de carnavais, revelou compositores etc. As mudanças por que passa talvez deixem um certo travo na língua dos mais puristas. Diante da pergunta de por que a escola nos seus 80 anos não homenagear o centenário de Cartola, que também será completado em 2008, o diretor do departamento cultural da escola Fernando Antônio Guerra Peixe lembra que em 1983 Cartola foi homenageado e que a Mangueira do Amanhã vai homenagear o compositor neste ano. Mas ao mesmo tempo questiona: “Quanto você acha que custa para botar um desfile na avenida e disputar para ganhar um campeonato. Entro num acordo contigo, escolha um enredo para 2010 e pode arrumar uns R$ 6 milhões, 7 milhões. Onde se vai tirar esse dinheiro, quem é que vai bancar?

Como exemplo, conta que, para este ano, a escola recebeu proposta do governador Sérgio Cabral Filho para fazer enredo sobre o Rio de Janeiro. “Ele nos dava R$ 2 milhões. Aí Recife mandou nos chamar e deu R$ 3 milhões. Você prefere falar sobre o Rio ou sobre o frevo? É dinheiro, é R$ 1 milhão a mais. Nosso carnaval está orçado em R$ 6 milhões, 7 milhões. Não é fácil não”. O tema escolhido em 2008 foi, claro, o centenário do frevo, com patrocínio milionário. Mas antes de alguém apontar o dedo e dizer que a Mangueira “se vendeu”, é bom lembrar que todas as escolas do Rio e São Paulo estão inseridas em mercados com cobertura televisiva planetária e milhões movimentados no comércio por causa da festa de Momo.

A Mangueira faz hoje conta de chegada para botar seu carnaval na rua, mas não é só ela. Cada escola recebe cerca de R$ 3 milhões por ano entre porcentagem dos ingressos, venda de CD com sambas-enredo, direito de transmissão pela TV e ajuda de custo dos governos estadual e municipal. Mas muitas acabam gastando até mais que o dobro disso para entrar no sambódromo.

Participação feminina

Ao mesmo tempo em que se rende ao mercado das escolas, a Mangueira mantém algumas tradições e está passando por cima de outras. O verde-e-rosa está lá e continua em todos os lugares, mas pela primeira vez uma mulher assumiu sua presidência. Eli Gonçalves da Silva, Chininha, é filha de dona Neuma, outra figura histórica da escola que tem seu retrato pendurado na parede do museu, e neta de Saturnino Gonçalves, o primeiro presidente da Mangueira. Chininha era vice-presidente há seis anos e assumiu o principal cargo em dezembro de 2007, depois da renúncia de Percival Pires, presidente que saiu depois de acusações que o ligariam ao tráfico de drogas, como a de ter participado de uma homenagem à esposa de Fernandinho Beira-Mar em sua festa de casamento.

Chininha assumiu e teve de enfrentar, também no começo de janeiro deste ano, como se fosse um verdadeiro inferno astral pré-80 anos, acusações de que haveria túneis usados pelos traficantes do morro que sairiam na quadra da escola. Em depoimento à polícia, admitiu que traficantes freqüentam a quadra da escola, mas que eram meninos que ela viu crescer e não vendiam drogas lá. Também alegou não saber da existência de nenhuma passagem secreta. Em meio a tanto pepino para administrar, acabou adotando a postura de se concentrar nos poucos dias que faltavam para o carnaval, botar a escola na rua, para depois ver o que fazer para o futuro.

Mas a ampliação da participação feminina não foi apenas na presidência da escola. Pouca gente sabe, mas até 2007 não eram admitidas mulheres na bateria da escola. Tudo porque, em 1928, quando a Mangueira foi batizada por uma entidade de umbanda, esta entidade teria pedido que nunca tivesse “rabo-de-saia” tocando na bateria. Isso perdurou até o ano passado, quando foram selecionadas dez ritmistas, que passaram a fazer parte da bateria.

Se na bateria a exclusividade masculina caiu em 2007, a participação das mulheres na composição dos sambas começou 20 anos antes, com O Reino das Palavras, que Verinha dividiu com Rody e Bira do Ponto, num dos 17 enredos vencedores do Carnaval carioca que a escola tem em sua sala de troféus. É bom lembrar que a primeira mulher a participar da Ala dos Compositores foi Lecy Brandão, mas que nunca ganhou o concurso do samba da escola. Outra cantora e compositora famosa, mangueirense de coração, é Beth Carvalho. Embora mais lembrada pela confusão que aconteceu no ano passado, em que foi impedida de entrar num carro alegórico.

Questionado sobre o que ocorreu com a Beth Carvalho, Guerra Peixe, o diretor cultural da escola, disse que houve um desencontro. De acordo com ele, Beth teria mandado seu empresário ligar para o presidente da escola 15 dias antes do Carnaval e dizer que ela desfilaria no último carro alegórico. O presidente teria dito ao empresário que “não era assim. Se quisesse desfilar, deveria ter ido à Mangueira, procurado o carnavalesco e não poderia determinar em que carro sairia”, afirma. E diz que depois disso o Conselho de Carnaval pediu que comparecesse à escola, mas ela não apareceu. Depois ocorreu o que todos viram pela TV.

Beth prefere não falar nada sobre isso, diz que seu problema foi com a direção da escola, não com a Mangueira, que continua em seu coração. Conta como começou seu amor pela verde-e-rosa: “Quando criança, minha mãe adorava carnaval e ia ver os desfiles na avenida Rio Branco. Ela alugava um caixote para eu ficar mais alta e ver. Quando passou a Mangueira, aos sete anos a elegi em meu coração para sempre. Comecei, desde então, a dizer ‘sou mangueira’, num tempo em que não era comum a classe média ter uma escola. Passei a adorar a Mangueira e me vestir de verde e rosa”. Depois, ainda adolescente, passou a freqüentar a antiga quadra. Desfilou pela Mangueira por 37 anos, mas em 2008 diz que vai homenagear a escola no desfile da Viradouro. “Eles vão fazer uma homenagem aos 100 anos do Cartola, no carro ‘As Rosas não Falam’, música que consagrei e consagrou o Cartola mais ainda. O convite foi irresistível”, complementa.

O Bloco dos Arengueiros

Para entender de onde vem tanta tradição é necessário voltar à história da verde-e-rosa e do morro do qual a escola herdou o nome. Segundo relato da página eletrônica da escola (boa parte tirada de livro do escritor Sergio Cabral), em 1852, a elevação vizinha ao primeiro telégrafo aéreo do Brasil era conhecida como morro dos Telégrafos. Depois, foi instalada uma indústria que produzia chapéus e que passou a ser conhecida como “fábrica das mangueiras”, já que a região era uma das principais produtoras de mangas do Rio. Não demorou muito para que a empresa mudasse de nome para Fábrica de Chapéus Mangueira. Em 1889, a Central do Brasil batizou de Mangueira a estação de trem inaugurada aos pés do morro.

Outro fato importante ocorreu quando, em 1908, a prefeitura carioca decidiu reformar a Quinta da Boa Vista e, para isso, demoliu dezenas de casinhas ali construídas para soldados que serviam no 9° Regimento de Cavalaria. Com a permissão de carregar os restos da demolição para onde bem entendessem, os militares escolheram instalar-se no morro de Mangueira. Outro incremento na população da área foi o incêndio que, em 1916, destruiu inúmeros casebres do morro de Santo Antônio, no centro da cidade, cujos moradores acabaram indo para lá. Surgia assim em Mangueira uma comunidade de gente pobre, constituída quase que na totalidade por negros, filhos e netos de escravos.

Daí para a fundação da escola foram poucos anos. A origem refere-se à dissidência aos blocos que existiam no morro. Esses blocos que brincavam o carnaval eram todos familiares ou ligados a instituições religiosas. E alguns jovens na faixa dos 18, 20 anos, como Cartola, Carlos Cachaça e Saturnino, não queriam saber de nada familiar, mas sim de namorar as mulheres do morro, beber, falar palavrões. Sempre expulsos, acabaram criando o Bloco dos Arengueiros (“que faz intriga”, segundo o dicionário Houaiss), que existiu por apenas por dois anos, pois os integrantes entravam no meio de outros blocos vestidos de mulher, brigavam, chamava-se a polícia, eles eram presos. Daí, no dia 28 de abril de 1928, Cartola sugeriu acabar com o bloco e criar uma escola de samba, a Estação Primeira de Mangueira. Sugeriu também o verde-e-rosa, inspirado nas cores de um bloco, o Arrepiados, do bairro de Laranjeiras, em que desfilava junto com o pai quando criança. A escola saiu pela primeira vez em 1929, com cerca de 60 integrantes.

Em 1932, foi campeã do primeiro concurso oficial. Aí vale também uma curiosidade sobre os enredos da época. Nos primeiros, não havia uma letra contando uma história, nem uma música escolhida em concursos disputados a tapa por conta dos direitos autorais da venda do CD. Era feito apenas um refrão e, na hora da apresentação, os “poetas” da escola improvisavam versos na frente dos jurados e a escola respondia com o refrão. Daí ia outro compositor e fazia novo verso e a história ia se repetindo. Tradição que depois foi mantida, de certa maneira, nas rodas de partido alto nos morros.

Mangueira do futuro

As mudanças que vieram depois desse período histórico deram ao Carnaval, para o bem e para o mal, as dimensões de festa planetária, com muito dinheiro e interesses comerciais. No morro, a realidade também foi se transformando. Apesar da violência com que se convive, por causa principalmente do tráfico de drogas, e da pobreza que não deve ter mudado tanto assim desde o começo da escola, há também iniciativas importantes ocorrendo.

Nas palavras de seu diretor, a Mangueira hoje não é mais uma escola de samba, sim uma escola de vida. Segundo ele, passam pelos projetos sociais desenvolvidos, diariamente, mais de 5 mil pessoas, das 45 mil que moram hoje lá. “Temos creche, Ciep, colégio, faculdade (cursos de Pedagogia e Informática) em que não existe cota para branco, negro ou amarelo. O critério é que o aluno nunca pode ter estudado em escola particular”, descreve.

Ele afirma que com isso não existe nenhuma pessoa em idade escolar analfabeta na Mangueira, os analfabetos que existem são os adultos que, por diferentes motivos, não podem ou não querem aprender. É feito também trabalho pelo posto médico que, segundo ele, levou o índice de mortalidade infantil, por dois anos, a zero. Sem contar os projetos de iniciação no esporte na Vila Olímpica. Segundo o diretor, tudo só é possível com o patrocínio de grandes empresas. A Xerox colaborou por 20 anos e, quando decidiu parar, foi substituída pela Petrobras.

Pela dimensão de importância que alcançou a Mangueira, algumas mudanças inimagináveis à época da fundação, como a participação de empresas, para muitos representam a mercantilização de uma paixão. Entretanto, goste-se ou não, este é o mundo em que se move a Mangueira e todas as outras escolas e mesmo outras instituições brasileiras. F

Surdo da Mangueira

A marcação da bateria da Mangueira é única entre todas as escolas. No samba, ritmo em dois tempos, o surdo marca forte o segundo tempo, e tem a “resposta” do outro surdo no primeiro tempo do compasso seguinte. Em todas as outras escolas é assim, só a bateria da Mangueira toca o surdo sem resposta. A origem dessa diferença, segundo o diretor Guerra Peixe, deve-se à localização da escola no morro, próximo ao palácio imperial, em cuja esquina havia um quartel. A batida que se tocava lá era de marcha, com uma única marcação. E a garotada na década de 10, de 20, que ia fazer batucada, repetia a batida igual à que ouvia. A tradição foi mantida quando se introduziu o surdo na bateria da Mangueira, o que perdura até hoje.



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