A Antropofagia Antiimperalista de Oswald de Andrade

Oswald de Andrade deu à antropofagia uma acepção de ritual celebrado para se fortalecer com as virtudes do inimigo morto e derrotado Por Gilberto Felisberto Vasconcellos  ...

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Oswald de Andrade deu à antropofagia uma acepção de ritual celebrado para se fortalecer com as virtudes do inimigo morto e derrotado

Por Gilberto Felisberto Vasconcellos

 

Muito do que se escreveu até agora sobre Oswald de Andrade comete o equívoco de engessá-lo em dualismos sociológicos do tipo arcaísmo vs. modernismo. Esse esquema é fruto de uma péssima sociologia que separa a roça da cidade, e não percebe que o Brasil do século XVI (com os seus engenhos e latifúndios, minas e metais preciosos a partir do século XVII) se inscreve dentro da modernidade expansionista do capitalismo ocidental.
O rítmico binário não dá conta da poesia de Oswald de Andrade.
Oswald não foi moderno porque falou do arranha-céu, das altas e baixas do café. Também é simplismo situá-lo na superposição entre o antes e o depois do Brasil indígena.
Não se trata de retornar à oca, mas também não se trata de passar a borracha e apagá-la. Pouco importa se Oswald viu ou não um índio de carne e osso. Quem não sabe o que significa tecnologia afirma que o índio era carente de tecnologia.
É um equívoco supor que a tecnologia seja uma coisa que vem de fora, o que acaba por legitimar a ideologia do pacote tecnológico externo, ou seja, o progresso confinado ao capital estrangeiro.
Não nos esqueçamos de que a mandioca é comida porque nela exis¬te a tecnologia made in índio. A farinha de mandioca definirá o paladar do homem brasileiro. É a rainha do Brasil, segundo Luís da Câmara Cascudo.
Oswald de Andrade não queria o Brasil chegando ao Primeiro Mundo. Sua antropofagia está mentalmente equidistante tanto do stalinismo soviético quanto do capitalismo estadunidense. Não existe em Oswald essa conversa de periferia. O centro é a periferia. E, no caso, o centro é o Brasil, ou melhor, o território dos trópicos em que vivia a humanidade indígena. Em sua obra, o tempo cumulativo não aponta para a idéia de futuro. Em sua utopia, não há país do futuro, desde o momento em que o português vestiu o índio.

O matriarcado é tecnologia
Décio Pignatari escreveu: “toda vez que o cadáver de Oswald bóia, ele assusta”. E talvez esteja boiando agora.
A antropofagia de Oswald de Andrade é nacionalista e antiimperialista. Por que nosso escritor, quando os índios já estavam favelizados, estropiados, esquecidos ou em processo de serem extintos, erigiu a antropofagia para resumir o que pensava ele do Brasil e do mundo?
Oswald de Andrade resolveu intitular seu pensamento de antropofagia, apegando-se a esse batismo onomástico de 1928 até morrer em 1954. Mesmo defendendo as idéias que defendeu sobre o homem primitivo e o matriarcado, isso poderia receber outro nome, mas ganhou o de antropofagia, que é uma palavra de dimensão polissêmica. E Oswald de Andrade deu-lhe uma acepção de ritual celebrado para se fortalecer com as virtudes do inimigo morto e derrotado.
Não havia fome entre os índios. Nem gula. A maioria das tribos indígenas não tinha esse hábito. A prática antropofágica não era sistêmica. Oswald de Andrade a escolheu no entanto como exemplo de oposição, de resistência, ou senão designando com isso a atitude de não passividade do aborígene diante da invasão colonial. Existe simbolicamente nessa escolha oswaldiana (sabendo que os milhões de índios poderiam estraçalhar aquele punhado de colonizadores) uma dupla referência: a fraqueza do homem catequizado e a denúncia psicológica sobre o comportamento da alienação colonial, mais ou menos o que Glauber Rocha em meados da década de 60 fez com Lampião diante do homem fraco: “Se pedir perdão, eu mato”.
Atualmente surgiu a interpretação leviana, aqui e fora do Brasil, de identificar a antropofagia oswaldiana com canibalismo.
É um erro traduzir para o francês e inglês a palavra antropofagia por canibalismo.
Darcy Ribeiro, no seu livro A Utopia Selvagem, esclareceu a semântica de canibalismo como sendo uma armadilha colonialista, que não tem mais nada a ver com o capítulo escrito por Montaigne, elaborado a partir de seu encontro no século XVI com os três índios tupinambás na França.
Montaigne foi lido por Oswald de An¬drade em São Paulo na década de 20.
Eis o que escreveu Darcy Ribeiro: “Quanto aos canibais, vamos devagar. A palavra vem da expressão Caribe, que era o nome gentílico dos pobres selvagens com que o descobridor topou em 1492 nas ilhas idílicas”. Este descobridor “andou difundindo rumores de que entre eles viveriam gentes de um olho só, com focinhos de cão, comedores de carne humana”. Esta é a notícia civilizada que dá na utopia. “Caribe vira Cariba, Caniba e Canibal.” É isso que Montaigne encontra em 1580, assim como Shakespeare em 1612. Canibal se converte em Calibã. Este nosso avô se danou, canibal, calibã, ao ganhar voz e civilização. Próspero o considera monstrengo, depois de roubar-lhe a ilha. Essa sutileza o Espelho de Próspero de Richard Moore não capta, porque não viaja no conceito de exploração colonialista que engendrará o Próspero imperial. Richard More não fez por aqui a revolução psíquica à Roger Bastide, com suas mães de santo no candomblé.
O legado marxista de Oswald de Andrade está na antropologia dialética de Darcy Ribeiro. Oswald de Andrade iria aplaudir os “brizolões”: olha aí a materialização pedagógica do matriarcado de Pindorama. O problema é que a retomada estética de Oswald de Andrade, feita durante a década de 60, “desmarxizou” a antropofagia, contribuindo para isso o vexame do stalinismo e dos partidos comunistas no mundo inteiro.
A verdade é que, na visão antropofágica do mundo, o marxismo é um componente fundamental. Marx e Engels são citados tanto quanto Freud e Nietzsche.
O primeiro movimento cultural antiimperialista, assim é que entendeu Oswald de Andrade o significado da antropofagia. Antiimperialista porque refratário à política do capital financeiro do banco dominando a fábrica, mas também contra a rapinação metropolitana da colônia, que se traduz pela superexploração do trabalho e pela drenagem para fora dos recursos naturais do país.
Começamos, logo depois do transporte do pau de tingir pano, com o colonialismo de sobremesa: o açúcar. Esse complexo sociológico de abrangência enorme seria estudado por Gilberto Freyre, mas sem que houvesse a indignação nacionalista contra a exploração exógena do território tal qual se observa em Oswald de Andrade, sobretudo da década de 30 em diante, como é o caso do seu teatro de O Rei da Vela, que prenuncia a trágica “Carta testamento” de Getúlio Vargas. O brizolista Darcy Ribeiro sublinhou esse traço no pensamento de Oswald de Andrade: “devorar a estranja e fazer dela estrume com que floresceremos”. Essa programática significa “rir e se armar para caçar e comer quem nos come. Menos para fazer nossa sua carne nojenta do que para preservar nosso próprio sumo”. Aí está sintetizado o núcleo da antropofagia e a sua problemática na contemporaneidade brasileira.
O desafio do presente histórico tem de ser respondido, conforme queria Oswald de Andrade, pela idéia da antropofagia como um processo em curso e dinâmico, caso contrário o que escreveu e pensou o escritor modernista vira algo chapa branca, acadêmico, oficial, peça de museu, ingrediente de telenovela.
Depois que o colonialismo metamorfoseou-se na onipresente instalação das multinacionais dentro do país, a questão política e cultural que se coloca para os brasileiros é de que modo e o que devemos comer da estranja, se é que devemos afinal fazê-lo hoje.
Há meio século o modernismo gastroliterário via no outro nossa comida, o lance de comer quem nos coloniza, porque dessa comida resultaria um sangue nosso e novo, daí o propósito de digerir o colonizador, o estrangeiro, porque nós somos fruto dele, já nos destribalizamos, assim como de negro africano viramos negro brasileiro. E os coadjuvantes internos da dominação externa – o latifundiário e o burguês – também devemos comê-los. E os estamentos e executivos das multinacionais? Mas vamos ficar com a carne, o cheiro, o excremento do que é comido?
Vamos sapecar o FMI na feitura da feijoada? O problema é que hoje a boca banguela do povo mestiço não é a boca cheia de dentes dos índios caetés que comeram o bispo Sardinha no século XVI. Afinal, valerá a pena comer o FMI e o Banco Mundial resignando-se diante da dificuldade ou da impossibilidade de eliminá-lo?
O melhor para nós não será destruir e eliminar o domínio imperialista do que querer comê-lo – ou não poderemos destruí-lo sem antes comê-lo? Mas dele vamos comer o quê? O dólar? A televisão? O míssil? A batata chips? O “bigméqui”? O “répi”? O celular? O transgênico? O rango deles, temperado com adubo nitrogenado do petróleo, é péssimo, sensaboria, faz mal.
Luís da Câmara Cascudo, o historiador da alimentação, nos advertiu que não existe prato de comida made in USA. Já na época de Oswald de Andrade a antropofagia era um beco sem saída, pois carecia de uma efetiva estratégia política para erradicar o imperialismo estadunidense, mas hoje é outro o cenário com o bolivariano Hugo Chávez na Venezuela, que aliás foi anunciado por Oswald de Andrade: o homem equatorial vai falar debaixo da luz vertical do sol e da floresta úmida dos trópicos.



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